ââO que vocĂȘ espera do seu futuro?â Li em um outdoor de universidade enquanto procurava uma cafeteria aberta as quatro da manhĂŁ. A solidĂŁo tem gosto de cafĂ©. Quem foi o desajustado que escreveu isso? Em um outdoor do tamanho da minha sala de estar? O que eu espero? Amigo eu nĂŁo espero nada, nĂŁo se pode âesperarâ nada, nunca, de ninguĂ©m. VocĂȘ nĂŁo lĂȘ jornais ou televisĂ”es? Todo dia alguĂ©m ganha na loteria, ou descobre petrĂłleo no quintal de casa, ou encontra o amor de uma vida inteira na fila do pĂŁo. O que eu espero? Eu espero ter apenas saĂșde pra levantar de manhĂŁ e paciĂȘncia pra aguentar tanta gente da classe de pessoas que dizem âbom-dia-florrrrâ Ă s seis da manhĂŁ. Sem essa de pular onda, comer uva, usar branco em virada de ano, cruzar os dedos, usar verde. Que o ano, o mĂȘs, os novos dias nĂŁo me tragam nada, o que eu quiser eu mesmo vou buscar. No mĂĄximo um pai nosso numa segunda-feira chuvosa. O que vier eu tiro de letra. NĂŁo vou tirar o pĂ© do acelerador, e ainda peço pra Deus mandar mais, o que vier eu mato no peito. Imagine sĂł ter medo do futuro? Imagine pedir um prĂncipe encantado e sĂł me mandarem o cavalo, ou o emprego dos sonhos e me fizerem parar dentro de um mercado de bairro trabalhando de domingo a domingo. Morrer antes de levar o tiro? Se molhar antes de ver a chuva cair? Meu bem, eu sou igual a tomĂ©, sĂł acredito vendo. Eu tenho medo sim, medo de um futuro mais ou menos, de uma vida mais ou menos, de ser mais ou menos, de ser menos. Eu nĂŁo espero pelo futuro, ninguĂ©m espera, porque se ele se atrasar vocĂȘ vai fazer o que? Continuar sentado? Eu nĂŁo espero, eu nĂŁo me importo, eu meto a cara na lama, eu sofro, eu choro, eu tomo dorflex porque coração tambĂ©m Ă© um mĂșsculo, eu agarro a minha vida pelo rabo, aos 47 do segundo tempo. Eu sangro, mas eu tambĂ©m cicatrizo.â