quando você diz que eu sou sim uma pessoa boa, mas eu não sou. porque eu acordo com olhos de vidro e vejo meu mundo caindo. porque eu ando em ruas que me fazem perder a fé no amor e em mim mesma. e você diz “você é tão paz” e eu tenho vontade de chorar. porque, por Deus, se eu pudesse ser algo como isso eu já estaria feliz. eu estaria saindo por aí vestindo meus medos no corpo e dando a cara à tapa pra meias verdades. eu estaria por aí calçando meu desespero nos pés e caminhando por esquinas felizes em domingos cheios de agonia. eu estaria sustentando meus sonhos em castelos de areia, como crianças que acreditam que no fim tudo se resolve e soltam pipas na varanda de casa enquanto a chuva não vem. eu estaria te esperando me ensinar a ser algo como adulta que não erra e mesmo assim é humana. eu estaria esperando outra face de mim, essa que você enxerga e vê paz. quando na verdade eu sei que há guerras inteiras me mantendo de pé, porque eu me reconheço.
eu só queria pular essa parte em que você me olha em lentes que me deixa alguém melhor, quando você analisa os meus abismos e não vê a ruína neles. quando você olha a minha matéria sem se preocupar com a minha atomicidade e urânio. quando o meu silêncio são partículas radioativas gama que se desfazem na tua pele, e mesmo assim você diz “linda”. e mesmo assim você me olha com olhos santos demais pra me condenar a infernos quentes. porque eu vou embora contando os passos e mesmo assim não me distraio da dor nas costas. do peso do mundo sobre a minha cabeça. do peso de ser alguém que você não lê, e que ninguém mais o faz.
do peso de me olhar no espelho e querer quebrar o vidro, porque o reflexo ali não me mostra por dentro, quebrada e em pedaços. quando eu quero te machucar com palavras rudes porque eu quero ver o horror estampado nos seus olhos em lugar da expectativa que eu vejo neles. quando eu não sou alguém melhor. quando nada nesse mundo cabe no meu peito e quando nada de mim cabe nesse mundo. quando a sua fé em mim não recupera a minha crença em dias melhores. e quando a sua fé em mim não me recupera de mim mesma. porque se eu choro e tudo desaba, a lei de talião não vale mais, e mesmo assim eu quero te fazer chorar também. porque eu prefiro cair segurando as suas mãos do que cair sozinha, mesmo que soe egoísta e eu te leve junto.
porque por mais que eu prefira me doer sem vestígios de você, te olhar nos olhos enquanto eu perco meu corpo e desfaleço, me faz acreditar, mesmo que por um milissegundo, que talvez eu não seja alguém tão ruim, mesmo eu sendo. porque ver a minha face nos seus olhos nada cruéis, de quem me olha do avesso e gosta do que enxerga, é reconfortante.
porque me ver atravessando seus mundos me livra um pouco do trauma, da falta, do oco de mim. porque quando eu vejo meu olhos nos seus, me sinto menos como um acidente e mais como alguém que está lutando pra sobreviver.
c.






















