Correntes na areia, anseio por mar
Há um chamado antigo nas marés do meu peito,
um sussurro que volta sempre para o mesmo nome.
Teu afago- vento que reconheço sem pensar-
me procura nas esquinas do tempo,
e eu tremo como quem reencontra a própria casa.
Mas algo me prende na areia:
correntes invisíveis, feitas de medo,
de silêncio, de passos que não dei.
Eu te vejo ao longe, mar inteiro,
e sinto que bastaria um gesto
para que tuas ondas me desfizessem as dores.
Há dias em que quase avanço.
A água toca meus tornozelos
como se dissesse “vem, não há tormenta”.
E meu corpo responde, faminto de ternura,
mas as correntes puxam- suaves, cruéis-
lembrando que ainda não sei atravessar o que ficou.
ah, esse não sabe esperar.
invade minhas noites com tua voz,
com a lembrança do calor que só tu sabias dar.
que eu volte a viver o amor que me acendia.
tudo em mim aponta para teu abraço,
como a praia inteira se inclina ao mar.
Um dia- quando a coragem romper as algemas-
irei ao teu encontro sem medo do abismo.
Porque há amores que não passam,
e o meu por ti é maré infinita
querendo, desesperadamente, voltar.