[Flashback, December 1977] And I can't stand you. Must everything you do make me wanna smile. Can I not like it for a while? â MacWett
O recesso das festas de final de ano havia chegado rapidamente. Mary amava o clima, a atmosfera pacĂfica e alegre, as decoraçÔes natalinas e como as pessoas costumavam ficar mais amĂĄveis ou, pelo menos, mais aturĂĄveis. O melhor do recesso era poder voltar para casa, juntar-se a sua famĂlia e comemorarem juntos em um grande banquete â uma tradição dos MacDonald. Por serem uma famĂlia cristĂŁ, Mary aprendeu desde pequena a dar valor para aquela data e tudo que representava no meio trouxa. Suas ideologias nĂŁo mudaram apĂłs se descobrir uma bruxa. A magia poderia soar estranha para seus pais e seus irmĂŁos, gerou atĂ© mesmo um afastamento da famĂlia no começo, e eles permaneciam escondendo a condição mĂĄgica de Mary para seus parentes mais prĂłximos, nĂŁo somente porque era uma lei mĂĄgica, mas tambĂ©m por receio de suas opiniĂ”es contra a menina. Mary havia se torturado por um longo ano, assim que ingressou em Hogwarts, por sua condição contradizer suas ideologias e de sua famĂlia. Ela se sentia suja, uma aberração. O mundo mĂĄgico nĂŁo havia ajudado atĂ© entĂŁo, pois descobriu que havia grupos de bruxos que desaprovavam nascidos-trouxas, tambĂ©m os considerando aberraçÔes da natureza, desperdĂcio de magia, pessoas que nĂŁo mereciam fazer parte daquele privilĂ©gio. No entanto, Mary aprendeu a longo prazo a se amar, cada pedacinho de si incluindo a magia, e tomou como missĂŁo mostrar para seus pais que ela permaneceria a mesma garotinha que eles criaram â ser uma bruxa nĂŁo a transformaria, nĂŁo a modificaria numa pessoa completamente diferente da qual teriam aversĂŁo. Durante o perĂodo natalino era o tempo que Mary sentia-se mais prĂłxima da famĂlia e fazĂȘ-los serem capazes de perceber que ela continuava normal, continua uma cristĂŁ.
Um dos seus maiores passatempos em famĂlia era ajudĂĄ-los na cafeteria de seu progenitor. Alaistair MacDonald tinha um negĂłcio prĂłspero no seu bairro. Durante o recesso dos finais de ano, o local se enchia exponencialmente, a demanda aumentava e havia atĂ© pequenas encomendas, pois tambĂ©m trabalhavam com panificação e confeitaria. Mary havia se interessado em aprender fazer algumas das quitutes oferecidas no estabelecimento, mas havia horas que tambĂ©m ajudava no caixa ou atĂ© mesmo servir os clientes. O retorno para casa se dava no dia 23 de dezembro, jĂĄ chegava tarde em casa, porĂ©m a vĂ©spera de natal sempre trazia clientes e abarrotava o lugar, alĂ©m das encomendas a serem entregues. Mary acordou cedo e tratou de ajudar os pais. Seu irmĂŁo mais novo estava na fase que nĂŁo queria ajudar dentro de casa e dormiu a manhĂŁ toda, enquanto seu irmĂŁo mais velho estava chegando da viagem de carro da universidade onde estudava. Os MacDonald abriam o local apenas pela parte da manhĂŁ e comecinho da tarde, por darem valor a famĂlia reunida e por se preparem para o banquete, deveriam ter tempo para se dedicarem as novas prioridades. Mary escapou de casa apĂłs o almoço, como estudava longe e Hogsmeade nĂŁo tinha lojas trouxas, deveria conseguir presentes de Ășltima hora para a famĂlia. As ruas estavam cheias de pessoas enlouquecidas e atrasadas. Haviam muitos estoques atrasados e nos noticiĂĄrios anunciavam brigas entre clientes para conseguir os Ășltimos produtos. Ela andava pelo centro comercial torcendo para ser capaz de comprar tudo que desejaria ou teria de dar novamente doces adquiridos na Dedos de Mel. Embora todos admitissem que fossem gostosos, ela percebia que havia uma certa estranheza em provĂĄ-los.Â
Mary estava se aproximando de uma loja de discos, pronta para conseguir arranjar algo que agradassem seus irmĂŁos quando percebeu uma figura alta, esguia e conhecida. Nos Ășltimos meses, haviam trocado pergaminhos e mantinham a amizade que haviam cultivado com tanto carinho. Mary havia conseguido deixar seus pensamentos errĂŽneos acerca dele de lado, pelo menos ela os considerava assim. Era a primeira vez que o veria apĂłs meses. Estava confiante que assim que Fabian Prewett a olhasse e sorrisse, nĂŁo sentiria borboletas no estĂŽmago. Andou em passos lentos e fazendo o minimo de barulho possĂvel. Se colocou atrĂĄs do rapaz e tampou seus olhos, tendo de ficar nas pontas dos pĂ©s. âSe vocĂȘ errar meu nome, Fabian Prewett, eu nĂŁo serei capaz de desculpĂĄ-lo. Tenho certeza que sua mente ainda guarda os vestĂgios da minha voz.â
Quando acordou naquela manhĂŁ e observou, com uma caneca de cafĂ© nas mĂŁos, a neve se acumular nas ruelas de Londres, Fabian Prewett se perguntou como um ano poderia ter passado tĂŁo rĂĄpido. A sensação que tinha era que o verĂŁo havia sido somente a poucas semanas atrĂĄs e nĂŁo meses, como se vocĂȘ estivesse muito exausto no momento em que Ă© vencido pelo sono que, quando acorda, era como se tivesse dormido por apenas dez minutos. Aos dezenove anos de idade, o jovem de desalinhados cabelos castanhos sentia como se sua vida tivesse se transformado em uma locomotiva sempre trabalhando a todo vapor. Estudando para se tornar um curse breaker quase seis meses, havia finalmente deixado as aulas teĂłricas para trĂĄs para iniciar as muitas missĂ”es e treinos de campo, o que significava viagens e situaçÔes de risco com as quais deveria se acostumar caso desejasse fazer daquilo o trabalho de uma vida. NĂŁo que estivesse reclamando do que fazia, pelo contrĂĄrio, Fabian amava cada segundo e a adrenalina o mantinha vivo, mas parecia que somente agora havia percebido o quanto a vida ocupada estava privando-o da companhia de sua famĂlia e de seus amigos. Sempre viajando e sempre muito sobrecarregado, Fabian tinha certeza de que a Ășltima vez que havia visitado seus pais, sua irmĂŁ ou seus sobrinhos havia sido quando as folhas das ĂĄrvores começaram a cair com o outono. AlĂ©m disso, desde que havia se aliado a Order of the Phoenix para de alguma forma resistir as mudanças que o mundo bruxo sofria com o prelĂșdio da guerra, seu tempo livre havia sido reduzido a quase nada em meio a investigaçÔes e missĂ”es, o que significava menos disponibilidade ainda para as pessoas que tanto amava.
Isso estava tremendamente errado e Fabian sentia vontade de azarar a si mesmo por ter levado tanto tempo para se dar conta disso.
Por isso, seu dia começou com uma nova promessa. Fim de ano costumava causar esse efeito nas pessoas, a sensação de recomeço motivando-as a levar o ano que estava por vir de uma forma diferente e Fabian nunca havia levado isso a sério até o momento. Sorriu consigo mesmo quando percebeu que o Fabian de dois anos atrås provavelmente riria da decisão que se formava em sua cabeça naquele exato momento, o pacto silencioso de não deixar que a vida o afastasse daqueles que eram importantes para ele. Assim, decidiu que tiraria a tarde para si (por trabalhar tanto, tinha algumas horas de crédito). Pensou em comprar os presentes de Natal (não tinha absolutamente nenhum ainda), tomar uma bebida em seu pub preferido e aparecer de surpresa na casa de Molly para o jantar e sorriu, porque não poderia ter tido ideia melhor.
Contudo, começou a duvidar disso quando deixou o Diagon Alley para trĂĄs e resolveu se aventurar na Londres trouxa. Presentes de natal nĂŁo mĂĄgicos lhe pareceram uma boa ideia porque Fabian sempre encarou com admiração a capacidade dos trouxas de inventar coisas sem o auxĂlio de magia. Mas quando se viu parado em meio a uma calçada observando carros e mais carros passarem de um lado para outro, as mĂŁos no bolso do sobretudo e sem ter ideia para onde ir, sentiu-se quase derrotado.
Considerava fazer o caminho de volta quando sentiu duas mĂŁos pequenas cobrir-lhe os olhos.
O rapaz automaticamente cerrou os dedos em volta do cabo em sua varinha em seu bolso, mas a constatação de que um potencial inimigo jamais o abordaria daquela forma o tranquilizou em poucos instantes. Riu baixinho ao ouvir a voz conhecida e mesmo que soubesse exatamente quem era, não podia deixar de lado a oportunidade de importunå-la. Ela ficava adoråvel quando estava zangada, veja bem.
âĂ vocĂȘ, Paige? Se vocĂȘ Ă© Paige Draper, sinto muito por ter saĂdo sem me despedir e nĂŁo ter procurado por vocĂȘ na loja em que trabalha.â Inventou a primeira desculpa que veio a mente, jĂĄ que desaparecer depois de passar a noite com uma garota era algo relativamente comum em sua vida. Mas antes que fosse azarado pela audaciosa brincadeira em plena Londres trouxa, virou-se para a moça que manteve seus olhos vendados atĂ© entĂŁo, nĂŁo hesitando em puxĂĄ-la para um abraço, passar um dos braços ao redor de seus ombros e beijar-lhe o topo da cabeça, precisando inclinar o pescoço devido a considerĂĄvel diferença de altura para que seus lĂĄbios achassem sua testa e um pouco dos cabelos escuros dela. âEstou brincando, Ă© claro que eu sabia que era vocĂȘ, Mary Louise MacDonald.â Olhou-a com um meio sorriso antes de se afastar da amiga que nĂŁo via hĂĄ tanto, tanto tempo. Era quase como se ela tivesse conseguido adivinhar que exatamente naquela manhĂŁ, tomado pela nostalgia e pela certeza de que estava negligenciando sua famĂlia e seus amigos, Fabian havia decidido que levaria sua vida de uma forma diferente daquele dia em diante. âMas o que estĂĄ fazendo aqui? JĂĄ estĂĄ em recesso de Natal de Hogwarts? Por que nĂŁo mandou... uma coruja ou sei lĂĄ? PoderĂamos ter marcado de nos ver ao invĂ©s de contar com essa coincidĂȘncia.â Fabian teve a impressĂŁo de que nĂŁo conseguiu esconder o leve tom ofendido de sua voz que, ainda que quase imperceptĂvel, estava lĂĄ, disfarçado pelo sorriso. A Ășltima vez que a havia visto fora durante o verĂŁo, pouco tempo depois de sua formatura, e mesmo que tivessem prometido um ao outro que manteriam contato atravĂ©s de correio coruja, as cartas tinham se tornado cada vez menos frequentes e Fabian sabia que era o culpado por isso, pelo ritmo de vida muito ocupado que vinha levando.
EntĂŁo Fabian perguntou-se mais uma vez porque deixou as coisas chegarem a esse ponto sem fazer nada a respeito durante tanto tempo, sentindo novamente a necessidade de azarar a si mesmo por conta disso.














