Aquilo se comparava ao prazer que sentia ao tocar com seus gélidos e finos nas chaves do piano e ouvi-lo fazer um som curioso, beirando a perfeição, se comparava ao sentimento de leveza quando vomitava todas suas palavras em cima de Victor e Jack. Aquele momento a fazia imaginar se aquilo seria o que budistas chamavam nirvana. A menina já havia lido diversos livros a respeito do assunto, se interessando a cada folha que virava, e sabia, que com a mente que possuía, nunca seria capaz de conseguir atingir o nível espiritual. A maioria dos campistas já se aconchegavam dentro de suas cabanas, se não todos, deixando apenas Emily e talvez alguns alunos em lugares tão remotos e escuros que não interessavam a garota se eles realmente residiam em alguma sombra da floresta ou não, e, provavelmente seriam crianças quietas e contemplativas como a própria Emily, não querendo ser perturbados ou perturbarem. Ou apenas eram os casais que se contemplavam em algum canto escuro, porém, não se separando do impulso do pequeno grupo de pessoas que residiam em pé. A menina de cabelo azul conseguia ver os fragmentos do que já havia sido uma fogueira se apagarem pouco a pouco, se tornando apenas uma brasa que parecia lutar pelo o resto de duração que tinha, já sabendo o que lhe aguardaria. Se o momento fosse a algumas horas atrás, a menina decorreria um longo pensamento sobre a alegoria daquela brasa respirando por sua vida, com nós, seres humanos. Porém Emily já não estava sob efeito de ervas a um longo tempo. Já pelo céu, a menina conseguia ver perfeitamente as tímidas constelações que brilhavam na noite ao lado da lua que iluminava alguns cantos do lugar. A luz lunar lhe concedia uma pequena vista a floresta, um lugar calmo, onde Emily conseguia sentir a leveza do lugar entrando por seus poros, tomando seu pulmão estragado e envolvendo seu interior. A menina finalmente conseguia ouvir seus pensamentos com clareza, sem, por enquanto, nenhuma memória traumática voltar ao seu subconsciente. Aquilo, seria o mais perto do nirvana que a garota jamais chegaria.
Enquanto apreciava a paisagem, o vício lhe fez o favor de pedir a atenção como uma criança de cinco anos. O pequeno diabo em seu ombro sussurrara em seu ouvido, lhe dando a incrível sugestão; aquela seria um belo momento para apreciar a nicotina entre seus lábios e dentro de seu pulmão. Seria uma atitude singela da essência se não fosse a total falta de cigarros no pacote da garota. Claro que conseguiria sobreviver um dia ou dois até finalmente renovar seu estoque. Mas a questão era outra, Emily queria os cigarros agora. Vasculhou a mente pensando onde poderia encontrar a algum, lembrando de Richie, o sonserino durão que sempre tinha o qualquer coisa que qualquer um precisasse. Por um preço, claro, porém Richie sempre teve um apreço pela garota desde que a menina o ajudou na jardinagem no jardim do garoto, sempre garantindo o que a garota precisasse. Emily não conseguia ter ideia de qual daquelas várias barracas o menino podeira estar, porém achou melhor começar a procurar, afinal, daqui algumas horas o sol nasceria e a menina não iria pra cama sem seu cigarro. Logo após duas tendas reviradas por suas mão leves, não sabia muito bem pra onde iria quando levantou do chão, porém, suas pernas a guiaram a cabana aleatória no meio de todas aquelas, passando os dedos compridos pela parte interna do tecido, conseguindo abri-la por fora. Assim que adentrou a tenda escura, sua primeira percepção foi a de luxo, sem duvida aquela tenda era bem mais luxuosa que a sua própria, claro que a garota não se importava, porém ficara surpresa com a quantidade de luxo em que a tenda carregava. Passou os olhos pelo lugar, tentando identificar algo que a lembrasse de Richie, porem na escuridão do local, Emily apenas conseguia ver um corpo jogado, respirando pesadamente na cama. Entrou um pouco mais na barraca tentando fazer seus passo leves e indo em direção a proxima cama, vazia, porém com uma mochila familiar de Richie, mesmo duvidando muito que o garoto dormia naquela barraca, provavelmente havia esquecido sua bolsa ali. A garota se abaixou cuidadosamente, colocando a mochila em seu colo e tendo certeza que era a mochila do garoto, após ver o material de jardinagem e alguns kits mata-aula. Emily vasculhou um pouco da sacola até finalmente encontrar um maço de uma marca conhecida e coloca-lo em seu bolso, movendo a mochila para seu ombro, com a intenção de logo após sair dali, entregar a mochila para o colega. A menina se levantou rapidamente, dando uma ultima olhada ao local, que estava deserto se não fosse pelo corpo desconhecido e por Emily, mesmo tendo espaço para abrigar grande parte do acampamento, a barraca parecia ter um único residente pela falta de bagagem e uma cama impecavelmente não tocada.