Acho que finalmente encontrei a raiz de tudo que ainda me assombra: a ausência de um lugar para pertencer.
O primeiro pertencimento de alguém deveria ser a família, lá no comecinho, quando a gente ainda nem entende o mundo, ou talvez até antes, no útero.
Mas não foi a minha história. E tudo bem. Já fiz as pazes com grande parte da minha infância e das dores que ela trouxe, inclusive essa.
Só que o pertencimento não é coisa só de criança. Ele é uma busca que nunca termina.
E isto me traz para adolescência. Momento onde todo mundo tenta se encaixar, parecer com os outros. A minha não foi diferente.
O problema é que eu já vinha com duas bagagens: a falta de pertencimento da infância e, agora, o fato de ser lésbica.
Isso fazia com que a busca fosse ainda mais urgente. Ser lésbica já era, por si só, exclusão de muitos círculos.
E nos anos 2000, não havia adolescentes assumidos, representatividade, nem espaços seguros para existir.
Então eu me encolhia para caber em grupinhos, mentia sobre quem era para ser aceita em outros.
Negava a mim mesma, não por achar que não merecia, mas porque pertencer era questão de sobrevivência.
Igreja, escola, faculdade, trabalho... em todos esses lugares, aprendi que às vezes pertencer significa apenas aguentar.
E talvez seja por isso que, até hoje, eu me pego achando que não mereço certas coisas.
Mas não é sobre merecimento. É sobre medo.
Medo de que, a qualquer momento, alguém perceba que eu não devia estar ali.
Medo de ser descoberta, questionada, expulsa do grupo que, por um instante, me acolheu.
É curioso como o pertencimento se tornou uma espécie de prova constante.
Como se eu precisasse me justificar o tempo todo por estar onde estou, por existir da forma que existo.
E ao perceber isso, algo em mim muda.
Porque se o pertencimento é uma necessidade tão vital, talvez seja hora de aprender a criá-lo em mim, não apenas buscá-lo fora.
Não sei ainda como se faz isso.
Mas agora que entendi de onde vem essa falta, talvez eu possa começar a preencher o espaço, aos poucos, com a verdade de quem eu sou.