ainda não havia chegado em seu dormitório quando a mensagem irrompeu o artigo sobre as algas marinhas que lia em seu celular. o caminho do trabalho até a casa era sem dúvidas mais aprazível quando não mergulhado na escuridão da noite de cannes ou com o ônibus vazio, tanto qual concedia o tempo e a monotonia ( que sempre possuiu o poder de causar sensações totalmente diferentes em angélique, dependendo onde era posta ) para a morena se atualizar em certas notícias ou revisar alguma de suas matérias no caminho. ao fechar seu artigo mais do que interessantíssimo acerca de protistas marinhos e visualizar a conversa, angelique não ponderou muito antes de responder afirmativamente que estaria lá daqui a um tempo. rapidamente desceu no ponto mais próximo a escola apenas para pegar mais um casaco e duas garrafas de soju que residiam em sua geladeira. não duvidava que o garoto possuía algumas dessas em seu próprio apartamento, mas a avó lhe perpetuara; se você ia a casa de alguém sem um presente ou uma lembrança era muito melhor não ir, e isso a seguiu até a sua adolescência e a seguiria também por sua vida adulta.
quando chegou na porta de nicodemo, a barriga roncava e o nariz estava visivelmente ruborizado devido ao frio do outono, os cabelos longos e desgrenhados pelo vento lá fora não impediu o pequeno sorriso de aparecer assim que atendida. angélique levantou a pequena sacola com as duas garrafas de soju dentro, em um sorriso maior antes de entrar, a chacoalhando e causando o tilintar das garrafas. angélique sabia e gostava verdadeiramente beber, e bebia como um senhor de meia idade sem ao menos pestanejar. nico era uma das poucas pessoas que conseguiam a acompanhar ‘ e eu deveria ter te avisado que sou uma crítica extremamente rigorosa. ’ ergueu as sobrancelhas em uma meia brincadeira, entrando na casa finalmente, e deixando esquentar-se, anqelique era constantemente fria. demorou a perceber que o outro falou em coreano, e ainda mais tempo para perceber que a sua resposta se deu na mesma língua. ter crescido em uma casa multilingue era no mínimo diferente. a mente constantemente migrava entre inglês, francês e o coreano ( surpreendentemente o russo e a amárica apesar da fluência não confundiam a mente ), sendo a última a que mais se sentia em casa, a que mais era ela. ‘ mas hoje só comi um pudim de chia o dia todo, então vou pegar leve com você ’ completou tirando um dos seus casacos ‘ woaw ’ se aproximou da cozinha, levada pelo calor e aroma delicioso e suavemente nostálgico de casa. verdadeiramente estava tão faminta que não percebia a feição esfomeada de uma criança ‘ o cheiro tá ótimo. ’ também não percebeu o elogio antes do tempo ( para os seus conceitos ), e bateu palminhas sem algum som, logo colocando as garrafas em sua mesa. ‘ não sabia que cozinhava. você gosta ? ou é apenas um plano super elaborado para não deixar seus ancestrais descansarem ? ’
⇀ Apesar do caos que estava seu humor nos últimos dias, o sorriso ao abrir a porta para Angel foi verdadeiro, e não somente por ter notado que ela trouxera bebida. ❛ Se essas garrafas forem o que eu acho que é, você pode criticar até minha alma que eu nem vou ligar ❜ riu, limpando as mãos no avental após fechar a porta. Tinha uma sensação nostálgica em conversar com alguém em coreano. Desde que se mudara para a França, sua vida passou a ser atuada em francês e italiano -no início mais italiano do que francês, graças a falta de esforços de Nicodemo para aprender a língua local. Coreano era, por outro lado, algo mais pessoal para ele. Era a língua em que ele crescera ouvindo as canções de sua mãe, as histórias de seu avô e os comentários de sua avó. Tinha uma sensação agridoce, lembrando de sua mãe, mas Nico era mais do que experiente em ignorar os pensamentos e sentimentos que não queria.
❛ Só o cheiro da comida já ganhar palmas? Vou considerar isso um bom sinal ❜ brincou rindo apenas para encher o saco dela enquanto voltava para a cozinha para empratar a comida. ❛ Pode deixar as garrafas na geladeira, já está quase pronto... Obviamente começou como um plano super elaborado para atormentar meus ancestrais, mas eu descobri que eu gosto de cozinhar. Na verdade, segundo a minha avó eu gosto mesmo de fazer bagunça na cozinha, mas isso é intriga da oposição ❜ comentou divertidamente enquanto colocava as travessas de comida no balcão. ❛ Não cozinho todo dia, mas de vez em quando eu tenho esses momentos de fazer comida para setenta pessoas mesmo só tendo três pessoas aqui em casa ❜ ↼