amarelas são as ruas sob o sol
Junto a pia, corto as laranjas que crescem no terreno a frente
Colhidas no entardecer, elas têm o doce sabor de fim de ano, de esperança
Misturado a aspereza ácida dos meses doloridos que se foram
Ainda é dia, então é fácil viver
Ainda não anseio por nada que me apague
Ainda me concentro em limpar e cozinhar
Enquanto minha mãe descansa no quarto
E os fantasmas estão longe demais para trazer tormento
Na quietude dos dias, na monotonia da paz
No silêncio da casa, entrecortado vez ou outra pelos sons bruscos que vem lá de fora, do mundo real
Minha garganta seca e a voz se perde, rouca, ofuscada pela infinidade dos meus pensamentos
Seus olhos às vezes brilham de um jeito diferente
Perdido em lembranças, ou talvez inundado de sonhos
Ele aparece quando o sol começa a se esconder
Quando sai do trabalho novo
Quando volta para casa e sobe as escadarias da rua
Para em frente ao nosso sobrado, toma um pouco de ar.
Da varanda assisto suas feições
Admiro os contornos do terno, que lhe cai tão bem
Desço como quem não quer nada
Relembramos o nosso tempo de escola
Deixando de lado o contraste entre os caminhos que cada um tomou.
Seu rosto é comum, o observo
Suas atitudes não o diferem da maioria
A música que escapa pelos seus fones de ouvido é a mesma ouvida por qualquer um
Os filmes que assiste, cheios de explosões na tela do cinema, é adorado por todos os outros.
Mas ainda assim bom demais para mim
Não há nada de especial na maneira que encara o mundo
Ao mesmo tempo que há um tudo
Faz a minha forma parecer um ridículo absurdo
Sua existência calma faz a minha intensidade soar errada
O assisto falar quando estamos sozinhos
Quando ele parece me entender e me amar
Logo seus outros amigos chegam
E sinto sua mente mudar de estação
Daquele que costumava também ser o meu grupo
Afastado por carregar comigo
Algo bom e ao mesmo tempo destrutivo
Algo capaz de tingir os dias de cinza
E intensificar as cores ao redor daquele a quem se dirige a minha paixão.
Mas o meu amor o faz único
Não corresponde aos meus desejos
Não cala os meus fantasmas
Porém, tê-lo longe desperta o meu pior
O lado que anseia pelo escuro e por um fim.
E de certa forma me faz parecer ruim.
Quando o tempo passa, o meu sentimento cresce
Mas fica cada vez mais invisível aos seus olhos infantis
Sua rejeição é inconsciente, dócil, clichê
Mas é o bastante para transformar o meu amor em ódio
Não é capaz de satisfazer as necessidades da minha alma,
de dividir comigo o fardo de existir
Muito menos de sentir o mesmo
E de por mim fazer o seu coração bater.
— Flores de Inverno, Guilherme le Fay