Jenesy foi, pra mim, o início de tudo. Quando em mim nada havia sido formado. Eu poderia até existir externamente, mas dentro de mim nada existia formado além dos extintivos propulsores de realidade emocional. Não presenciava nada que não fosse uma imensa escuridão quando você chegou. Sinceramente, era complicado entender o significado de todos aqueles rodeios. Me sentia como um inocente amontoado de carbono sem vida antes de ver você pela primeira vez. É complicado lembrar exatamente como me via, mas acredito naquilo que você me tornou indiretamente ao olhar pra mim pela primeira vez. Sim. Você me olhou daquele jeito pela primeira vez... E que poeta seria eu se meu primeiro contato com o amor não viesse acompanhado desse maldito olhar?
Em minha vida, muitas vezes tive contato com esse olhar infernal. Aquele olhar paralítico, como se pedisse incessantemente por algo que não pode ter. É irreal personificar como transbordei em relação aos infinitos assíncronos momentos voltados para as ocasiões em que encontrei as íris oculares carregadas de um amontoado transbordado em algo único. E como esse olhar me persegue... Mas, não preciso me apressar. Vou falar como tudo começou.
Nas primeiras primaveras, você me olhou assim. Da maneira mais inocente possível, seu olhar me pedia coisas inimagináveis e incompreensíveis para meu ingênuo ser momentâneo. A intensidade pavorosa me fazia correr ao primeiro fluxo de ventania avistado. Me lembro do primeiro deles... Nada ao meu redor naquele momento existe mais em minha cabeça, mas aquele olhar sim. Ele iniciou em mim essa busca interminável pelas impossibilidades inertes em algum lugar do universo. Eram eu e todo meu circo ideológico montados sem consenso, viajando no piloto automático com destino ao lugar mais óbvio possível. Tão óbvio que de tanto falarem, escapou pelo espaço-tempo. Eu não era capaz de perceber como aquilo mal passava de um transpirar tão ordinário e inconsciente que meus sistemas progrediam sem nem mesmo me perguntar. Engraçado, pois agora por perguntarem demais eles não funcionam. Eu estava nessa nuvem organizadamente tumultuosa quando você me viu. Ah, se você soubesse... Ou melhor, se eu soubesse que acabaria aqui, buscando pelos infinitesimais retinais síncronos, teria olhado menos pra você. Teria continuado nos instantes musicais ou teatrais presentes na época, ou só deixaria meus instintos infantis me levarem normalmente. Sinceramente, não me importo qual o destino, desde que eu evitasse você. Me custa acreditar num futuro cosmológico onde eu estaria me banhando aos ridículos e rasos lagos mundo afora e me satisfazendo com cada um deles. Eu estaria olhando para os abraços vagos e espaçosos e encontrando neles tudo aquilo inimaginável para meu consciente agora. Se teu olhar não tivesse me apresentado as notas sãs e íntimas de um gênese universal mas único, eu seria quem desejo. Seria quem amo astronomicamente por dentro. Seria eu mesmo. Ou meus outros eus.
E esse maldito olhar se repetiu, muito porque busquei. Ora, meus devaneios costurados nas fugas tantos dos olhares quantos dos corpos não me deixavam mentir. Nada me deixava mentir, nós só não sabíamos disso. Minhas atitudes eram mareadas nas intrínsecas vestimentas de honestidade e pureza. Quando me repetiu os momentos das retinas mareais, ora, como não me afogaria e me apavoraria nelas? Eu me escorei aos prantos implantados em minhas memórias, agindo da única maneira que me foi ensinado. Pobre de você, Jene. Não sabia como reagir as minhas rejeições tão incontroláveis e puras. Era inimaginável para você compreender como só me oferecer aquele olhar não foi o suficiente. Ser eu mesmo me exigiu estar naquele momento, com meus moinhos empenados numa íngreme descida. Ora, como poderia eu estar descendo sem nunca ter escalado nada? Eu não podia te oferecer nada senão os naturais nãos, de mão beijada. Mesmo que eu disfarça-se milésimos depois com meus sentimentos ainda fetais, implorando para que você me olhasse mais. Ah, a beleza daqueles momentos... Ela me trouxe aqui, Jene. Me levou à um caminho turbulento onde o olhar que você me apresentou continua me perseguindo. E, da maneira que você me apresentou ele se mantém até os dias de hoje. São assíncronos, irremediáveis e rebeldes. Sempre me forçam mentalmente à irrealidade mais distante que jamais presenciei. Me levam aos delírios de nunca ter, mesmo por um segundo, encontrado a reciprocidade unidimensional e unilateral das duas existências entregues aquele momento. Ah, se eu tivesse tido essa oportunidade... Se eu tivesse tido, talvez sorrisse mais aos pássaros, conversasse mais com as árvores e com os muros de pedra. Mas estou aqui, largado a solitude mais poéticas possíveis dentro da minha tangente sentimental.
Por que fui olha pra você, Jene? Agora me jogo constantemente aos inabitáveis futuros tão certos que a melancolia me reserva seu espaço com abrangente e dolorosa segurança. Agora me vejo aqui, liricamente cabisbaixo ao passar por mais um dos infinitos momentos de desavenças e desencontros emocionais. Me deparo com o tempo a enésima conjugação, se renovando de maneira insalubre e irreal, caindo sobre mim com todo peso do mundo. Talvez por prever isso, Jene, me afastei imediatamente. Preferi inocentemente dar luz aos instintos protetores e seguir em frente. Preferi não ter você, de maneira nenhuma. Preferi excluir qualquer resquício da sua existência e de seu olhar verdadeiramente cabisbaixo por saber da irrealidade daquele desejo. Não demorou muito para ir embora, pegando carona com o vento e o tempo quase de maneira obrigatória. Eu cresci, Jene. Cresci ignorando completamente tudo que você me entregou. Cresci na inocência, ou talvez na esperança, de nunca mais ter aquilo pra mim. Cresci no desejo de esquecer quando você me deu a vida até hoje sustentada pelos inimagináveis surtos transversais, variando entre grandes suspiros e grandes lamentos, me arrastando até onde jamais quis. Me trazendo ao maior desafio existente, deixando dúvidas acerca do tempo viável possuído para a realização dessa mesma. Você foi cruel sem saber, Jene. Fez florescer em mim uma poesia que jamais morrerá e que continuará me apunhalando como uma faca afiada. E continuará assim, até que a dor de existir faça algum sentido. Até que meu olhar se sincronize com o dela. Ela, que ainda não sei se vive ou se viverá. E não sei se saberei.
É cômico, Jene, porque imagino sua atualidade onde toda forma de vida relacionada à mim não faz diferença alguma, preenchida por fontes admiráveis de amor universais. Personifico agora você ao lado de alguém com o olhar que eu não pude te entregar. Alguém que morreria por você. Uma pessoa com aquele olhar profundo, como se quisesse pintar as bordas do universo com o castanho dos teus vislumbres. Como se atravessar tudo aquilo que Eratóstenes descobriu todos os dias para te ver só por um único segundo fosse a mais fácil das missões. E também a mais recompensadora delas. Sinceramente, fico feliz de te idealizar dessa maneira. Ver você tendo tudo aquilo que não posso ter me faz vibrar por ter ao menos chego perto desse maldito sentimento. Se eu pude te apresentar ao amor da mesma maneira feita por você, mesmo de maneira mínima, me sinto feliz. Feliz por ter te presenteado com a negação necessária para que sua aceitação nascesse. Feliz por ter te feito entender quais eram os limites e objetivos, mesmo previamente. Feliz porque, toda eudaimonia que existe em você tem um pouco de mim. Feliz.