pergunta do Lucas
Theo,
Como foi o seu processo de transição em vista do trabalho? Não que as pessoas precisem aceitar, mas qual foi a reação delas no seu ambiente de trabalho quando você foi mudando gradativamente? Outra coisa, a sua top surgery foi particular? Mesmo que você decida fazer a transição no particular, precisa de todos os laudos etc?
Oi Lucas, beleza?
Eu penso como você, que não tem nada que as pessoas precisem aceitar, nós somos quem somos e isso independe da opinião das pessoas. Que o importante na vida é estar bem consigo mesmo, beleza. Mas o que a gente precisa também, algumas pessoas mais do que outras, é de reconhecimento. E o reconhecimento, ele não está senão inserido nos jogos do mundo social. Nesse jogo você é um personagem e seu personagem precisa convencer. O que eu estou dizendo não é que isso tem a ver com a aparência, mas com sua subjetividade. Você seduz, conquista e convence as pessoas sendo quem você é, intimamente, o mais sincero que você conseguir sem se machucar. Claro que não é possível dialogar ou seduzir quem está fechado e indisponível. Vale dizer que essas coisas levam tempo, não se sabe quanto e que temos que ter paciência, sabendo no âmago, que não somos obrigados a nada. Teoricamente. Porque tem os jogos e nós queremos ganhar, certo? Então somos obrigados a trabalhar e ter dinheiro pra poder comprar coisas necessárias e supérfluas, enfim. Como foi no meu trabalho?
Quando eu decidi assumir o gênero masculino pras outras pessoas eu tava num trabalho que já tava pra acabar, eu sabia que ia ser mandado embora dali a dois meses, então segurei as pontas e não contei nada pra ninguém lá. Me vestia igual eu me vestiria se eles soubessem que eu me chamava Theo, usava packer e mal falava com as pessoas nesses últimos meses. Aí eu fui mandado embora e dois meses depois comecei num novo lugar, que era um órgão pública da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Já estava a quatro meses tomando testosterona, minha voz tinha mudado a ponto de poderem dizer que eu era um garoto e eu tava decidido e otimista que lá eu ia poder ser Theo. E assim foi. Contratempos existiram porque, por exemplo, lá havia uma pessoa que me conhecia a muito tempo, uma pessoa muito próxima e que era minha chefe e chefe de todo mundo lá. E ela sempre errava meu nome e meu gênero. E as vezes ela fazia isso na frente de outras pessoas, isso me deprimia um pouco e não sei se atrasou ou não a aceitação das outras pessoas. Mas prosseguindo, eu me apresentei como Theo para todo mundo e assim fui tratado. No início sentia que todo mundo me olhava meio estranho e me tratava, às vezes com simpatia demais, às vezes com um pouco de desprezo. Para mim, ambas as coisas podiam ser transfobia ou tratamento normal a um desconhecido recém-chegado. Com certeza um pouco dos dois. Eu sou um cara reservado e de poucos amigos. Então fiz poucos amigos lá , mas com o tempo fui sendo cada vez mais inserido nos jogos masculinos, nas generalizações de comportamento masculino ( o Theo é homem então ele gosta disso, então ele pensa assim, então ele é isso) e as pessoas viam mesmo que eu era um rapaz. Com certeza um dos diferentes, talvez meio gay, mais de uma vez perguntaram se eu era gay, exatamente por parecer assim, meio diferente. Claro que não pergutaram pra mim, esse tipo de pergunta as pessoas raramente têm coragem de fazer na nossa cara, por isso, a gente nem devia temer tanto. Enfim, eu não me achava nem um pouco parecido com os caras do meu trabalho nem tampouco queria ser um deles, mas ser comparado com outros homens me fazia sentir reconhecido enquanto homem, embora eu não gostasse das comparações. Trabalhei lá por dois anos e talvez se eu não fosse um cara tão fechado poderia ter feito mais amigos. Mas eu me sentia acolhido lá, depois de seis meses minha chefe mudou e a nova nunca errava meu nome. Ter o apoio dos chefes no trabalho é uma boa vantagem, porque empurra as outras pessoas a fazerem o mesmo. Mas também não é o fim do mundo se eles não apoiarem, porque eles precisam de nós mais do que nós precisamos deles. Todo mundo sabia que eu era trans, mesmo os funcionários novos que iam chegando, porque as pessoas falam, as fofocas correm, algumas pessoas de lá me tinham no facebook, me consideravam um cara polêmico e ousado, mas também bonito e esforçado, e os comentários rolavam… e eu odeio fofoca, então não falava muito mesmo da minha vida e ficava na minha. Era legal chegar lá e alguém notar que minha voz tinha mudado, que minha barba tava crescendo e que eu tava “ficando forte”, era legal confrontar as pessoas nas suas opiniões preconceituosas e deslocarem ela da sua zona de conforto.
Espero ter respondido sobre a questão do trabalho.
Quanto a minha cirurgia, sim, foi particular. O médico que realizou só aceitava fazer com laudo ou parecer psicológico. Laudo é aquilo que a gente sabe, normalmente os psiquiatras exigem te acompanhar por dois anos antes de escrever aquela bobagem no papel. No meu caso, um parecer psicológico seria fácil de conseguir, pois a mais de três anos fazia terapia com o mesmo cara, então eu pedi e ele me deu e o Erick aceitou e pronto. Existem alguns cirurgiões que não querem saber de laudo. Mas a maioria exige, sim. Um psicólogo não precisa de dois anos pra te dar um pedaço de papel, ele pode te dar na primeira sessão se ele quiser, mas aí pode ser que eles apelem pro que chamam “ética profissional” ou qualquer outra bobagem pra postergar dar o parecer. Não desista, nem tema sem chato, arranca isso deles rs
Abraços








