Café frio, garagem vazia.
Antigamente a gente tinha um ritual, ir a garagem e tomar nosso café, com pão prensado, enquanto abastecia os ônibus, lavavámos os mesmos e juntos curtia nosso horário ali na garagem; entre nossos cafés, uma conversa fiada. Tu me olhava como quem diz: "Tô aqui". E estava mesmo. Inteiro.
No fim do dia ainda tinha energia para namorar, para rir de besteiras, para irmos escondidos fazer amor no ônibus, para irmos ao mirante nos curtir, sempre dávamos um jeitinho.
Você me olhava como se eu fosse a melhor parte do seu dia.
No final de semana era estrada. Não importa aonde, tu me levasse, eu estava feliz. A GENTE IA JUNTO. Na moto eu abraçada, sua mão na minha, as vezes pegava minha perna, no carro sua mao fazia carinhos, lembrava que eu existia junto e perto. Em casa o amor não pedia licença. Bastava um olhar seu atravessar a sala, era nós nos amando.
Veio o trabalho. O amigo novo.
Você cresceu e eu fiquei orgulhosa. De verdade.
Só que agora o café esfria na minha mesa e a garagem ficou vazia.
Você chega, é o sofá, celular, dois celulares, e a televisão. Um filme e mergulha no celular. A luz da tela te sequestra, qualquer palavra trocada é respondida sem tirar o olho da tela. O celular vira seu rosto acende. Ri de algo que não faço parte. Responde rápido, digitando com os dois polegares, testa franzida como se ali estivesse um incêndio que só você pode apagar.
Antes o filme era a desculpa de ficar junto. Hoje é desculpa pra ficar sozinho, mesmo que acompanhado.
Você até pergunta as vezes como foi meu dia, mas um plim, os olhos na tela e já não me ouve mais, e diz pode falar, falar o que? O ouvir já não é mais como era, com desejo e atenção.
Antes sua atenção era casa cheia. Agora é visita marcada que nunca chega.
A gente deita junto e a luz do seu celular faz sombra no seu rosto. Espero você terminar de rolar para me notar. As vezes não termina. Você dorme e eu durmo com a pergunta: "será que o amor que você tinha acabou por mim?"
E você diz, se eu peço amor, que está cansado ou com a cabeça cheia, como se eu fosse mais um item na lista de tarefas que você não deu conta.
Dói, porque não é briga. É ausência.
Meu coração dói num canto esquisito. Não de raiva. É de luto. Luto de algo que ainda respira aqui do lado, mas não me reconhece.
Não sei se o amor acabou.
Sei que o meu está doendo. Doendo tanto.
Ficar em silêncio para não atrapalhar sua conversa no celular, e eu sem poder contar o que sinto.
Saudades de quando "a gente" era um lugar, e não uma agenda. Quando seu riso respondia antes da sua boca. Quando eu não precisava disputar com sua tela para ter cinco minutos do seu olhar.
Saudades de quando sua atenção não era dividida. Quando nosso trabalho juntos era nosso programa e não só serviço. De quando você me notava antes da notificação. De quando eu não precisava mendigar carinho de quem já me deu o mundo.
Eu só queria voltar para aquela garagem.
Pro café quente, pro cheiro de diesel, pro seu olhar no meu.
Só quero tomar um café quente com você de novo.
Sem celular, sem notificação, sem Instagram. Sem o mundo inteiro entre nós dois.
Pra quando "a gente" ainda era melhor parte do seu dia, e não o tempo que sobra depois que o celular apaga.
Como antes, quando primeiro a gente se acertava, e depois a gente acertava o mundo.