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Desconfortável sob a pedra de sua pira
Ansiando o calor do fogo renovador
ReclamarĂŁo as cinzas do frio?
Ingratas do calor abrasante
Que as transformou para sempre?
Sim, a lua vem e abandona
Mas ela volta, sempre
E mesmo a folha mais recente,
a mais pequena
Insignificante
Escondida e tĂmida
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Fechando os olhos, achou que finalmente acessaria o outro lado, a outra parte que os anciões e os delirantes comentavam a respeito. Estava pronto. A jornada tinha sido satisfatória. Nada mais o prendia a essa existência no mundo material.
Ele inclusive tinha curiosidade pela próxima fase, pela transformação. Por onde ele voaria agora? Não sentia ingratidão. Essas asas agora machucadas o levaram tão alto…
Queria poder relatar, contar a história de vida dele. As aventuras, as criaturas que conheceu pelo caminho. O sorriso de felicidade das injustiças corrigidas, as lágrimas de felicidade que havia presenciado. As risadas que ele próprio deu ao perceber quão tolo foi, muitas e muitas vezes.
De olhos fechados, peito apontando para o alto, as asas abertas ajudando a flutuar na água que agora parecia quentinha, com olhos fechados, a existência… piscou.
Assustado, abriu os olhos, mas não adiantava mais. Ele já não era mais o mesmo. Ou talvez o mundo inteiro tivesse mudado.
Com suas forças recobradas, ele se limpa, bicando as partes sujas de sua penugem, e alça voo. As gotas caem de seu corpo pelo caminho.
Lágrimas caem na noite estrelada. O pássaro chora pois não entende o que aconteceu. A lua brilha em seu ápice. Ele está só, mas o mundo inteiro está abaixo dele.
Então ele busca refúgio. Se prepara para o amanhã. Sente como se uma nova aventura, como se a nova fase já tivesse começado. Seu corpo já havia se recuperado, mas sua mente ainda sofria. Ele precisava dormir, ele precisava buscar as respostas no “mundo sem corpo”: o “semi-sonhar”.
O pequeno pássaro sentia que a morte chegava. Ou algo próximo. Felizmente (ou infelizmente), era apenas a “petit mort”. Os sonhos haviam resgatado sua mente, ou o que sobrara dela.
CapĂtulo 2 - LĂrio Arco-iris
Algo aconteceu no sonho, disso o pássaro sabe. Mas ao acordar no dia seguinte, ele não se recordava de nada. Sabia apenas que havia sonhado. Algo importante… ele precisava realizar algo importante.
O impacto da experiĂŞncia foi tĂŁo grande que a Ăşnica coisa que ele conseguiu pensar foi na lenda do lĂrio arco-Ăris, entĂŁo ele iria procurá-lo.
Depois do que a fonte fizera com ele, primeiro recuperando seu corpo, depois destruindo sua pequena mente, ele sentiu que precisava levar uma oferenda, um presente.
Algo da fonte se perdeu quando ele voou pra longe, assustado. Talvez seu antigo eu pudesse ser recuperado, talvez a fonte tenha subtraĂdo o que ele considerava ser sua encarnação anterior.
A jornada levou o pássaro a um reino antigo e abandonado. Não havia mais nenhum traço de vida presente. Apenas os destroços de quem viveu ali, muitos anos atrás.
O trono estava vazio. No suntuoso aposento haviam muitas outras cadeiras, e uma mesa gigante onde um banquete estava servido, mas toda comida havia se tornado mofo, e cogumelos de diferentes tipos brotavam criando uma decoração que apenas a natureza sabia produzir.
Depois de algumas horas, o pássaro estava cansado. Havia procurado por todo o castelo, mas nĂŁo encontrou nenhum traço do lĂrio.
Lá fora, o dia estava ensolarado, então ele pensou em subir na antena mais alta e observar ao redor. Quem sabe bebericar um pouco da água da boca de alguns dos gárgulas que se destacavam por apontarem cada um numa direção cardeal.
Depois de se banhar um pouco poça que havia sido formada no topo do teto de uma das torres, viu algo que o surpreendeu.
Havia um aposento que ele não havia visitado enquanto voava dentro do castelo. As cortinas estavam abertas, mostrando um cômodo que ele ainda não tinha visto, então ele disparou em sua direção.
A janela estava fechada, e ele deu pequenos passos para lá e para cá em busca de algum lugar onde ele pudesse entrar, afinal nesse momento seu corpo pequenino era uma vantagem: ele não precisaria de um lugar muito grande para entrar.
Frustrado por procurar em vão uma abertura, ele encostou no vidro, baixou a cabeça e soltou um pequeno suspiro.
Nessa hora, sentiu um desconforto nos olhos, pois o sol havia refletido algo dentro da sala desconhecida. Era um espelho, oval, mas com contornos que lembravam ramos de uma planta trepadeira.
EntĂŁo ele lembrou que tinha visto um parecido. Onde mesmo?
O reflexo dele surgiu no espelho oval quando pousou na frente dele.
Parecia quando ele dava um rasante sobre uma lagoa, e via aquela imagem, que parecia com ele, mas distorcida, pois o esquerdo era direito e vice versa.
Ele não tinha medo de muitas coisas, ou talvez lhe faltasse a noção do perigo, na verdade, mas não considerava espelhos agradáveis.
Depois de filosofar um tanto sobre espelhos, o pássaro tentou encontrar algum buraco por onde pudesse entrar na sala secreta.
Enquanto não encontrava, reparou na decoração que lembrava uma folha, com bordas onduladas. Então percebeu que uma das pontas tinha uma coloração diferente, mais clara.
Se posicionou segurando com suas garras na beirada do espelho, na parte superior direita, e começou a bicar ela. Depois de várias tentativas, ouviu-se um clique e o espelho começou a tremer.
Assustado, o pássaro saltou para trás, se protegendo atrás de um dos livros de uma das estantes contendo vários volumes com capas de cores, tamanhos e espessuras variadas. Olhando de soslaio, tudo que viu foi o espelho agora fora de seu lugar.
Depois que se moveu para a esquerda, revelou um pequeno buraco por onde o pássaro sabia que poderia passar.
Enquanto voava ao redor da mesa central, viu algo que lhe chamou a atenção: o que quer que fosse, estava coberta por um tecido vermelho, como se um lenço tivesse sido colocado cuidadosamente em cima da cabeça de uma estátua.
Ele procurou o melhor ângulo, cravou sua garras em pleno ar, e puxou o tecido para longe, revelando uma redoma de vidro, e dentro o lĂrio que tanto procurava. O vidro havia se movido um pouco ao tirar o pano.
Como o vidro parecia nĂŁo estar fixado na base negra que segurava a planta, ele resolveu pegar impulso na parede do lado oposto, e se chocar contra ela usando seu ombro.
O vidro se quebrou em milhões de pedacinhos no chĂŁo, e os estilhaços se espalharam pela sala secreta. Felizmente nem ele nem o lĂrio foram atingidos.
Traçou o percurso em sua pequena mente, e então atravessou o buraco da janela que dava para fora, agora com seu acesso desimpedido depois de ter retirado a placa de madeira.
Deixando o reino abandonado para trás, carregando a flor mágica, tesouro do reino, partiu em direção ao local da fonte.
O pássaro não ouviu a voz de dentro da sala dizendo:
“Você fez sua escolha.”
CapĂtulo 3 - Semi-sonhar
A fonte parecia menor, diferente. Ou sua perspectiva mudou desde que havia saĂdo dali no dia anterior? Quem havia mudado?
O pássaro, com zelo, deixa o lĂrio arco-Ăris no centro da fonte como agradecimento.
A flor começa a afundar lentamente, suas cores alternando, transformando a cor da água, antes cristalina, agora começa a ganhar cores cada vez mais brilhantes.
De repente, uma imagem começa a ganhar forma, transformando-se numa fada. Ela sorri, repousando no ar com graciosidade e diz:
“Obrigada.”
“Mas o que eu fiz?” - o pássaro não fala, mas ouve sua voz em sua mente e ela parece compreender.
“Eu lhe dei um presente, vocĂŞ retribuiu.” a pequena criatura com asas transparentes explica - “O universo sempre busca um equilĂbrio, e cada um oferece de acordo com suas capacidades e desejos.”
“Eu…” - o pequeno pássaro gagueja - “Eu não sei mais o que sou.”
“E sabia antes?” diz ela de forma incisiva, como uma navalha.
E o pequeno pássaro então se surpreende, sentindo dor por saber dessas informações novas.
“Pequeno pássaro, meu querido, não temas. É mais forte do que pensa. Não estamos nem no reino mortal, nem no reino dos sonhos. Estamos num estado intermediário.”
“EU LEMBRO AGORA! Mas…. porque me fez esquecer? Foi a melhor coisa que já senti na vida, incomparável a todas as outras sensações que já tive. Foi como se todo meu passado tivesse sido imaginado, tivesse sido um sonho antes disso.”
“Mas o que eu faço agora? Vou me lembrar disso quando acordar?”
“Não, vai esquecer tudo novamente, assim como esqueceu todas as vezes antes.”
“Não! Não quero esquecer!” - e o pássaro bica sua própria asa esquerda. Um pequeno ferimento surge.
“Ah, meu belo, inefável pássaro…”
O semi-sonho acaba. O pássaro desperta, e a fonte retornara ao normal. O lĂrio havia sumido, era como se ele nunca estivesse estado ali. Foi tudo uma ilusĂŁo?
Talvez, a paisagem seja realmente bela…
E o vento no rosto lhe molde um sorriso.
Mas do que adianta, se no chĂŁo se estatela?
Como te amo, preste atenção a esse aviso!
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