AS MENINAS - LYGIA FAGUNDES TELLES
Li este livro no mês passado, para um trabalho da faculdade. Devo dizer que este foi um livro que ele me rendeu diversos momentos de reflexão, a respeito, específicamente, do lugar da mulher na literatura, tanto como personagem como quanto escritora.
Acredito que, algo marcante nas aulas de literatura que temos na escola, é o trovadorismo: textos escritos naquele português arcaico (que convenhamos, não facilita nossas vidas de alunos de ensino médio). Vamos falar aqui, somente sobre as cantigas de amor. Lembram delas? Eu lírico masculino, que falava daquela mulher nobre e inatingível, com a pele alva, os cabelos dourados e as mãos mais lindas que já foram vistas. Assim, Isolda será descrita num dos primeiros textos na literatura que falam sobre amor, tema do qual muito falamos, tema do qual continuamos, ainda hoje, a falar.
Mais tarde temos as poesias líricas clássicas, barrocas e neoclassícas, e aqui, o que particularmente me chama a atenção, são as musas dos grandes autores: Laura para Camoes, Anarda para Manuel Botelho, Marília para Tomás Antonio Gonzaga, todas descritas com as mesmas características físicas das anteriores, com sua mesma fragilidade, com sua mesma delicadeza.
Fica claro que, aqui, tinha-se um estereótipo do tipo de mulher a ser considerada uma musa, uma mulher angelical, não é mesmo?
Nos romances, que começam a ganhar popularidade entre o público feminino, temos mulheres vulneráveis, indefesas e inocentes, mulheres cujo único assunto pertinente são os homens e cujo único desejo em vida é o casamento.
Sim, claro, dentro dos romances, nós também temos personagens femininas que fogem a esta caracterização, um exemplo clássico disso é Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito... mas, ao pensar no que acontece a estas personagens ao final de suas histórias, vemos que o patriarcado triunfa, sempre como uma ordem a ser mantida para que a sociedade se organize da forma necessária.
Mulheres foram caracterizadas com frivolidade em muitos livros... até mesmo naqueles de qualidade literária inegável, de autores que possuem toda a nossa admiração.
Autores - homens - que expõe a infelicidade da mulher dentro da vida conjugal e o adultério vindo por parte destas, são considerados revolucionários pela forma como caracterizam o sexo feminino. Será que são mesmo?
Eu imagino o que pensaria os admiradores de Flaubert se tivessem conhecido Lygia Fagundes Telles. É certo que Flaubert, assim como outros inúmeros autores realistas, tinham idéias que estavam muito a frente do seu tempo, e sim, eu entendo perfeitamente que para o público daquela época, a narrativa realista era extremamente chocante, mas eu enxergo diversos problemas nela (e isso fica para assunto de uma outra resenha, que com certeza virá).
Lygia é uma autora sem outra igual. Uma mulher escrevendo textos de qualidade literária incomoda muita gente, mas o que esta escritora maravilhosa fez em "As Meninas", tenham a certeza, incomoda muito mais.
Comecemos expondo o período histórico no qual esta narrativa se passa: ditadura militar. Agora, imagine que este livro foi publicado em 1973. 1973. A ditadura militar e toda a sua censura e repressão ainda eram a realidade brasileira. Surpreendente, não é?
"As meninas" vai tratar deste período histórico sob o ponto de vista feminino: tres amiga universitárias, que moram numa mesma pensão. São elas Lorena, Lia de Melo e Ana Clara. Cada uma destas meninas tem uma personalidade única, e pasmem, realista. Lygia Fagundes Telles tem a audácia de nos revelar que mulheres não se preocupam apenas com homens, compras e produtos de beleza e que sequer precisam se preocupar com isso. Será que naquela época, já se sabia que mulheres também possuem objetivos que transpassam o casamento? Que elas desejam o prazer sexual tanto quanto homens? Que, definitivamente, mulheres não precisam ser criaturas imaculadas para serem mulheres? Lygia sabia.
Dentro da infinidade de assuntos polêmicos tratados neste romance, temos: militância, subversividade, denúncia de torturas durante a ditadura militar, comunismo, masturbação feminina, aborto, problemas psicológicos, vício em drogas, violência sexual, entre outros. Tudo isso é exposto ao leitor através da técnica de fluxo de pensamento, adotada por Lygia neste texto. Toda a narrativa se passa dentro da mente das próprias meninas, portanto, não há pudor, portanto, não há censura.
Mas, apesar de ser um texto completamente subersivo para sua época de publicação, não é somente isso que torna este romance especial: "As Meninas", é, acima de qualquer coisa, sobre amizade. Sobre empatia. Sobre o que faz de nós seres humanos.













