O Nosso Mundo e uma Bola
Descíamos a rua como fazíamos todos os dias, chutando a bola um para o outro, dando toques e cabeçadas. Tinha sido um dia normal, como muitos outros, mas mesmo assim, riamos por tudo e por nada e, com tudo e de todos, fazíamos piadas e motivos de chacota.
Eu estava sempre pronto para a palhaçada e Salvador tinha muito jeito para fazer humor. Esses momentos de regresso a casa eram como se o mundo fosse só nós dois e uma bola e todo o resto não existisse. E sempre que nos aproximávamos da casa de Salvador, que era o momento em que a nossa reinação terminava, eu desejava sempre que a vinda da escola tivesse sido em câmara lenta, ou que nunca tivesse fim, ou até mesmo, que se estendesse ao longo do dia, ou da vida.
Mas nesse dia, infelizmente, quando chegamos perto da casa do Salvador, o meu desejo mudou, porque senti que todo o nosso mundo, só nosso, tinha sido levado pelo vento que passou. Deixei de ouvir o Salvador e quando o procurei com os olhos, ele estava parado em frente a um carro. Vi-o a tremer, com os punhos cerrados, os braços esticados ao longo do corpo e a bola debaixo do seu pé. Todo o brilho que irradiava do seu riso, de todo o seu rosto e do seu olhar desaparecera. Invadiu-me pela barriga a tristeza que sentia, quando vi as primeiras lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto.
Não soube o que dizer. Aproximei-me e toquei-lhe no ombro. Salvador entre dentes disse, com a boca cerrada: “Veio mais cedo! Ele está em casa.”
Tentei saber de quem falava, mas Salvador, que entrou em casa arrastando a bola, apenas disse, antes de fechar a porta: “O meu pai!”


















