Eu teria tantas coisas lindas para dizer sobre você
se você quisesse ouvi-las.
Eu poderia te contar sobre a primeira vez que te vi. Você lia um livro cujo nome eu perguntei para tentar me aproximar. Nunca me lembrei do título, mas lembro-me dos seus olhos curiosos voltados para mim.
Eu poderia falar sobre como seu sorriso animava minhas manhãs tristes e sonolentas toda vez que eu te encontrava no pátio da escola. Meus amigos não entendiam porque eu os trocava para ficar com você.
Eu poderia descrever seu perfume cítrico e intenso, que impregnava minhas roupas quando você me abraçava dizendo que sentiu minha falta. Embriagado por esse aroma, eu tentava absorver ao máximo o cheiro que exalava da minha camisa.
Eu poderia te dizer o quanto você ficava linda quando passava seus cabides de um lado para o outro, indecisa, escolhendo a blusa perfeita, enquanto eu acompanhava a cena deitado na sua cama e fingindo costume. Você sempre teve bom gosto para roupas, mas eu preferia te ver de pijama, no seu quarto, porque isso fazia eu me sentir parte do seu mundo.
Eu poderia descrever suas mãos finas e macias, que acariciavam meus cabelos enquanto ficávamos deitados no sofá da sala. Você me contava sobre as brigas com sua família, sobre a última viagem que fez, sobre as travessuras do seu cachorro, e eu tentava memorizar sua voz tão perto de mim que fazia meu coração disparar, torcendo para que você não percebesse.
Eu poderia descrever seu olhar, que via a vida por outros ângulos, alguns deles felizes, e muitos tristes e obscuros, um lado seu guardado a sete chaves que me foi apresentado aos poucos. Eu queria poder curar todas as suas dores se você me permitisse.
Eu poderia detalhar as sensações confusas, as minhas mãos trêmulas e os meus lábios tímidos quando você me beijou naquele fim de tarde, num canto vazio de uma rua que marcou nossos dias da adolescência.
Eu poderia confessar os ciúmes que senti quando você beijou outras bocas assim também. Eu poderia ter me afastado e evitado a dor de ter ver com outras pessoas, se não me doesse ainda mais ficar longe de você.
Eu poderia fingir que você pensava em mim todos os dias antes de dormir, que aguardava uma mensagem minha e que se encantou com o poema que eu escrevi para você.
Eu poderia dizer que tivemos uma história linda, completa e recíproca, selada pelas nossas mãos se tocando de leve pelos caminhos que percorremos, pelos nossos segredos confessados em noites ébrias, pelos beijos que você me deu, os quais posso contar nos dedos.
Mas tudo isso não seria senão uma grande mentira.
Seu primeiro olhar não viu em mim alguém especial.
Seu cheiro ardente me torturava por saber que você não queria estar nos meus braços.
Suas roupas eram escolhidas para impressionar outros olhos.
Suas mãos frias me tocavam somente por distração, pois preferiam estar em outros corpos.
Nossos beijos foram apagados de sua memória, esquecidos e soterrados por muitos outros que me matavam aos poucos.
Eu teria tantas coisas lindas para dizer sobre nós.
Mas agora sei que todas essas coisas lindas nunca foram sobre você. Elas só dizem sobre mim mesmo, que amou tão intensamente alguém que nunca existiu,
porque eu nunca tive coragem de te dizer,
e você nunca quis me ouvir.