“Nesta rua, nesta rua, tem um bosque
que se chama, que se chama solidão.
Dentro dele, dentro dele, mora um anjo.”
doze estrelas te veneram.
ela me encara em silêncio.
Se as palavras pudessem rebobinar o tempo,
e águas passadas tivessem o poder de mover montanhas,
talvez eu tivesse algo a dizer.
Sem pedrinhas de brilhantes pela rua,
murmurando uma velha cantiga de roda.
A sensação de ser observada me abraça.
Por cima do ombro, de relance,
vejo o pequeno anjo encarar timidamente
o lugar vazio da minha asa direita.
Na saudade daquilo que não foi,
na saudade daquilo que se foi.
o céu se torna inalcançável.
Não importa o quanto eu sonhei,
não importa o quanto ela sonhou:
certos sonhos não podem nos pertencer.
É preciso conviver com isso.
O pequeno anjo sabe disso.
Mas entender as coisas da vida
não torna a tristeza ausente.
e eu finjo não querer chorar também.
O vento que serpenteia as folhas,
tal como o outono despe as árvores,
lembrando que os pés não podem parar.
O anjo já não me segue por trás:
segurando o dedo indicador da minha mão,
murmurando a velha cantiga de roda.
Caminhamos em silêncio no bosque da solidão,
presos aos pensamentos do nosso próprio tempo.
tentamos entender o antes e o agora.
O anjo sorridente me confunde.
Nem parece que perdeu uma das asas.
Age como se a imparcialidade da vida não a tivesse causado danos,
como se o mundo não a tivesse destruído,
como se os sonhos ainda fossem facilmente possíveis.
Ela me devolve o mesmo olhar confuso,
tentando compreender a feição séria e cansada.
Como se eu não soubesse mais como apreciar as coisas simples da vida,
como se eu não soubesse mais como perceber a magia dos entardeceres,
como se eu não soubesse mais como acreditar firmemente nos meus próprios sonhos.
Até parece que posso voar com somente uma das asas.
Mas nenhuma palavra foi dita em voz alta.
Entretanto, não é difícil decodificar os pensamentos daquele anjo.
E, se tratando dela, não é complicado desvendar os meus pensamentos.
Chegamos ao portão de saída do bosque.
Não sei dizer quem apertava a mão de quem:
havia o mesmo receio característico de nossos reencontros.
o pequeno anjo me deu um abraço apertado.
Um longo abraço apertado.
Devagarinho, soltou o meu abraço
e correu para o bosque sem olhar para frente.
Pois o futuro já não podia ser escrito por suas pequenas mãozinhas.
Caminhei até o portão sem olhar para trás.
Pois o passado já não pertencia à caligrafia das minhas mãos.
Sobrou apenas o murmúrio da velha cantiga de roda.
“Se essa rua, se essa rua fosse minha,
eu mandava, eu mandava ladrilhar
com pedrinhas de brilhantes