Depois, aquilo tudo. Fui atrĂĄs de Ana e marquei um novo encontro. Ana aceitou o encontro, mas nĂŁo o beijo. Dissimilou, simulou concorrĂȘncias. Desisti, ela me telefonou. Nos beijamos, fomos ao cinema, tentamos fazer sexo, mas minha gravata ficou com um nĂł preso na minha boca, e o clima se foi. AĂ, transamos. Eu andei sumido, por sete dias consecutivos. Ela jurou nĂŁo ficar mais comigo. Depois, se rendeu. Nossas mĂŁos suaram, o medo fugiu. Elegemos âWonderful Tonightâ como canção perfeita para nĂłs dois. Ouvimos 392 vezes a mesma canção. Critiquei o fato de ela dormir de edredom e ventilador. Sorrimos na fila do supermercado, compramos camisinha, ela conheceu minha mĂŁe. Tomamos banho juntos. Ela ficou pra jantar. Ficou pro cafĂ©-da-manhĂŁ. Disse que ficaria para todo o sempre. Me contou sonhos sem nexo. Me fez decorar a fĂłrmula de Bhaskara. Sentiu-se envergonhada quando sentiu porra escorrendo pela primeira vez entre os tornozelos, acoada sobre a cama. Disse coisas baixinho. Me entregou cartas amorosas, falou de mim com amigas, encheu o saco das tais amigas. Pediu coisas com voz de criança, mĂșsica no violĂŁo em madrugadas de brisa. Foi pervertida, foi perseverante, foi perversa. Me deixou com cara de bobo. Discutiu a relação na porta da locadora de filme. Me levou atĂ© o interior para o casamento de uma prima. Correu ao me lado em volta da lagoa. Me apresentou com beijos molhados - na escola de culinĂĄria tailandesa, na formatura de um colega de laboratĂłrio, numa roda-gigante, na fila do banco, numa missa de sĂ©timo dia, no Burguer King. Nadou numa piscina de bolinhas. Andou dispersa. Sentiu ciĂșmes. Gritou comigo. Teve medo da chuva, de sapos, do fim. Conheceu novos tipos de abraço. Foi em mais shows de rock, estĂĄdios de futebol e peças de teatro ao ar livre. Brigou comigo, me mandou embora, sentiu o peito queimar. Me ligou dezessete minutos depois. Abriu a porta e me deixou entrar outra vez. Abriu um sorriso por conta de outro sorriso. Comeu brigadeiro de panela, foi obrigada a usar chinelo, tomar vacina, comer peixe, tomar porre, fazer exame de HIV. Sentiu nojo quando beijada no nariz. Foi obrigada a ler On The Road e nĂŁo chegou Ă terceira pĂĄgina. Leu conto do Bukowski, odiou, e disse que o velho safado nĂŁo passava de um porco. Me ensinou a fazer feijĂŁo Ă mineira. Aprendeu a calibrar pneus. Foi caçoada pela calcinha com elĂĄstico frouxo. Fez amor. Perdeu um orgasmo. Fez sexo achou trĂȘs. Dormiu no sofĂĄ. Me chamou de grosso e estĂșpido. Comemorou um ano e meio. Ganhou brincos prateados. Me espremeu alguns cravos, me cravou dentes, plantou cravinas na varanda. Tivemos aquela discussĂŁo sobre impossibilidades de adaptar o roteiro de P.S Eu Te Amo para a vida real. Pegou meias emprestadas. PĂŽs colchĂŁo no chĂŁo da sala. Fingiu nĂŁo chorar quando a personagem Mandy Moore morre. Comprou teste de gravidez pela primeira vez e o balconista sorriu nervoso. Senti ausĂȘncia e nĂŁo terminou. Ganhou colo quando perdeu um parente. Foi teimosa. Foi chata. Foi burra. Fez piadas. Fez cena. Fez pum. Perdoo, enjoou, entendiou, debochou, doou. Reclamou do calor, do tĂȘnis no meio do corredor, porque nĂŁo ganhou beijo de chegada. Perdeu medo de montanha russa. Perdeu o medo de lesma. Cresceu profissionalmente. Construiu um ĂĄlbum de fotos, organizado, contando uma histĂłria. Me inspirou em cançÔes. Conheceu uma pessoa. Foi embora.