a sala destinada a organização do grêmio estudantil pouco ultrapassava o perímetro dos quarenta metros quadrados, obrigando os estudantes a permanecerem amontoados uns aos outros junto com a mobília antiga que adornava o espaço. o que naturalmente era alvo de recorrentes reclamações de eliza ao diretor da instituição, que poderia jurar sobre tudo que é mais sagrado de que o espaço limitado às atividades da presidência estudantil estavam progressivamente empurrando-a para um diagnóstico de claustrofobia aguda, o que obviamente não se passava de mais uma das mentiras elaboradas da estudante, para de se dizer o mínimo. o completo desinteresse pela administração do hawkins ao comitê estudantil não poderia ser mais óbvio, dada não só pela localização estratégica do escritório, abandonado aos fundos da ala oeste da escola, mas como pela ausência de incentivos à adesão da vida política discente, que operava em condições de penúria sob os punhos da hale – que por vezes parecia ser a única integrante verdadeiramente interessada pela gestão dos negócios.
sentada em sua mesa, deflagrada com a ajuda da placa de identificação cravada em prata, eliza batucava a ponta da caneta contra as teclas da calculadora contábil, com os pés nervosos balançando de um lado para o outro diante da constatação dos números. do outro lado da mesa o restante da staff operava suas funções em silêncio, deixando que o barulho dos pensamentos da presidente inundasse o ambiente com a inquietação de suas conclusões perturbadas. o queixo ergueu-se em um movimento gélido, com a garota entrelaçando os dedos e ajustando os ombros pra traz em uma postura verdadeiramente aterrorizante para uma jovem de apenas dezessete anos que comandava uma equipe voluntária ao moldes do reino unido de tatcher no século passado. – eu gostaria de saber quem autorizou a compra de treze mil unidades de balões comemorativos ao invés de três mil. – o comentário se fez sobre uma falsa cortesia, com os olhos redondos da garota vasculhando as almas de seus subordinados atrás de respostas. – por que a não ser que alguém aqui tenha uma máquina do tempo, simplesmente não há como reutilizarmos dez mil balões que dizem “bem vinda turma de 2008!", não acham? – a voz de eliza oscilava entre um tom de pânico e comicidade, lançando-a a beira de um ataque de nervos ainda na primeira semana de aula. – HUH?! – exclamou de forma aguda, apertando os punhos do lado do corpo. – quer saber? incompetentes, todos vocês! dispensados! – bradou, apontando para a porta da sala como um buldogue raivoso. – você não. – a voz sombria e emocionalmente dissimulada ordenou, fazendo referência a @shotsme-walt, que se sentava há alguns metros de si. o corpo de eliza aproximou-se do garoto loiro como uma pantera que caçava sua presa, prensando as palmas da mão contra a superfície em que o jovem se encontra. – o que você tem a me dizer, hein, walt? – o pressionou, tal qual arrancasse uma confissão dele, enxergando-o por detrás dos enormes cílios escuros. – me dê o nome do culpado e talvez eu possa te realocar para uma posição melhor, o que acha? ouvi dizer que a equipe do anuário está atrás de um editor-supervisor e eu ficaria feliz em sugerir seu nome ao time. mediante um preço, é claro. – a proposta saltou para fora dos lábios de eliza com uma naturalidade assustadora, com a garota sentindo-se à vontade o suficiente para assediar e colocar a posição do colega de classe em jogo por um mero capricho vaidoso – por deus, jogava tão baixo.
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{ flashback } poucas semanas após o evento: w. @elizahale·
O evento da fogueira havia animado os estudantes, até mesmo Christopher, que estava completamente tenso por conta da pressão de seu pai a respeito do futebol e de se manter como quarterback. Treinos exaustivos, somados aos exercícios extras que fazia por conta própria para orgulhar o genitor e lhe mostrar que estava disposto a se dedicar cada vez mais, e ainda assim, nada parecia ser o suficiente. O homem sempre buscava algo para alfinetar. A reclamação do momento eram suas notas. Haviam caído, é verdade, mas ainda não começaram as provas, o jogador tinha alguma chance de se salvar. A julgar pelo seu rendimento em sala de aula, as chances eram poucas, e foi por isso que um professor teve a ideia de pedir que algum aluno fosse o seu tutor. Christopher não soube de quem se tratava, até receber nome e sobrenome, e um horário e dia marcado pelo próprio professor na biblioteca da escola para o primeiro dia. Ansioso, nervoso, sem saber se conseguiria, o quarterback decidiu esconder esse pequeno detalhe de todos, até de sua namorada. Foi ao encontro de Eliza, no horário combinado, olhando para os lados enquanto caminhava para verificar que ninguém o seguia ou observava. Chegou ileso ao local, os olhos passeando pelas mesas para encontrar a sua futura tutora, e foi até ela assim que a viu. ❛❛ Oi, Eliza, não é? ❜❜ Ele não se apresentou. Não tinha esse costume. As pessoas normalmente o conheciam, fosse pela popularidade na escola, ou por ser filho de quem era. ❛❛ O senhor Steinfeld me disse para vir aqui, te conhecer, e tudo mais. Ele já te explicou, hum… a minha situação? ❜❜ Falava baixo e olhava para os lados, para se certificar de que ninguém os ouvia. Não só pela exigência do lugar onde estavam, mas também por não querer que ninguém soubesse que ele estava precisando de ajuda para estudar.
senior year – as apostas eram altas e os nervos agitados, havia tanto em jogo, não somente o simbolismo de encerramento de um ciclo definitivo na vida de qualquer adolescente, ao qual a garota honestamente nunca se importou muito, mas a iminência do tempo futuro e a imprevisibilidade do presente eram suficientes para deixar os cabelos de eliza em pé, lançando seu coração em arritmia diante da própria ideia do que vinham a ser os próximos meses. sequer havia completado três semanas de aula e a garota já havia assumido mais tarefas do que poderia suportar: “a escalada ao palanque do grêmio estudantil não acontecerá sozinha!”, era o que gostava de repetir a si mesma diante do espelho todos os dias, se quisesse encerrar seu último ano na liderança do corpo discente e com um ótimo selo de aprovação em seu currículo então precisaria iniciar sua campanha quase que imediatamente, isso sem contar a administração de todas as suas outras responsabilidades. talvez por isso a notícia que havia recebido na última quinta-feira do professor steinfeld não poderia vir em hora mais inapropriada, oras, ela já tinha coisas o suficiente para se preocupar e ações de caridade como as do grupo de monitoria simplesmente não se encaixavam em sua agenda! embora seu desejo fosse recusar o trabalho, a garota sabia que não o poderia por duas razões: primeiro, o senhor steinfeld era um professor de prestígio dentre o conselho de mestres da escola, então jamais poderia se indispor com ele daquela maneira e arriscar alguma espécie de sabotagem no futuro – lembre-se, tudo é política – e em segundo lugar, o que ela pareceria senão uma fracassada? eliza mais do que ninguém tinha uma reputação a zelar e cultivar naquele território, especialmente se quisesse garantir um bom lugar no anuário, logo, arriscar parecer uma preguiçosa incompetente definitivamente não era uma opção.
assim, naquela manhã a garota vestiu sua melhor saia, ou que vinte e três dólares poderiam pagar na H&M mais próxima, partindo para a sala de estudos onde aguardaria pelo sujeito. sentada na desconfortável cadeira de plástico, eliza pensava a todo momento como aquela seria uma oportunidade perfeita para aproximar-se de seu eleitorado, afinal de contas todo líder em potencial deve ser acessível o bastante para que seu público o conheça e deposite confiança em sua pessoa e, consequentemente, seu voto – não era isso que maquiavel dizia? que seja. se mesmo assim aquela experiência acabasse sendo um desastre, ao menos poderia subornar o editor do jornal para adicionar um bom retrato seu ao lado do mural da monitoria. distraída com as próprias fantasias, a voz masculina perfurou o silêncio da sala, chamando-a por seu nome. ao erguer o queixo, uma grata surpresa – “christopher patterson?”, a voz interior questionou, ao que o próprio consciente se perguntava se o homem não havia feito alguma confusão, acabando no lugar errado. – sim, sim, eu mesma. – a voz apressada escapou de seus lábios ao que a jovem organizava a própria postura, uma muito mais... presidenciável. – chris, não é? – a garota buscou corrigir a animação anterior com um tom mais sóbrio, fingindo algum desinteresse pelo atleta à sua frente. – oh sim, é claro. quer dizer, ele foi bastante discreto e não me contou que se tratava de você. – os ombros relaxaram ao que a língua de eliza se afiava como uma lâmina. – afinal de contas o líder de nosso time de futebol não pode correr o risco de sofrer esse tipo de exposição, não acha? você vai nos levar a vitória daqui há alguns meses, nada pode atrapalhar isso! – um sorriso diplomático estampava seu rosto. – eliza hale, muito prazer. – a destra travou à frente de seu corpo, convidando-o a um cumprimento formal. – mas me diga, em que posso ajudar, chris? – a língua traiçoeira da garota já se acostumava com o som do apelido. – tenho certeza de que o senhor steinfeld foi um pouco dramático na explicação dos fatos, se você quer saber... suas notas devem ser perfeitamente boas, meu trabalho será fácil. – a hale cedeu uma piscada abusada, preparando o terreno com seus elogios exagerados.
quem quer que tenha sido o responsável pela criação do ideal de “sonho de vida americano” do pós-guerra deveria estar completamente fora de si, gravemente perturbado pelo resquício das inspirações iluministas do século dezoito e pela fantasia mentirosa que os constitucionalistas norte-americanos criaram na mesma época – ou ao menos era isso que eliza pensava, recusando-se a admitir qualquer opinião contrária à sua desde muito cedo.
a personalidade geniosa e o comportamento exigente moldaram-se na garota no início da pré-adolescência ao que a hale mais nova já demonstrava os primeiros sinais de insatisfação com a materialidade que a cercava, tornando-a alvo de seus questionamento e inquietudes. a origem daquele sentimento, porém, estava muito longe de ser apenas uma revolta típica de jovens daquela idade, alimentada por devaneios adolescentes, mas uma expressão muito sombria de como eliza percebia sua própria existência. a tomada de consciência de que em nada se parecia com as demais garotas de sua turma, que tinham enormes casas com piscinas e bonecas caríssimas, a lançou em um estado dramático de negação antes mesmo do aniversário de quinze anos. a realização de que eram a típica família de classe-média estampada na contracapa de algum catálogo de uma loja de departamentos fuleira, a preencheu de um sentimento amargurado ainda em sua primeira década de vida, nutrindo um ressentimento devastador em relação aos próprios pais que parecia devorar seu coração todos os dias.
✰ little girls don’t play with dolls anymore
não poderia acreditar que enquanto a maioria de suas colegas de classe se preparavam para passar as férias de verão em alguma mansão em marta’s vineyard, ela tinha de se contentar com as tardes monótonas e abafadas do subúrbio pavoroso de new jersey; lembra-se perfeitamente de estar sentada sob sua janela, buscando refúgio do calor que lançava seu corpo em chamas – é claro que eles não tinham ar-condicionado – e observar com desdém as crianças do outro lado da rua, assistindo suas mãos imundas rabiscarem o asfalto com giz enquanto suas camisetas ilustravam as manchas coloridas deixadas pelos sorvetes que lambiam. tamanho era o sentimento que lhe amargava o peito que preferia passar as tardes quentes trancadas em seu quarto a juntar-se a eles, mesmo com o incentivo dos pais de que passasse algum tempo com os demais de sua idade, ao que ela prontamente respondia com algum murmúrio grosseiro e pedidos rebeldes de que a deixassem em paz. como uma adolescente perfeitamente insatisfeita com sua vida, eliza mantinha-se isolada em seu quarto a todos os momentos, rascunhando seus pensamentos mal-humorados no diário de papel, questionando-se do porquê sua vida havia de ser tão trágica e miserável, tão diferente daquela que levavam suas colegas ricas e privilegiadas. acreditava que viver tal vida era uma maldição e que havia sido aprisionada àquela realidade como uma espécie de punição dos próprios pais, frequentemente afogando suas mágoas nos mesmos, esses que pouco pareciam compreender a origem da insatisfação da filha, ressaltando a dedicação e o esforço que empregavam todos os dias para garantir o conforto que tinham, o que bastava para despertar ainda mais a ira da jovem.
veja bem, para qualquer um que cruzasse a fachada da residência dos Hale teriam a impressão de que se tratava de uma família perfeitamente normal e bem, de fato eram. talvez essa houvesse de ser a fonte de incômodo da jovem: eram dolorosamente medianos, tão comuns e desbotados quanto a pintura de cor amarela que adornava o exterior da casa, tão desinteressante quanto aqueles que habitavam a propriedade. eliza não se conformava com tamanha banalidade, para ela não havia nenhuma singularidade que diferenciasse o casal de assalariados e a vida pequena que levavam de qualquer outro núcleo familiar da rua. enquanto os outros colegas de sala compartilhavam histórias magníficas sobre seus pais no dia das profissões na escola, homens e mulheres do show business ou com carreiras impressionantes na indústria do petróleo, ela tinha de se dar por satisfeita com as histórias tediosas de seus pais e com o constrangimento que sentia em todas as ocasiões que a mãe anunciava com enorme orgulho a própria trajetória de trabalho árduo. ainda, o horror que tinha aquela vidinha ocorria sob o medo de perecer ao mesmo infortúnio – a ideia de passar o resto de sua vida acorrentada ao subúrbio de jersey lhe assombrava todas as noites, sendo capaz de induzi-la em um estado febril, a depender da situação.
✰ “but she looks so... inoffensive”
a chegada ao ensino médio parecia a segunda chance que eliza tanto ansiava: embora continuasse tão pobre quanto antes, talvez aquela fosse sua única oportunidade de transcender a realidade cruel que a encarcerava, claro que o caminho seria muito mais fácil caso ela tivesse algum tostão ou notoriedade na comunidade, mas estava disposta a fazer o que fosse necessário para ascender ao panteão dos deuses. competir com os bolsos estufados de dinheiro dos outros colegas era uma tarefa praticamente impossível, não demorando muito até que eliza percebesse a duras penas que a melhor estratégia era, também, a mais demorada: a agressividade com a qual pressionava os demais colegas apenas dificultaria as coisas, havia de encontrar uma maneira menos hostil de ser aceita – o que necessariamente implicava na dominação quase selvagem de sua impulsividade e da necessidade desesperada de validação social. a abordagem deveria ser o mais discreta possível ao ponto de parecer algo quase que natural, se camuflando com a paisagem sem levantar suspeitas, já que claramente não pertencia ao mesmo extrato social dos outros. seus esforços passaram a ser recompensados e como em um passe de mágica a garota passou a frequentar todos aqueles espaços que antes pareciam apenas uma miragem em seus sonhos: vez ou outra arranjava um jeito de se sentar com as meninas populares no intervalo – encolhida à beira da mesa afim de ouvir suas histórias – ou então em alguma festa pós-jogo, frequentemente barganhando as respostas de algum teste de química por um convite aos eventos mais exclusivos da temporada.
no segundo ano da escola, eliza já transitava por todos aqueles espaços com certa confiança, convencendo aos outros e a si mesma de que seus dias como a pobretona da zona oeste de wenkhill estavam contados. talvez a qualidade mais surpreendente sobre a garota tampouco fosse suas habilidades lógicas e a ligeira facilidade com que performava nas matérias acadêmicas, mas sim sua aptidão para bajulação – era uma puxa-saco nata, a personalidade camaleônica e completamente plástica adaptava-se com uma facilidade invejável a qualquer ambiente em um piscar de olhos, sem poupar elogios exagerados aos colegas e professores. a aparência um tanto inofensiva tornou-se seu principal trunfo com o passar do tempo; quem suspeitaria que a menina que tinha olhos de boneca poderia ser uma alpinista social das mais sujas? ela estava em todos os lugares: nos jogos de futebol americano, onde conseguia aproximar-se dos atletas e das líderes de torcida, nos eventos solidários do grupo voluntário e de assistência aos pobres, nas equipes de atividades extracurriculares de prestígio como de debate e o decatlo acadêmico e, claro, no grêmio estudantil – construindo alianças entre àqueles que, apesar da posição pouco significativa na pirâmide social, ainda representavam uma camada de relativa importância, o que era o suficiente para despertar o interesse da garota.
✰ don’t you know that’s the price you got to pay?
naturalmente não havia como a garota manter o desempenho exemplar em tudo: enquanto as manhãs eram ocupadas pelas atividades disciplinares nos corredores de east wenk, os horários da parte da tarde eram dedicados às responsabilidades do grêmio e dos infinitos clubes de que participava – aos quais fazia questão de micro gerenciar – restando poucas horas para o descanso e relaxamento. o comportamento obsessivo desenvolvido pela busca doentia por validação e prestígio social gradualmente passaram a apresentar seus primeiros sintomas; instabilidade emocional provocada pelos altíssimos níveis de estresse, insônia e falta de concentração para se mencionar alguns. a preocupação dos pais e o pedido de que pegasse mais leve consigo mesma eram prontamente ignorados sobre os gritos irracionais de que eles não sabiam o que diziam, insistindo que estava perfeitamente bem e que tudo estava sobre controle. com o encerramento do ano letivo e a devolução das notas finais, porém, eliza viu seu mundo desmoronar diante dos próprios olhos – a performance patética nos últimos seis meses havia arruinado suas chances de conseguir uma bolsa de estudos integral e ela teria sorte se conseguisse ingressar em algum curso comunitário com aquela pontuação. em completo estado de recusa, a garota se aproveitou do relacionamento estreito que mantinha com o coordenador estudantil e inventou meia dúzia de mentiras para justificar o próprio fracasso, apelando para o currículo de prestígio que havia construído até aquele momento e implorando por outra chance de prestar as provas. os esforços a recompensaram com uma média suficiente para uma entrada tardia e meia bolsa de estudos, sendo necessária a ajuda financeira da família para garantir o ingresso da filha do casal no ensino superior. diante da notícia, não bastou um dia para que o relacionamento complicado que tinham fosse rapidamente substituído por um muito mais afetuoso, com eliza rasgando elogios e comentários carinhosos aos pais até que esses concordassem em financiar metade de seus estudos em uma universidade do outro lado do país, reunindo cada centavo que tinham em suas contas bancárias e hipotecando a casa ao banco pela segunda vez. quando pode ver, estava no primeiro voo para califórnia, exatamente como havia previsto.
em stanford, optou pela graduação na carreira de relações públicas – uma escolha natural para alguém que havia bajulado seu caminho por todo o colegial e carregava suas habilidades sociais, por falta de termo melhor, como medalhas de honra por onde fosse. acostumada com os jogos de popularidade do ensino médio e com a relativa facilidade que tinha de soprar os ventos ao seu favor, eliza não poderia ter antecipado a dimensão do desafio que a aguardava, dando-se conta de que se quisesse que algum de seus colegas se lembrasse de seu nome ao final do dia, teria de fazer tudo com dez vezes mais empenho. demorou algum tempo até acostumar-se com a velocidade das coisas, se durante a escola ela era sua própria concorrência na maioria das vezes, na faculdade existiam tantas outras eliza’s dispostas a fazer o que fosse necessário para conseguir uma pontuação máxima em algum teste e uma menção honrosa ao final do semestre.
✰ what happened at the connor griffin and jorge castro campaign.
a proximidade com connor griffin, o rosto do partido no estado, aconteceu da maneira mais espontânea possível, acredite, enquanto percorriam a estrada entre um município e outro, repassando o roteiro de entrevistas da manhã seguinte. embora soubesse exatamente o que dizer para cair nas boas graças de seus superiores, eliza tinha pouco interesse em se aproximar do rosto da campanha, temendo as consequências de perturbar a rígida organização hierárquica do mundo político e o próprio desinteresse pelo homem vinte anos mais velho. talvez por isso não fora capaz de perceber os sinais vermelhos antes que fosse tarde demais: as risadas calorosas demais, as discussões sobre temas da campanha até altas horas da noite, o interesse do sujeito por sua perspectiva sobre assuntos que pouco lhe diziam respeito – não demorou muito até que a assistente fosse pessoalmente selecionada pelo homem para acompanhá-lo de perto na segunda metade da campanha. a proximidade do trabalho e a necessidade de tê-la por perto a todo o tempo, convenientemente sob o pretexto de reuniões emergenciais, de repente a levaram para o interior da casa do candidato, dividindo a mesa do café da manhã com sua esposa e filhos. ainda que a situação fosse um pouco inconveniente a mulher estava certa de que poderia manter tudo sob controle – tão ingênua – alegando que aquilo havia de ser uma mera carência por parte dele após tantas semanas na estrada. em pouco tempo o comportamento despertou a atenção da equipe de comunicações, seguido pelo gerente de campanha e pela própria imprensa, que passava a questionar a presença da jovem em todas as fotos do candidato sob as manchetes da infidelidade de griffin e o “affair” político aos moldes de monica lewinsky durante os anos clinton. afastar-se certamente não seria uma opção, levantando suspeitas imediatas sobre seu desaparecimento repentino, o que não ajudaria em nada, logo, a solução fora permanecer exatamente onde estava; mantendo uma distância segura por detrás dos panos e uma posição discreta nos encontros com a imprensa, calada. certamente isso não fez com que os assédios cessassem, com griffin insistindo em movimentos inapropriados sempre que tinha a oportunidade, buscando seus olhos durante as reuniões e tocando seus joelhos por debaixo das mesas apertadas do ônibus de campanha. a notícia que haviam vencido a eleição acompanharam um sentimento de alívio, estava livre de cumprir todas aquelas obrigações em nome de um bem maior, mas pouco tinha para celebrar, sentia-se usada e tão patética quanto uma criança idiota. o retorno para nyc significava, mais uma vez, reconstruir sua reputação e nome do zero, recolhendo os pedaços quebrados de sua identidade e os colando em desespero, repetindo os mesmos passos de seu eu de treze anos atrás.
Contrary to the miserable, self-justifying proclamations of Klavan’s editorial, true moral complexity is rarely found in simple reversals. More often it is found by wading into the swamp, getting intimate with discomfort, and developing an appetite for nuance.
Maggie Nelson, excerpt from The Art of Cruelty: A Reckoning
(via virgin-martyr)
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