Tamino Abraça o Amanhecer:
O mĂșsico belgo-egĂpcio conversou com a Paste sobre escrever com urgĂȘncia, criar intimidade por meio de visuais e seu novo ĂĄlbum, Every Dawnâs a Mountain. Por Anna Pichler | 15 de julho de 2025 | 11h00.
TaminoâAmir Moharam Fouad â conhecido simplesmente como Tamino â se apresenta para plateias lotadas ao redor do mundo, recebe elogios de artistas como Lana Del Rey e o baixista do Radiohead, Colin Greenwood, e estampa outdoors como rosto de uma nova campanha de fragrĂąncias da HermĂšs.
Mas, olhando para trĂĄs, ele lembra de um garoto magrelo de 14 anos, sentado ao piano, escrevendo sua primeira canção sobre uma garota. Como muitos hinos juvenis de amor, a composição, nas palavras dele, âmeio que era ruimâ. Mas isso nĂŁo importava: desde aquele primeiro contato com a composição, o jovem mĂșsico belgo-egĂpcio ficou viciado.
Em 2017, ainda adolescente, Tamino lançou seu primeiro single, âHabibiâ, que, em retrospectiva, foi uma amostra do que viria a caracterizar sua arte: elementos sonoros que refletem suas origens egĂpcias e libanesas, letras que transformam emoçÔes intensas em imagens tangĂveis, e uma voz ao mesmo tempo virtuosa e visceral. Em junho (trĂȘs anos depois), na entrevista por vĂdeo que durou mais de uma hora, ele estava em turnĂȘ pela AmĂ©rica do Norte e Europa promovendo seu terceiro ĂĄlbum, Every Dawnâs a Mountain, lançado em março pela erÄmia/Communion Records.
No vĂdeo, o mĂșsico de 28 anos surge vestindo camisa verdeâminta e joias discretas, com um sorriso acolhedor que dissipa qualquer nervosismo â algo tĂpico de sua personalidade, apesar de se declarar introvertido.
Ele conversou sobre o perĂodo em que escreveu o ĂĄlbum em sua antiga casa, em AntuĂ©rpia, e descreveu a obra como âum altar metafĂsico para o que havia sido perdidoâ. Relutante em dar detalhes â por medo de reduzir a complexidade emocional do disco â, afirmou: âA experiĂȘncia de perda tomou muitas formas. Acho que o disco contĂ©m mĂșltiplas camadas.â No outono de 2023, Tamino mudou-se de AntuĂ©rpia para Nova Iorque â uma decisĂŁo cuidadosamente pensada, apĂłs vĂĄrias visitas. A transição nĂŁo foi simples: pouco antes de partir, seu relacionamento de sete anos terminou e um amigo Ăntimo faleceu, encerrando dois capĂtulos importantes de sua vida. âForam sete anos â dizem que Ă© como um ciclo de vida, em que todas as cĂ©lulas do cĂ©rebro sĂŁo substituĂdas.â
Sobre sua tendĂȘncia ao perfeccionismo, ele revelou com sinceridade: âEu tento evitar minhas prĂłprias mĂșsicas... Depende do meu humor. Posso ficar profundamente inseguro em relação ao trabalho finalizado.â A relação entre este ĂĄlbum e seu antecessor, Sahar (âuma palavra ĂĄrabe que significa âlogo antes do amanhecerââ), tambĂ©m foi discutida. Ele argumentou que o Ășltimo verso de Sahar â âBefore I step into darker daysâ â jĂĄ prenunciava Every Dawnâs a Mountain. Tanto o tĂtulo quanto o conceito transbordam continuidade natural.
O tĂtulo faixa-tĂtulo nasceu de um momento criativo visceral. Ele descreveu a energia da composição como estar âdando Ă luzâ: sentiu que tinha de registrar a mĂșsica imediatamente, antes que morresse. Logo o resto do ĂĄlbum tomou forma ao redor dessa urgĂȘncia. Gravado entre o inverno de 2023 e o inĂcio de 2024, com os produtores PJ Maertens e Eric Heigle, o ĂĄlbum possui uma qualidade âauto-construĂdaâ: melodias se desdobram com autonomia, conferindo ao disco uma atmosfera Ăntima, como se fosse uma gravação caseira.
CançÔes como âDissolveâ exemplificam seu compromisso com o tema da cura: sobre sintetizadores, cordas orquestrais e seu instrumento tradicional, o oud, Tamino canta: âA line dissolves between each soul / That I will come to weave in my song / More, and more, and moreâ Esse trecho simboliza sua promessa de seguir adiante, enquanto preserva o que foi perdido â um retorno ao Bob Dylan, lembrou o entrevistador.