decerto que três meses seria pouco para muitas coisas, mas já havia sido o suficiente para entender o quão ingênuo é jinkyu. athos não achava que existia pessoas assim na vida real; em tempos como aquele.
— está, mas eu gosto. — responde com o sorriso reconfortante. verdade é a que realmente não se importa, não naquele momento, ao menos. ali, inclusive, a cachoeira de palavras é o que silencia sua mente, e athos se faz agradecido por isso.
pena que não tem outro jeito que não parar e ouvir os próprios pensamentos, enquanto busca pela melhor forma de responder jinkyu. athos usa o celular para iluminar as lombadas dos livros; procura por algo, só ainda não sabe o quê.
— helix movement, de fato, pareceu uma piada. o nome combina mais com um grupo de dança. — sua habilidade de fazer piadinhas é, na verdade, mecanismo. disfarça sua curiosidade sobre os rebeldes. — sunbaenim, já leu guy debord? ele foi um filósofo e cineasta francês. ele nos deu a sociedade do espetáculo. já leu sobre isso?
a lembrança das reflexões após consumir as obras de guy debord, o faz cuspir um riso breve recheado de ironia. para sempre acharia incrível como um homem em 1967 teria um faro sociológico tão apurado. talvez, ele tivesse sido um mutante com habilidade de ver o futuro ou coisa assim. athos encontra o livro que quer e, então, se senta como jinkyu, embora oposto uma vez que preferia tê-lo completo sob seu campo de visão.
— o espetáculo é ao mesmo tempo uma relação social e interpessoal mediada por imagens - mas é, na verdade, qualquer meio de comunicação de massa, entende? guy fala sobre como sentimos necessidade de espetacularizar todos os aspectos da nossa vida. redes sociais estão aí, não é? e mesmo aqueles que não espetacularizam a própria vida, eles consomem o espetáculo, sei lá, nos telejornais. mas nós mutantes não temos um meio midiático como um canal de tevê, por exemplo, mas temos a internet. então os rebeldes meteram isso — ele mostra o próprio celular e continua da melhor forma que consegue:
“ e sabe o que mais tem a ver com o espetáculo? o controle. somos colocados para pensar em determinadas coisas, colocados sob influência de outras. e, agora, também teremos a sensação de poder, porque poderemos ser mais do que só plateia: vamos poder produzir; ser parte deles. e veja: é como dar o gostinho de poder… para disfarçar o fato de que estão sendo controlados por quem não fazem ideia de quem realmente seja. enfim. ligado à sociedade do espetáculo, geralmente temos o grotesco, que é outro conceito, não é de guy, mas acho que hoje está também ligado ao espetáculo. eu diria que... o grotesco foi a forma em que eles dançaram vestidos daquela forma, gritaram e depois explodiram tudo. foi como nos deixaram vendo uma explosão em câmera lenta e, talvez, naturalmente, pensando no horror que seria aquilo acontecendo de verdade. depois, expondo segredos como fizeram. ”
— o mais engraçado? não gostam de admitir que adoram o grotesco quando leem mais sobre, porque seria assumir que se apaziguam com a desgraça alheia para aliviar a própria realidade. — termina e com a pausa de um segundo, rir. os olhos se levantam para kyu. — eu quem falei demais agora, não foi? não sei se entendeu alguma coisa, mas também não há problema. são coisas da minha cabeça. — não poderia dar uma resposta que não envolvesse todas as dúvidas e receios que os rebeldes levantaram em sua mente com aquela noite. — no fim, o que posso dizer é: sim, sunbaenim, em minha visão, tem muito sentido em tudo o que fizeram, pois como fizeram, deram àqueles que não tinham, motivos para repassar informações... nem que seja pelo espetáculo por vim. — ele fecha o livro. já tinha conferido: era o que queria.