Eu costumava guardar para mim todas as palavras mais ou menos interessantes. âVai se foderâ Ă© o que eu evitava falar, mas agora Ă© como se vocĂȘ ficasse me pedindo para dizer. Implorando no seu jeito passivo agressivo. E entĂŁo acabo sendo a vilĂŁ desta luta sem juiz. Eu nunca resisti a olhar nos olhos da escuridĂŁo e da tempestade que vem sob nossas cabeças.Â
Eu sempre fui do tipo que encarava de peito aberto, sentindo cada gota caindo em meus ombros frĂĄgeis. Os lĂĄbios vermelhos sĂŁo o pecado na minha vulnerabilidade, mas eu continuava. Eu sempre continuei. Mesmo enquanto vocĂȘ me pedia para parar. Eu era conhecida por andar com os joelhos ralados e isso jĂĄ falava muito sobre o quanto eu precisava me abaixar para passar por debaixo da janela. NĂŁo se preocupe, aqui estou eu dizendo tudo o que vocĂȘ nĂŁo tem coragem de dizer. âVĂĄ se ferrar e depois feche a portaâ.Â
Acho triste que vocĂȘ tente vestir a tristeza para me preocupar. Meus olhos quando te percebem perguntam o por que. E mesmo assim sou eu quem preciso responder com as coisas que eu nĂŁo disse antes, mas que agora vocĂȘ pede para que sejam ditas. Nos cĂ©us hĂĄ escuridĂŁo sob nossas cabeças e vocĂȘ nem percebe, porque sou eu que estou sempre prestando a atenção ao meu redor e sei quando estou em perigo. E o perigo pode ser quieto e se vestir de tristeza.Â
Olhe para mim agora. NĂŁo sei se vocĂȘ jĂĄ fez isso direito, por tempo suficiente. Acabou perdendo detalhes importantes, enquanto eu envelhecia nos Ășltimos trĂȘs anos. Essa ruga fina ao lado do meu olho direito diz para vocĂȘ ir se foder. Porque eu estou cansada de sentir as suas costas sobre as minhas. O peso acabou se tornando como uma grande mala de viagem que eu usaria para ir a um lugar que eu nunca fui.Â
NĂŁo sei se vocĂȘ reconhece o sabor do cafĂ© coado sob meu coração. VocĂȘ bebe em sua xĂcara e nĂŁo diz nada. Meu coração estava ali, aliĂĄs. EntĂŁo eu lembro que vocĂȘ se fragiliza demais para abrir os braços e se arriscar a sentir as gotas da tempestade sob seus ombros, essa parte sempre fica para mim. Eu cuido dos resquĂcios de quando vocĂȘ estĂĄ vestido de tristeza, mas a roupa de ansiedade quem lava sou eu.Â