É só mais um dia ruim, assim como todos os outros que já passaram, e que ainda vão passar. Já me disseram que tudo vai ficar bem, que dores desaparecem com o tempo, mas ao que parece, o tempo congelou. O ar se tornou pesado, todo o oxigênio sumiu e é difícil respirar, é difícil ver com tanta névoa pela frente, pelo presente, pelo futuro e pelo passado. Eu prometi a mim mesma que não ia chorar, mas isso foi antes de tudo ficar pesado, tão pesado que meu peito não aguenta mais, meus olhos ardem e minha garganta arranha, querendo gritar. Gritar tão alto que talvez o mundo inteiro escute, talvez essa dor saia junto com essa perturbação sonora, com toda essa dúvida, esse medo. Mas eu não tenho mais forças, não tenho mais forças pra continuar, para fingir que sou forte. Atrás dos meus olhos só é possível encontrar uma criança que chora, desesperada, porque tudo está desmoronando e o mundo está acabando. Esses pedaços quebrados não tem mais conserto, não tem mais remendo, não há cola que conserte tanto dano… o que resta a fazer quando o cansaço se tornou uma parte sua, e a ansiedade asfixia sua garganta tão forte que você sente precisar emergir da água pra conseguir respirar, mas você afundou demais?O que resta quando você não tem mais esperança, quando os trilhos do trem acabaram e o comboio está em tamanha velocidade, que não vai ser possível frear a tempo?Nós vamos colidir, ou já colidimos. Entre o fogo e a fumaça, tento respirar, mas a toxicidade arde meus pulmões e a vertigem me consome. Não encontro minhas mãos, não consigo sentir meu rosto, não consigo me mexer. Tenho medo de abrir meus olhos e perceber que o pesadelo ainda é realidade. Acorde. Alguma vez você esteve bem? Alguma vez você esteve feliz? A memória não alcança mais as imagens e as palavras, eu quero acordar, preciso acordar… mas é tarde demais. Só restou escuridão.