Durante anos acreditou que bastava alcançar determinada meta. A promoção. A aprovação. O casamento. A casa. A viagem. O reconhecimento.
Quando finalmente acontece, há alegria. Há alívio. Por alguns dias, semanas ou meses, parece que agora tudo encontrou seu lugar.
Então, quase sem fazer barulho, a mesma pergunta retorna.
Também não é falta de disciplina.
É um fenômeno curioso: toda conquista parece enorme antes de ser alcançada e surpreendentemente pequena depois de ser possuída.
Talvez isso não aconteça apenas com você.
Observe qualquer sociedade. Mudam as épocas. Mudam as tecnologias. Mudam os objetos de desejo. Mas a dinâmica permanece a mesma. O ser humano continua convencido de que a próxima conquista encerrará definitivamente a busca.
Não porque as conquistas sejam ruins, mas porque parecem incapazes de sustentar o peso das expectativas que depositamos sobre elas.
Talvez o problema não esteja naquilo que buscamos.
Talvez esteja naquilo que esperamos encontrar.
É curioso perceber também o quanto evitamos o silêncio. Preenchemos cada intervalo com música, vídeos, trabalho, notificações, metas, entretenimento e conversas. Não apenas porque gostamos de estar ocupados, mas porque o silêncio costuma fazer perguntas que a distração consegue adiar.
Pascal percebeu isso ao observar que o homem dificilmente suporta permanecer sozinho consigo mesmo.
Talvez a distração não seja apenas lazer.
Faça agora uma pergunta simples.
Existe alguma experiência que tenha sido suficiente?
Alguma beleza que dispensasse toda outra beleza?
Algum amor que eliminasse para sempre toda sensação de ausência?
Alguma conquista que encerrasse definitivamente o desejo?
Se a resposta é não, restam poucas possibilidades.
Ou existe um defeito profundo na própria condição humana, condenando-nos a desejar aquilo que jamais poderá existir.
Ou estamos esperando das coisas finitas aquilo que elas nunca tiveram a capacidade de oferecer.
Talvez a fome não seja grande demais.
Talvez o alimento seja pequeno demais.
É justamente nesse ponto que nossa maneira de viver começa a mudar.
Quando esperamos que coisas finitas resolvam uma necessidade que parece infinita, deixamos de apenas apreciá-las e passamos a depender delas.
O trabalho deixa de ser trabalho e passa a carregar o peso da identidade.
O relacionamento deixa de ser encontro e passa a carregar o peso da salvação.
O dinheiro deixa de ser recurso e passa a carregar o peso da segurança.
O reconhecimento deixa de ser consequência e passa a definir quem somos.
Nenhuma dessas coisas suporta esse peso.
Mas porque nunca foram feitas para ocupar esse lugar.
Há mais de dezesseis séculos, Agostinho deu um nome para esse fenômeno.
Chamou-o de coração inquieto.
Como a sede aponta para a existência da água.
Como a fome aponta para a existência do alimento.
Como a saudade revela que houve, ou deveria haver, um lugar ao qual pertencer.
Talvez essa inquietação não seja apenas um problema a ser resolvido.
Uma pista de que existe uma desproporção entre aquilo que somos e tudo aquilo que este mundo consegue oferecer.
Se toda conquista termina deixando espaço para outra…
Se nenhum amor elimina completamente a sensação de ausência…
Se nenhuma beleza consegue esgotar o desejo pela beleza…
Então talvez a pergunta mais importante não seja:
“Estou procurando, nas coisas certas, aquilo que nenhuma coisa pode oferecer?”
Agostinho encerra sua reflexão com uma frase que atravessou os séculos:
“Tu nos fizeste para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”
Talvez a inquietação nunca tenha sido a evidência de que há algo errado com o ser humano.
Talvez seja, precisamente, a evidência de que ele continua procurando, em tudo o que é passageiro, aquilo que só poderia ser encontrado no que é eterno.