A água batia em minhas costas, saindo do chuveiro em gotas quentes e frias, o banheiro não era exatamente um luxo mas dava pra se aconchegar. O box meio apertado, mal cabiam duas pessoas. Me escorei com a cabeça na parede e as duas mãos. Alguns minutos de delírio em um mundo paralelo, era só oque eu precisava. Mas por alguma razão as unhas encravadas em minha consciência me traziam pra realidade vazia e deprimente, o mesmo ciclos todos os dias, as mesmas angústias e preocupações, como se o mundo acabasse em três longos dias. Um coração vazio e oco, que sente muito e transborda amor pelos outros, mas que não ama a si mesmo, que se deita em uma cama só pra ter um prazer carnal mas que em sequência o mundo desmorona dentro de si para uma imensidão de vazios. Talvez eu precise de um café, vou até a prateleira da cozinha, acabou, você tomou o meu último sachê . É como se a casa não fosse mais minha, a vida não estivesse sendo vivida por mim. Sou mais uma espectadora do desgaste evidente da vida, da hipocrisia da sociedade . Resolvo fumar um cigarro, vou até à varanda, vejo três gatos, um casal e eu, ali, só. Visto uma blusa, sento no sofá. Eu e meu cigarro, meu cigarro e eu. Algumas tralhas, uns discos antigos, resumos espalhados pelas paredes, uma toalha encima do braço do sofá, a qual já enxugou minhas lágrimas infinitas vezes. Um TV antiga da sala de costura da minha vó. Vejo meu reflexo pelo vidro da tela. Um coque, calcinha e camiseta e um cigarro mau aceso entre o indicador e o dedo médio. Você escolhe se isso é liberdade ou solidão.