Não fazia tanto tempo assim que não via aquele rosto, nem mesmo poderia dizer que os anos o tornaram ainda mais belo, na verdade, foi tempo o suficiente para que a dúvida de um reencontro fizesse seu coração falhar em uma batida só de vê-lo de novo, Carlisle não tinha mudado nada, mas parecia ainda mais bonito e mais maduro, como podia acontecer isso? Jean paralisou, não pelo medo de serem vistos ali ou pela forma como o outro parecia a vontade de usar magia em um ambiente como o que estavam agora, mas o simples fato de que o campeão de Hogwarts escolheu as palavras certas no momento errado: meu bem. Era tão mágico que fez com que o corpo do francês relaxasse todos os músculos, que antes estavam tensos, e um sorriso tímido brincasse nos lábios finos.
Agora os dois tinham seus rostos alinhados, era comum que isso acontecesse já que tinham quase a mesma altura, mudanças surgiam quando o bruxo de Beauxbatons decidia usar os seus inúmeros sapatos de salto alto, mas nada que realmente incomodasse. Jean pensou muito, talvez nem tenha percebido que não agiu em nenhum momento, a mão espalmada sobre um único desenho enquanto a outra ainda segurava sua pasta, os joelhos que estavam feridos com a meia calça que carregava um rasgo sutil, agora lhe servia de base para o peso de seu corpo.
Bem, por que não? Ele havia lhe chamado daquela forma carinhosa que só se lembrava de ouvir quando ainda viviam aquele amor inesperado em meio a um torneio caótico. Jean pode não ter calculado muito bem suas ações, de qualquer forma, ele fez o que queria e sem se preocupar demais, usando a mão que antes segurava a pasta para lhe servir de uma base extra, distribuindo melhor o peso de seu corpo ao joga-lo para a frente um pouco e, no momento de distração que Carlisle não percebeu, colou seus lábios aos dele em um selar delicado e rápido, não tanto assim, poderia contar um ou dois minutos de contato, mas também não se afastou muito, alguns milímetros de distância e um sorriso surgia na face bonita. “Ta journée a bien commencé, mon amour?” Riu de maneira arteira, pois sabia como ele poderia reagir ao falar toda a frase em sua língua mãe e como poderia quase infarta-lo com um selinho tão bobo como aquele, qualquer que fosse a reação vindo do outro bruxo, faria com que Jean tivesse certeza que ir até Londres foi a sua melhor escolha.
Carlisle realmente precisara pisar em uma quantidade absurda de constrangimento para agir com tamanha confiança. Bastava conviver com ele por algum tempo para perceber que ele não tinha tanta assim e que parecia perder aquele pouco quando se tratava de Jean. O sentimento era de que nunca sabia como agir quando estava com Jean, que não sabia o que fazer com as mãos ou que palavras pareciam apropriadas, mesmo que costumasse ser muito bom com aquelas questões em qualquer outra situação. Parecia sempre perdido naqueles olhos, era inevitável. Mas não importava a quentura subindo para o rosto, nem o quão vermelhas estavam as pontas das orelhas. Tudo valera a pena no exato momento em que viu aquele sorriso tímido que fizera seu coração subir várias batidas naqueles poucos segundos, trazendo a sensação de que o ar tinha sumido dos pulmões.
Sem nenhuma intenção de insistir no assunto ou esperar por uma resposta antes de fazer qualquer outra coisa, porque era constrangedor, o inglês apenas voltou sua atenção para os desenhos, juntando-os o mais rápido que pudesse enquanto tentava respirar fundo da maneira mais discreta que podia, a fim de se acalmar. Contudo, todo o esforço foi por àgua abaixo no exato momento em que sentira os lábios quentes contra os seus, em um gesto adoravelmente familiar. O que não impediu-o de ser pego completamente de surpresa, deixando-o sem reação por alguns bons segundos. Até, por fim, render-se com um sorriso pequeno contra os lábios alheios quando fechou os olhos.
Para ele, tão repentino quanto fora o início, fora o fim daquele beijo. O gosto perdurando em sua boca enquanto o corpo todo implorava por mais em forma de um suspiro rendido, quando abrira os olhos novamente, para fitar o rosto alheio. Carlisle podia muito bem dizer que estava se sentindo um pouquinho zonzo, mas pareceria idiota, certo? Ele ia dizer alguma coisa, mas perdera toda a linha de raciocício ao escutar as palavras em francês. Outra coisa que era inevitável. Por mais que aquele quase um ano de convivência na escola francesa tivesse servido como uma boa introdução ao idioma, naquele momento, ele não conseguia lembrar de nada. Por isso, o som de sua risada logo tinha se misturado à do outro. ━━ Sim...? ━━ Respondeu de maneira hesitante, dando de ombros em um gesto que evidenciava sua confusão. Droga, como sentira falta daquilo, de escutá-lo falando. Poderia fazê-lo por horas e horas. ━━ Não entendi nada do que disse, mas concordo. ━━ Continuou, por entre uma nova risada, antes de pressionar seus lábios contra os de Jean novamente, em um gesto breve. Por fim, guardou as folhas recolhidas na pasta e colocou-se de pé, oferecendo a mão para ajudar o outro. ━━ Para onde estava indo e o que vai acontecer caso você não chegue ao seu destino hoje?