Cinco anos desde que ele voltou para o acampamento, cinco anos onde se encontrava com Thena em situações amenas, e findava um pouco daquela saudade. Claro que o primeiro ano foi caótico, ela não sabia o que estava acontecendo, não sabia que ele era um semideus e tudo foi um choque, mesmo para um espectro. Mas as coisas melhoraram nos anos seguintes, e agora eles estavam bem. William jamais havia passado por aquele portal antes, desconhecia sua existência até aquele momento. O momento em que seu corpo balançava para frente e para trás, os olhos fechados, os soluços constantes por conta do choro, e aquele ‘mantra’, suplicando para que tudo acabasse. A verdade era que William não teria forças para sair dali sozinho, e aquele poderia muito bem ser o seu fim. Até que sentiu as mãos da mais nova correndo pelos seus braços, e sua voz abrindo espaço em sua mente. Ergueu a cabeça de imediato, os olhos arregalados, marejados, viam a figura de Haera embaçada. Mas ele sabia que ela estava ali, que ela era real, pois era a única coisa que destoava daquele pesadelo. “Hae!”, exclamou, os braços passando envolta do corpo dela, abraçando-a um tanto apertado, apenas para ter certeza de que não era uma ilusão, ou um espectro. “Ela estava comigo, Hae. Ela estava aqui, nos meus braços, e de repente não estava mais.”. A voz era completo desespero e pesar. Quantas vezes William não desejou ter a amiga por perto quando tudo aconteceu? Quantas vezes não se arrependeu de ter excluído a todos? Quantas vezes não se sentiu sozinho? Aquele portal trazia tudo isso de volta, o colocando numa posição tão sensível e vulnerável, como jamais esteve antes. Ele sentiu os polegares em seu rosto, e os olhos fecharam por alguns segundos, como se tentasse se acalmar, mas não conseguia. Era simplesmente desesperador ver o cenário mudando outra vez, mais rápido, como flash’s. A imagem de Athena focava atrás de Haera, e distorcia, como num piscar de olhos. “por favor, eu não sei o quanto mais posso aguentar.”. Suplicava, e não para a mulher a sua frente exatamente, mas para os deuses, ou para quem estivesse manipulando aquele portal. Ele estava a ponto de arrancar os cabelos, ou talvez a própria vida, só para que tudo aquilo tivesse um fim. Tornou a inclinar-se para a frente, a testa encostando na de Haera. Apesar de tudo, sempre se sentiu seguro com ela. “eu não consigo mais, Hae. Eu não consigo mais viver nisso, preso nesse loop, preso no passado. Por favor, Hae, me leva pra casa.”. pediu, deixando que escapasse um suspiro ao final, pois havia guardado aquelas palavras por anos. Havia esperado que Haera fosse ao seu encontro, e por tantas vezes, se imaginou dizendo aquilo, mas só agora conseguia, só agora fazia sentido. O acampamento era sua casa, sempre foi. Assim como a amiga.
o abraço de billy doeu em muitos sentidos e haera odiou como os olhos lacrimejaram ainda mais por conta disso. “eu sei. sinto muito.” soprou, ainda que sua voz mal saísse naquele momento. esperou tempo o bastante para que ele tivesse alguma certeza de que sua presença ali não era uma ilusão. as mãos seguiam afagando os braços alheios com intuito de acalmá-lo, mesmo sabendo que nada adiantaria de verdade. nada tinha poder de acalmar quando se via a pessoa que você amava sofrendo. nada mesmo. “bil...” a frase foi cortada quando ele se inclinou para frente e tocou sua testa contra a dele. haera sentiu o corpo travar, o maxilar trincar tanto que chegou a doer. casa. a palavra caiu pesada a seus ouvidos, quase a puxando para baixo. não se sentia bem ali desde que pisou dentro daquele portal e talvez não fosse só por causa de billy. talvez o desespero preso naquele lugar trouxesse algo dentro de si à tona. casa. o medo dele era tão latente e palpável que haera se imaginava poder ser capaz de tocá-lo até. medo, desespero, dor, agonia, sofrimento, aquele turbilhão de emoções pesadas e cruéis era a exata descrição de seus poderes. era como se todo o ambiente em volta a convidasse para deixá-los sair. não, não um convite. uma imposição. merda. “billy. billy, por favor.” era o som de sua voz, mas não veio de si. haera arregalou os olhos ao olhar em volta e perceber que o ambiente havia mudado. “por favor, por favor, eu não consigo. não consigo billy.” estavam num quarto pouco iluminado e, metros ao lado, havia outra haera, encolhida e agarrada ao próprio celular. as lágrimas saíam sem parar do rosto da outra enquanto tentava pateticamente se agarrar ao ar que não parecia preencher seus pulmões o bastante. não, não, não. “não consigo, billy. por favor, volta. por favor. e-eu não que não quer ficar aqui. eu sei! não precisa ficar. mas por favor...” haera engoliu em seco. “SAI DA MINHA CABEÇA!” a voz esbravejou e o ambiente inteiro estremeceu. os braços agarraram-se em william e o puxaram para ficar de pé consigo. “não. pare. de. andar.” disse pausadamente, com o corpo ainda completamente travado enquanto deixavam a outra haera para trás e rumavam em direção à porta. casa. a luz abrupta do sol no lado de fora a vez usar a mão livre para tapar o rosto, se acostumando com a nova iluminação. piscou os olhos, percebendo que não estavam mais nem mesmo no acampamento. a princípio não reconheceu o lugar. “e-esse é o número de william fitzgerald?” sua própria voz disse novamente e, também novamente, não saía de si, mas de outra versão sua. “you must be fucking kidding me...” haera grunhiu entre dentes, os olhos indo para o outro lado da rua onde o casal feliz interagia. “é do meraki.” a mão se fechou em punho. “como a gente sai dessa droga de...” virou-se para billy. o verdadeiro billy que estava ao seu lado. casa. a compreensão a tomou no mesmo segundo. estudava pesadelos já há muitos anos e a horrenda forma de acabar com eles era apenas uma. enfrentando. “vamos.” disse ao mesmo tempo que sua outra versão deixava o celular cair das mãos e o esmagava nas próprias botas. a outra haera foi embora. dessa vez, contudo, essa não era a opção. com a mão presa na manga do casaco de billy, o puxou consigo para atravessarem a rua. passo a passo para mais perto daqueles sorrisos. passo a passo para mais perto daquela felicidade que, no atual momento, mesmo que por razões diferentes, machucava tanto billy quanto haera. as pernas vacilavam, os braços e todo o corpo vacilava. a cada passo as pessoas em volta, os carros e automóveis iam desaparecendo, somente restando aquele casal feliz do outro lado da rua. “haera?” ouviu a voz do outro billy chamá-la quando estavam perto o suficiente. travou diante dele por um momento. caso a mão não seguisse firme contra o verdadeiro billy talvez ficasse imersa nas memórias e nos pesadelos daquele lugar até que a consumissem. mas precisava sair. precisava tirar ele dali. “vou te levar pra casa dessa vez.” disse num mero sussurro, sentindo os olhos marejarem de novo enquanto se desviava do casal de sua memória e puxava billy consigo para entrarem no carro. o peso sob seus ombros desapareceu e ambos os corpos foram basicamente cuspidos para fora do portal azul. a festa seguia normalmente como se eles sequer houvessem a deixado. caso a sensação ruim não a houvesse deixado, teria duvidado que haviam escapado de fato. haera simplesmente deitou a cabeça contra a grama e permitiu o corpo descansar no solo. “ei. você tá legal?” questionou, enfim soltando a mão alheia.