Park Haewon - Side A
O diário.
Eu sabia o que ele era, mas não sabia quem ele era. Vim atrás de Park Sunghoon. Ou melhor, vim para mostrar a ele a verdade. Eu precisava fazer isso. Eu devia fazer isso. Não era justo. E se tem uma coisa que eu odeio nessa vida são injustiças.
Fugi de casa, ou melhor, fugi da cidade onde nasci, onde cresci e de onde eu me tornei aquilo que eu acabara de abandonar. Eu não queria ser uma caçadora, eu não queria me envolver com algo tão perigoso assim. Eu só queria ter uma vida normal. Sabe? Sem viver naquela mentira que meus pais me fizeram acreditar durante 17 anos da minha vida.
“Você é pura, minha filha. Você é amada por nós desde quando foi gerada. Vamos fazer de tudo por você”
De tudo por mim…Mas e por ele? por que não fizeram de tudo por ele também? Porque fizeram aquilo com ele? Por que não fizeram a mesma coisa comigo?…
Desculpa, mas vocês nunca poderiam ser capazes de “fazer de tudo” para uma filha que foi gerada logo após o sacrifício que fizeram. Eu descobri tudo. Eu sei de tudo. E eu não aceito estar aqui. Eu não aceito ser filha desses….monstros? Os verdadeiros monstros de toda essa história.
Eu preciso achá-lo. Eu preciso encontrá-lo. Eu preciso contar a verdade a ele. Afinal, ele ainda é o meu irmão.
~
Vasculhando coisas antigas em minha casa pude notar algo que chamou a minha atenção. Era um quadro. Um quadro que parece ter sido queimado, mas que não havia conseguido ser destruído. Mamãe e Papai seguravam um bebê no colo. Estava vestindo um pano azul. Era um menino.
Meus pais sempre fizeram questão de enfatizar que eu era a única na vida deles. Que eu era pura, que eu merecia ser amada. Mas todas as vezes em que escutava aquilo, aquele mesmo discurso de sempre…não me sentia completa. Nem feliz. E nem triste. Me sentia vazia. Me sentia…..egoísta.
Depois do dia que encontrei aquele quadro no porão onde meus pais sempre enfatizaram que eu não pudesse subir “por que tinha um monstro lá que ia me pegar e me levar para longe”. Entendi o motivo pelo qual eu era proibida de acessar aquele canto da casa. Eles escondiam uma verdade sombria e mórbida. Desumana e nojenta.
Enfim, pesquisei em tudo, em todos os lugares. E acabei descobrindo que eles sacrificaram meu irmão antes de engravidarem de mim. Eu vomitei quando descobri isso estou falando sério.
Entrando em contato com o acampamento de treinamento onde ele foi levado e adotado por quem o comandava. Fiquei sabendo que a poucos dias ele havia se mudado para uma cidade chamada Seul. Era muito longe daqui. Mas eu não tinha nada a perder.
—
Eu sabia o que ele era. Mas não sabia quem ele era. Vim atrás de Park Sunghoon. Ou melhor... vim para mostrar a ele a verdade. Porque alguém tinha que fazer isso. Porque eu precisava. Porque era o certo. E se tem uma coisa que eu nunca consegui aceitar nessa vida, é injustiça.
Fugi de casa. Da cidade. Do nome que carregava. Fugi da mentira que vivi por 17 anos. Fugi de quem me tornei. Deixei para trás o sangue de caçadora que me forçaram a carregar. Tudo o que eu queria era uma vida normal. Nada de espadas. Nada de entidades. Nada de rituais. Nada de mentiras.
“Você é pura, minha filha. Você é amada por nós desde o ventre. Faremos de tudo por você.”
De tudo por mim…mas e por ele? Por que não fizeram tudo por ele também? Por que o entregaram? Por que o sacrificaram? Por que não fizeram comigo o mesmo?
Desculpem, mas… vocês nunca poderiam dizer que fariam de tudo por uma filha, após o sacrifício que fizeram. Vocês não me protegeram. Vocês me usaram para limpar a própria consciência. Vocês me fizeram acreditar que eram heróis. Mas eu sei agora. Eu sei de tudo. E não aceito mais estar aqui. Eu não aceito ser filha dos verdadeiros monstros dessa história.
Preciso encontrá-lo. Preciso olhar nos olhos dele. E contar a verdade. Porque ele…ainda é meu irmão.
O meu irmão mais velho.
Foi no porão, aquele lugar onde eles sempre diziam para eu nunca entrar. "Tem um monstro lá", eles diziam. "Ele vai te pegar e te levar embora." E estavam certos.
O monstro que eles temiam era a verdade.
Eu encontrei um quadro. Quase queimado. Quase destruído. Mamãe e papai seguravam um bebê no colo. Um menino, envolto num pano azul. Eles diziam que eu era única. Pura. Escolhida. Mas toda vez que me repetiam isso...eu sentia um buraco dentro de mim. Não era tristeza. Nem felicidade. Era vazio. Era egoísmo. E agora eu entendo por quê.
Depois daquilo, comecei a investigar. Tudo. Todos os rastros. Até descobrir quem era aquele bebê e o que fizeram com ele. Descobri que meu irmão foi entregue. Oferecido. Sacrificado. Antes mesmo de eu existir. Eu vomitei. De verdade. Como se meu corpo quisesse expulsar o sangue da mentira que corre em mim.
Localizei o antigo campo de treinamento. Eles me disseram que ele havia sido levado para lá… E que há poucos dias, havia se mudado para uma cidade chamada Seul. Era longe. Muito longe. Mas eu não tinha mais nada a perder.
E ele tinha tudo a descobrir.
~
Dias haviam se passado desde que deixei tudo para trás. Agora, tudo o que eu tinha era uma missão: encontrar o meu irmão. As informações que recebi no acampamento eram vagas. Nenhuma foto atual. Apenas uma imagem antiga.
Ele com cerca de 12 anos. Olhos baixos. Olhar perdido. Dentre todas as características, uma me chamou atenção: uma pinta no nariz. Marcante, visível. Cabelos escuros, nariz fino… ele parecia……triste.
Mas o que mais me chamou atenção não foi sua aparência. Foi o que disseram sobre um diário.
Segundo os instrutores que aparentemente já estavam na casa dos 80, Sunghoon não se separava dele. O diário era quase uma extensão do próprio corpo.
Curioso. Eles comentaram que Sunghoon estava sempre sozinho e que por ser diferente dos outros aquele diário era a única coisa que ele tinha para se sentir bem ou para expressar seus pensamentos. Ensinamentos.
Aquele senhor me disse que aos 12 anos de idade ele já conseguia comandar uma linha inteira de caça. Era melhor do que todos aqueles caras. Sempre foi muito forte. Ele não parecia 100% humano.
Passei mais ou menos 1 mês fazendo pesquisas sem meus pais saberem. Não sei o que poderiam ser capazes de fazer comigo se soubessem que agora eu saberia do que eles escondem a sete chaves.
Querendo ou não… eu também era uma garota sozinha. Mas, diferente do meu irmão, a minha solidão foi uma escolha.
Sempre fui inteligente. Sempre soube o que queria da minha vida. E viver cercada por tudo aquilo — rituais, mentiras, medo e silêncio. Nunca me fez feliz. Nunca me pareceu justo.
Desde pequena, eu sonhava em sair. Sozinha. Explorar o mundo. Ser uma pessoa comum. Sem carregar sangue, maldição, promessas ou culpa. Eu sabia que podia me virar. Ainda sei. Mas...Seul é imensa. E ele…Ele poderia ser qualquer um naquela multidão.
Não sei onde ele mora. Não conheço sua voz. Nem sua risada. Nem o olhar que ele tem hoje. Tudo o que eu tenho é uma foto. Aquela mesma. Com ele pequeno, perdido, aos 12 anos. E o seu nome.
Já fazia alguns dias que eu havia chegado. Ainda nada. Nenhum rastro.
E para todas as pessoas que sai perguntando ninguém havia visto aquele menino da foto só que alguns anos mais velho.
Sendo bem honesta...eu já estava começando a perder as esperanças. Caminhava por uma rua longa, reta, cabeça baixa, o pensamento disperso. Foi aí que esbarrei com alguém. Um garoto. Alto. Nariz fino. Cabelos pretos. Meu coração parou por um segundo. Seria ele? Park Sunghoon? Ficamos nos encarando por alguns instantes. Ele tinha uma expressão levemente confusa, como se estivesse parado ali há algum tempo. Como se também procurasse alguma coisa.
— Você tá bem? Por que tá me olhando assim?
“Sunghoon?”
Quase escapei esse nome em voz alta. Mas me contive.
A foto.
Tirei ela do bolso, tremendo levemente, e mostrei a ele.
— Você conhece esse garoto?
Ele pegou a foto com cuidado. Olhou por alguns segundos. Virou a cabeça de leve. Franziu o cenho. Mas no fim… balançou a cabeça em negação.
— Sinto muito, não… não conheço.
Ele era… parecido. Mas, agora que eu olhava de perto, faltava algo: aquela pinta no nariz. Não era ele.
— Estou procurando por ele…meu irmão. O nome dele é Park Sunghoon.
— Ah… entendo. Sinto muito mesmo. Mas… se quiser, posso anotar seu contato. Estou sempre por aqui. Se eu encontrar alguém parecido, te aviso.
Ele foi gentil. Tinha um sorriso bonito. Mas não era Sunghoon.
— C-claro. Me chamo Haewon. Vou te passar meu número.
Peguei o celular e fui ditando. Ele salvou o contato.
— Me chamo Taesan. Han Taesan. Moro aqui perto. Se eu o vir por aqui, te aviso, Haewon.
— Obrigada. Ele deve ter uns… 22 anos hoje. Essa foto é antiga.
Ele sorriu e torceu o nariz levemente. Era bonito. E gentil. Mas... foco, Haewon. Agradeci e segui em frente.
Entrei em outro bairro que ainda não havia explorado. Olhei para trás uma última vez. Vi Taesan parado, olhando fixamente para dentro de uma galeria fechada. Como se procurasse por algo também. Mas eu segui. Foco.
Assim que entrei no novo bairro, escutei sirenes. Várias. Ambulância, polícia… Me aproximei. A rua era inclinada. Um prédio velho ao lado. E bem ali, em frente, uma ambulância estacionada. Tiravam alguém numa maca. Sangue. Na camiseta.
Meu corpo gelou.
Tentei me aproximar mais. Mas antes mesmo de chegar perto, ouvi um dos bombeiros dizer:
— Aparentemente o nome dele é Park Sunghoon, 22 anos…
— Colapsou, eu acho.
O quê?
Não tinha como ter certeza. Mas...Eu sabia. Assim que eles foram embora, me aproximei do prédio. A porta? Arrombada. Nem existia mais. Entrei. Sangue. Pelo chão. Pelas paredes. No banheiro. Meu Deus... o que aconteceu aqui? Será que ele... tentou se matar?
Eu não podia perder tempo. Corri até o quarto. Abri gavetas. Vasculhei o armário. Eu precisava encontrar o diário. Era invasão de privacidade? Sim. Mas era minha única chance. Minha única maneira de me aproximar dele. E então… encontrei. O diário. Peguei. Segurei firme. Corri para fora sem olhar para trás. O mais rápido que consegui.
Eu vou te ajudar, eu vou te ajudar a descobrir o que você é. Você não precisa mais viver sozinho. Eu estou aqui agora











