Sobre o curta "A mão que afaga", com a diretora Gabriela Almeida...
ETD6: Qual tecnologia você usou para realizar o seu filme e por que?
Gabriela: O filme foi captado com câmera digital e, posteriormente, foi feito um transfer para 35mm. Interessava-me a textura "ruidosa" característica desse processo para a criação do universo pouco humano habitado pelos personagens; o ruído do digital combinado à granulação do 35mm nos afasta do conceito de "realidade", criando este universo lúgubre e estranho, quase inabitável.
ETD6: Conte-nos um pouco sobre o seu filme… suas intenções e processos.
Gabriela: O argumento para “A Mão que Afaga” surgiu na época em que eu estava finalizando o meu segundo curta, “Uma Primavera”. Neste filme, eu estava falando de questões em torno do feminino: a mãe que “perde” a filha para a adolescência; a mulher que recupera a sua feminilidade após um choque; as dificuldades de comunicação que marcam as relações entre pais e adolescentes etc. Estava já nesse caldo de temas e referências, quando uma outra figura feminina surgiu na minha cabeça com muita força: Estela, a operadora detelemarketing e mãe solteira. Daí para o desenvolvimento do roteiro foi ir seguindo as pistas. Eu tinha nas mãos um personagem que não se dava conta do próprio drama: ela falava com tanta gente por telefone, no trabalho, mas não conseguia se comunicar com o próprio filho. Essa contradição forte da personagem puxou todo o restante do drama. E da trama.
O roteiro levou mais ou menos quatro meses entre a primeira versão e a versão definitiva (costumo trabalhar muito no roteiro antes de alçá-lo à categoria de projeto de filme). É no processo de reescrita que o roteiro floresce e o drama alcança a sua potência máxima. Escrever é reescrever. Não tem atalho para isso.
Acredito que, para qualquer filme, o trabalho de mesa com os atores é fundamental. Preciso de encontros prévios para que o ator se aproprie do texto junto comigo, para que testemos movimentações e intenções juntos, para que o processo seja sempre a dois. Eu acredito que, em cinema, a câmera e o diretor co-atuam com o ator. Todo ator, quando filmado, deve ter alguma consciência da câmera, da maneira como está sendo enquadrado, da maneira como está sendo visto pelo diretor. Ele também atua para esta figura, para esta hiper-conscicência que está pairando ali do lado, que é o diretor. Portanto, a criação de algum nível de cumplicidade ator-diretor, para mim, é fundamental. O texto é a cola que nos une. Não dispenso esses encontros.
Em se tratando de crianças ou não atores, busco usar a própria vida da pessoa como pano de fundo para o processo de construção de personagem. Com o Antonio (o ator mirim), por exemplo, foi assim: ele tem um irmão mais novo, e é muito cuidadoso com ele. Coisa de irmão mais velho e protetor. Era essa relação que eu queria que ele desenvolvesse com a Luciana/Estela. Queria que o Antonio enxergasse a Estela como um irmão mais novo, e não como a mãe dele. Essa hierarquia mãe-filho, no filme, está completamente bagunçada. Os papeis se invertem a todo momento. A solução foi aproximar a Luciana e o Antonio da maneira mais informal e lúdica possível, sem hierarquias. Eles jogaram muito videogame na minha casa (risos).
Cheguei à Luciana Paes (a protagonista) através de um amigo e parceiro de muitos trabalhos, o ator Eduardo Gomes (que, inclusive, interpreta o Urso Amoroso, na história). Fui assisti-la numa peça infantil chamada “A criança mais velha do mundo”, onde ela interpretava, ao mesmo tempo, uma velha e a criança que essa velha foi, num ir e vir temporal e emocional do começo ao final da peça. Fiquei impressionada com o total domínio que a Luciana tinha do corpo e da voz, e a facilidade que tinha de alternar – às vezes numa única cena – personalidades tão opostas (uma velha e uma criança). Também me fascinou como ela se apropriou da linguagem do clown (bem física e expressionista), conduzindo o espetáculo não apenas na direção da comédia, mas também do drama. Não tive dúvidas quanto à escolha dela para a minha Estela, uma mulher que não sabia ser mulher, uma mãe que não sabia ser mãe, um ser humano que não sabia se comunicar. Esse elenco de personas que habitam o corpo de Estela tinha que se alternar com naturalidade: ora Estela parece mais jovem que o filho, ora quer se impor como a mãe responsável e madura; ora é comunicativa, ora não consegue sequer olhar nos olhos de um interlocutor; ora é infantil, ora expressa um desejo feminino, carnal, sexual. Luciana saberia articular essa personalidade múltipla. E o fez magistralmente.
ETD6: Você participa de algum movimento social, alguma militância? Se sim, qual? Se não, porque você levou este olhar, o dos direitos humanos, para o seu filme?
Gabriela: Não participo particularmente de nenhum movimento social, mas os temas relativos ao humano me são caros. Interessa-me abordar personagens deslocados e com dificuldade para se encaixar nos “papéis” que lhes cabem, no mundo. Nas minhas histórias, a jornada – sobretudo interna – dos inadaptados é o motor principal do drama. “A Mão que Afaga” parte do desejo do toque, da carência do afeto, para contar a saga silenciosa de Estela em busca de que as coisas dêem certo. Nem que para isso ela tenha que construir todo um mundo com as próprias mãos. No caso, um mundo de papel crepom.