“Não há um bêbado nessa cidade que não saiba o teu nome. Que não conheça o tom da sua pele branquinha, dos seus lábios inocentemente maquiavélicos e como os seus olhos ficam pequenos quando você sorri. Não há um litro de cachaça barata que não saiba da sua cintura 36 e a forma como os seus cabelos estupidamente lisos emolduram o seu rosto de porcelana. Os donos dos botecos até duvidam quando eu conto sobre a voracidade desse amor maldito que a gente viveu. Me olham com desdém enquanto eu lembro das suas bochechas rosadas sob efeito das sacanagens inocentes que eu te sussurrava pé do ouvido, duvidam da foto que levo na carteira e das cicatrizes na palma da minha mão. São descrentes das verdades que conto sob os goles de vodka do nosso amor shakespeariano. Sobre a forma como nós fomos e voltamos por todo esse tempo. Duvidam das latas de cerveja, da dose de whisky e da forma como minha pele se moldava a tua. Escutam metade dos meus contos e desacreditam quando eu digo que não sei porque tua mão não está mais na minha, quando bato o punho sobre o balcão pedindo mais uma dose de cachaça porque vi outra boca na sua. Os bêbados, mas bêbados do que eu, me seguram pelos braços quando grito de saudade do seu corpo e de todas as epopeias que a gente não viveu. Me perguntam porque estou aqui e não aos seus pés, me pedem explicações sobre porque você foi embora quando queria ficar. Os bêbados, os garçons, e os donos do bar se perguntam como a gente se perdeu enquanto a dose amarga de conhaque me pergunta como a gente conseguiu se deixar.”
— Danielle Quartezani


















