“KATARINA!” a voz soou tão alta que parecia que todo o cômodo estremeceu e o corpo dela se encolheu ainda mais abaixo da cama. “eu sinto muito, sinto muito, sinto muito...” sussurrava baixinho, tapando a própria boca para evitar que o soluço do choro fosse alto demais e a fizesse ser achada.
deus, deuses, santos, espíritos, entidades, universo... ela sempre pedia incansavelmente nessas horas para que algo, qualquer coisa mesmo, viesse salvá-la. nada havia ouvido até então. ou talvez só houvesse escolhido ignorá-la. “KATARINA!” a voz a fez estremecer mais uma vez. as feridas da última vez não haviam cicatrizado ainda, tampouco os hematomas, que estavam ou roxos ou amarelados em diversas áreas. não havia mais como esconder direito. não haviam mais desculpas para dar na escola. já havia 'caído', 'tropeçado' e 'batido em móveis' vezes o suficiente. até as outras crianças já desconfiavam de alguma coisa e talvez fosse isso que trazia a ira no homem que chamava por ela. o telefone havia tocado minutos antes e ele a olhara logo em seguida. talvez fosse alguém da escola. provavelmente era já que uma das orientadoras ficara a encarando a semana inteira e questionando da razão de estar sempre agasalhada sendo que era verão. talvez a mulher houvesse descoberto a razão, afinal, o que era péssimo para katarina, pois o lar adotivo atual era severamente pior do que todos os anteriores. tudo em sua mente estava uma confusão, pois se lembrava vagamente de ter entrado num dos portais minutos antes e agora estava ali de novo, no pior dia de sua vida, no momento onde ela chegaria muito, muito próxima de morrer. no momento em que os fragmentos restantes de sua alma, sua inocência e sua personalidade iriam virar pó. sabia exatamente cada coisa que seria feita quando o casal que a adotara faria quando entrassem naquele quarto e talvez por isso estivesse muito mais aterrorizada. não aguentaria viver aquilo de novo. não seria capaz de sobreviver uma segunda vez. “por favor, por favor, por favor, eu não quero morrer... por favor...” implorava com a testa contra o chão pouco antes da porta do quarto ser arrombada. freya provavelmente tinha vergonha da própria prole naquele momento, encolhida, assustada e trêmula. patética. era disso que a chamavam em sua última escola. patética. “katariiiinaaaa...” a voz feminina cantarolada a assustou ainda mais. duas mãos surgiram contra a beirada da cama, erguendo a mesma e revelando os rostos sorridentes. kaa gritou. gritou tão alto que o peito e a garganta arderam. não adiantaria, ela sabia. deveria lutar, ela sabia. mas só foi capaz de gritar.