Tive um longo dia ontem, queria descansar hoje, mas sexta-feira 13 não é feriado. Infelizmente. Deveria ser, pois as pessoas ficam tão animadas com esta data. Verificam se tudo está correto e no lugar antes de sair de casa. Evitam gatos pretos e escadas abertas. Superstições das quais elas próprias dizem não acreditar, se assemelham a crenças bíblicas. Como se fugisse de um demônio ou algo do tipo. É quase uma preparação para o Halloween, uma festa diferente, mas parecida. As duas tem como base o sobrenatural. Eu gosto do sobrenatural, mesmo não acreditando. Eu gosto das coisas das quais temos medo de falar. O proibido é sempre o mais gostoso.
Seguia a passos lentos e firmes até o final da rua. Não havia nada além de uma casa. Dois pisos e uma pequena cerca de madeira branca. Olhava para os lados e via residências desertas. Apenas um pequeno bar continuava aberto. Um senhor de idade já avançada encarava a mim como se estivesse vendo uma celebridade. Sorri, era assim que gostava de ser visto.
Recebi um e-mail estranho essa noite. Alguém que se denominava apenas como “D” estava a me esperar nesta casa, nesse pequeno fim de mundo. O e-mail era isto. Você deve estar perguntando se não fiquei com medo, não está? Pois bem, nunca tive medo de nada. Não estou dizendo isto para parecer valente. Realmente não possuo medo de nada. Talvez seja natural do meu ser.
Quando mais novo, a única coisa que realmente assustava a mim era a maldade extrema no coração das pessoas. Vi coisas que talvez você nunca tenha ouvido falar. Desde então percebi que não há nada tão apavorante quanto o próprio cérebro humano. Muitas vezes usado para o bem, muito mais vezes usado para o mal. Observei várias cenas das quais pude estudar o ser humano por completo. Acredite, ainda não cheguei a uma conclusão exata. Um ser tão complexo quanto um livro que possuo em minha estante. É uma daquelas histórias estratégicas, sabe? Das quais você precisa ler umas cinco vezes o mesmo trecho, para entender o verdadeiro significado.
Aproximava-me do pequeno portão. Pigarreava para deixar que minha voz não demonstrasse meu nervosismo. O que é diferente de medo. Fico nervoso ao falar com algum desconhecido, pois como dito anteriormente, me apavoro com a mente humana. Isto logo vai acabar, tenho a solução. Busquei apresentar uma posição glorificante no ambiente. Aproximei minhas mãos e bati palmas, para chamar meu anfitrião, já que não encontrei a existência de alguma campainha. Logo após o segundo encontro de mãos, o portão abre-se para mim. Sorrio e adentro o terreno, seguindo em direção a porta. Mal levanto meu pulso direito para bater, e ela se abre para mim. Solto outro sorriso e sigo o caminho até o que parecia ser uma grande biblioteca. Ficava no final de um longo e estranho corredor. Estranho por que não existia nenhuma porta durante ele, apenas no final. Porta essa que dava acesso a tal biblioteca. Ao entrar, encontro um homem de terno preto, bem vestido. Esse mesmo homem sorri com felicidade para mim e levanta-se para me cumprimentar. Aperto sua mão, ele começa a falar imediatamente.
- Seja bem-vindo ao meu humilde refúgio. Não precisa falar nada, eu que lhe chamei aqui. – dizia meu anfitrião, cheio de si. – Deve ter estranhado meu convite. Um simples e-mail, com uma ordem. Pensei que acharia ser um spam, mas você corajoso, desafiador, gosta de aventuras. Veio aqui, sedento por descobertas. Não é mesmo?
- Sim, senhor. – respondi ao homem que aparentava possuir uns 60 de idade e agora se dirigia até sua mesa, sentando em cima dela. – Pelo o que percebo, não há nada para descobrir, dessa vez não. – disse com expressão triste ao velho homem.
- O convidei para vir, pois é chegada a hora, meu caro.
- De você se aposentar? – disse sarcástico.
- Não. – pronunciou ao conter um riso abafado.
Olhei para o velho homem. Ia dizer algo, mas o interrompi. Gesticulando com as mãos para que ficasse quieto. Soltei meu velho sorriso e fui até sua mesa. Devo lhe confessar, caro leitor, que conheço este velho homem há muito tempo, mas não sabia que o convite partira dele. Abri uma de suas gavetas, a terceira, só para registrar, e puxei de lá uma pistola. Levantei as sobrancelhas, em sinal de surpresa, gargalhei.
- Quer que eu lhe mate? – ele me olhava como se eu acabasse de descobrir seu maior segredo. Saiu de cima da mesa e me olhou, parecendo assustado. – Não acredito! Você está assustado? Pensei que fosse tão paciente a ponto de não temer nada, apenas a si mesmo. O que acho ser bem verdade, pois se possuísse autoconfiança, não teria uma arma na gaveta do seu escritório.
- Mas é claro que tenho autoconfiança! Isso, bem... Isso é para você. – baixou o olhar.
- Vai me matar?
- Não. Este é um presente meu, para você. Quero que use quando achar necessário, quando não houver nenhuma outra saída. – parecia estar me induzindo. Como se quisesse colocar pensamentos em minha mente.
- Ah, claro! Típico de você. Usando a mente alheia para seus planos doentios. – coloquei a arma em cima da poltrona que se encontrava ao meu lado. – Acha que vou cair nesse seu velho truque? Poupe-me! Sua besta.
- Não ouse me ofender, sabe as consequências disso. Preferiria ir para o inferno a receber meu castigo. – mexia as mãos e sorria ao me olhar.
- Já volto. – caminhava eu em direção a porta, abrindo-a.
- Onde pensa que vai? – virou-se em direção a mim.
- Procurar a graça. – sorri.
- Tolo. Chega de brincadeiras, lhe chamei aqui para tratar de um assunto sério. - Moveu seu velho corpo até a mesa, sentou-se na poltrona marrom, pôs a arma em sua gaveta, arrumou alguns papéis mal colocados e então olhou para mim. – Estamos em um longo acordo de paz, não estamos?
- É evidente que sim, fui eu quem o propôs, aliás. – falei curiosamente, posicionando-me a sua frente.
- Então por que insiste em achar meios de destruir a mim? Por que não cansa de agir como uma criança malcriada que traí todos aqueles que o amam? – seu semblante agora era calmo. Fingi apresentar uma gigante fúria, que extravasava os limites vistos por mim mesmo.
- Seu maldito do deserto, eu juro com todas minhas forças que se sair mais uma palavra imunda de sua boca, irei amaldiçoá-lo por toda a eternidade, matando seus descendentes e violando o ventre de suas mulheres! – gritava, apontando o dedo indicar.
- Por que todo este ódio? Apenas o questionei. – assustou-se com minha posição.
- Viu? É isto que você faz com seus filhos. – com um sorriso de vitória no rosto, virei e segui o mesmo caminho que me fez entrar. Ouvia meu nome aos gritos, mas fingia que não era a mim que ele chamava.
- Eu declaro guerra contra você, seu desnaturado. – aos berros, para que eu pudesse ouvir. – Nosso trato de paz está desfeito, quero sua cabeça. Quero-a em uma bandeja, servida com o melhor vinho existente na terra. Beberei todo seu sangue dançarei sob seu tumulo.
Virei meu corpo para trás, tirei o chapéu de minha cabeça e sequei uma gota de suor que lutava para descer. Uma forte brisa, quase um vento, vinha em direção ao meu rosto. O ambiente ficou gelado, uma ventania se formou e o céu ficou mais escuro do que já estava. Nada mais se via na rua, apenas o ancião que agora se encontrava na calçada. Observava com ânimo. Esperando ansiosamente pelo o que viria a acontecer. Sorri, surrei lentamente para o vento, de forma que chegasse como um grito nos ouvidos do meu mais novo inimigo:
- Que seja feita a vossa vontade, papai.