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Alexandra Daddario

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(15/03)
‘ I fucking love you.’ --- Elena Piotrovitch sussurrou ao encontro do ouvido alheio num tom suave, embora houvesse certa lascividade tanto nas palavras quanto no mover do próprio corpo. Engatinhava sobre Kellan enquanto se aproximava, ambos parcialmente desnudos senão pela roupa íntima. Abriu um pequeno sorriso, depois mordiscou levemente a ponta da orelha dele, descendo beijos espaçados pelo maxilar e pelo pescoço. Afastando-se centímetros para encará-lo, perdeu-se nos olhos verdes por segundos, o rosto irradiando felicidade involuntariamente. ‘ Happy Birthday, Kellan. ’ --- Disse baixo, antes de inclinar para frente e tomar os lábios dele nos seus.
[...]
Kimberly em Hogwarts era uma novidade dolorosa, coisa que certamente demoraria a se acostumar. A pequena possuía aura expansiva e um fascinante desejo de aprendizado, este provavelmente herdado da própria Elena, que vinha acompanhado a uma série de perguntas sobre a origem de toda e qualquer coisa e pela constante necessidade de expressar a própria opinião. Resumidamente, tinha criado uma tagarela. Mas jamais havia notado o quanto gostava daquela faceta da filha até perceber o silêncio advindo de sua ausência.
Havia lado positivo também, era verdade. Kim finalmente receberia introdução aos estudos mágicos, algo que evitaria mais problemas como a vez na qual transformara suas orelhas em versões peludas semelhantes as de um husky siberiano -- sinais da metamorfomagia de Kellan -- na frente dos coleguinhas do ensino fundamental; ou a que acidentalmente ateara fogo ao vestido formal que não queria usar, alegando ser demasiado infantil. Finalmente faria amigos bruxos, descobriria disciplinas interessantes e poderia por em prática os fundamentos de Quadribol tão entusiasmadamente ensinados pelo pai. Animada, Elena então pegou-se sorrindo no trajeto de volta da escola primária de Hector para casa.
Por falar no mais novo, agora teria mais tempo livre para mimá-lo. E não só pela falta de Kim, mas principalmente após a promoção que ganhara meses antes, que a elevava de magizoóloga geral para o tão ansiado cargo como especialista em dragões numa grande clínica da Itália bruxa. É claro que teria viagens aqui e ali, mas a maioria do trabalho seria feito direto de casa. Pesquisa. Formas de conservação da espécie. Objeto de estudo que por décadas havia admirado profundamente, ainda mais após conhecer o marido. Não era segredo que via Kellan como a personificação do patrono: intenso e fascinante; Volátil. Dono de um coração singelo e puro, ainda que danificado, embora o exterior pudesse insinuar perigo. Elena sempre sentira-se extremamente atraída por aquele estigma.
[...]
‘ I’ve got you something.’ --- Mordeu o próprio lábio inferior ao passo que ia moldando na face um meio sorriso. A mão foi até a cômoda ao lado da cama e tateou a superfície até encontrar a varinha, com a qual Elena conjurou um accio. Segundos depois, um pacote de tamanho médio, como uma caixa de sapatos, veio flutuando até o casal, atraído pela ponta da madeira. O pegou no ar e pôs com cuidado sobre o peito de @kellan-piotrovitch, vez que ela própria tinha cada uma das pernas dispostas aos lados do marido e estava intencionalmente sentada num ponto relativamente sensível do corpo masculino. A caixa tremeu um pouco, tal qual estivesse viva. Olhando mais de perto, era possível notar pequenos microfuros que permitiam a entrada de ar. ‘ I think i need to prepare you before you open it... ’ --- uma risadinha escapou, excitada e cheia de expectativa. ‘ It doesn’t have a name yet, so you can give it as you wish. It’s a she, by the way. I bought her a week ago at my last trip to Romenia.’ --- Os dedos acariciaram o pacote com carinho, então voltou a atenção para Kellan. ‘ It’s a dragon. A little one, actually. It’s normally used in events or competitions, more like a model miniature... Doesn’t grow several inches like real ones, usually fits in the palm of the hand.’ --- A mão livre buscou a de Kellan e a virou para cima, deixando a palma à mostra. Com a outra, largou a caixa e passeou lentamente os dígitos por suas linhas da vida. ‘ But some can pet them. And i happen to have a warrant.’ --- Como magizoóloga, certas regalias lhe eram concedidas. E, afinal, quem melhor para ter a posse de um mini dragão do que alguém que trabalhava com eles? ‘ But the best part is the species.’ --- Parou o movimento com os dedos, apenas para enlaçá-los nos dele. ‘ It’s the same as your patronus. So, metaphorically, It’s a living happy thought for you to carry arround.’ --- Esperava que ele gostasse. Não daria tanto trabalho para criar e talvez, caso fosse educado para tanto, até pudesse ajudá-lo nas missões como Auror. ‘Go on, open it!’ --- Sussurrou, deixando que o sorriso crescesse. Os dedos batucaram o papel de presente da caixa uma última vez, tendo um pequeno reboliço como resposta.
The STNDRD Magazine (2015)
When I Was Your Man || Kellena
A personalidade taciturna e quieta de Kellan se agravou ainda mais na sala de estar dos Valentinis. Sentado no sofá, olhando para o corredor com esperança, seu tamanho parecia descomunal e fora d lugar. Um gigante tentando se misturar com a população pequenina e simpática de uma cidade distante. Seus dedos circularam a xícara de chá distraidamente, com tão pouca força que podia escorregar de seus dedos e espatifar no chão – era isso ou cortar seus dedos com a porcelana quebrada pela força de sua tensão. Suspirou, cansado. Os minutos pareciam se arrastar ainda mais devagar que o tempo em que passara em casa, admirando um espetáculo no qual não tinha olhos para apreciá-lo. Ele queria vê-la. Tomar consciência daqueles cabelos negros e olhos azuis estavam da mesma maneira em que a deixara depois do piquenique. Radiantes, saudáveis e brilhantes.
Tentavam conversar com ele, é claro. Sendo da família que eram, e tomando Elena como exemplo, o mínimo que podia fazer é oferecer algum tipo de entretenimento para o convidado de última hora. Só que Kellan não queria conversa. Kellan queria invadir tal quarto e arrancar aquele frasquinho das mãos de Elena. Queria fazer aquilo juntos, de mãos dadas. E quando ela o recusasse estaria preparado, compreensivo de que aquele conto de fadas já tinha um prazo de validade antes de ser escrito. De sequer ter sido sonhado e aceitado pelo homem que não conhecera nem carinho nem amor por mais da metade de sua vida.
O barulho o trouxe a vida, fazendo-o levantar os olhos e procurar a varinha com a mão. Anos sendo auror trouxeram a conduta desconfiada e alerta de volta a ativa. Contudo, a varinha permaneceu no bolso ao reconhecer as írises claras e brilhantes. Mas brilhantes do jeito errado. Vermelho demais, úmido demais. Kellan levantou-se e adiantou-se para o banheiro, colocando a xícara do par de mãos mais próximo que encontrou. Não pensou nas consequências que as memórias fariam naquele momento, nem na possibilidade de Elena odiá-lo só por ter vindo. O seu dever de marido, a sua urgência em ajudar a mulher e a vontade cega de se tornar presente em seus problemas, para ajudá-la, suplantaram quaisquer tentativas de pensar racionalmente.
Adentrou o banheiro e rumou a passos rápidos até o vaso. Ajoelhou-se ao lado de Elena e, com cuidado, tirou os cabelos de perto do rosto e da zona de sujeira. Os fios que restavam foram capturados pelos dedos leves e gentis, desobstruindo tanto o ato típico da gravidez como a visão de seu rosto e expressões. Juntou tudo numa mão, liberando a outra para passar por suas costas carinhosamente, do jeito que tinha feito quando Kim estava por nascer. “Que um pouco de chá de gengibre?” Perguntou em voz baixa, hesitante.
Elena assentiu algumas vezes, um fraco sorriso pintando o rosto ao sentir o calor da mão de Kellan em suas costas. Era reconfortante. Ela fechou os olhos, vomitando mais uma vez e então afastando a cabeça do vaso para que pudesse limpar a boca com as costas de uma das mãos. Respirou fundo. Abrindo lentamente os olhos, começou a pensar em como agiria no momento em que suas pálpebras parassem de impedir-lhe a visão... até que já não havia nada mais em seu caminho.
O impacto de ver Kellan ali, tão próximo a si, foi capaz de assustá-la. Por um mísero segundo, todas as memórias que foram-lhe compartilhadas minutos atrás nublaram sua mente, confundindo, incitando sentimentos que não queria ter. Era como se ainda estivesse na penseira, no pesadelo que daquele dia em diante chamaria de passado. Elena então piscou; uma, duas, três vezes, até que lágrimas voltassem a escorrer por seu rosto como cachoeiras. Deus, ela o amava. O amava tanto. Como fora capaz de ser tão cruel?
Em um impulso, lançou-se para frente -- os braços voando na direção do corpo bruto e se enroscando em volta do pescoço para um abraço apertado. Elena soluçava. “E-eu sinto muito.” Disse em um sussurro, escondendo o rosto no ombro do marido. Queria olhar em seus olhos, queria que ele olhasse nos dela e visse o quão importante era para si, mas temia que, se interrompesse aquele contato, talvez fosse para sempre. “M-me desculpa, p-or f-favor.” Continuou, a voz saindo um pouco abafada por causa da posição em que se encontrava. “E-eu fui um mo-, um monstro.”

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When I Was Your Man || Kellena
Kellan não esperava passar os primeiros dias das tão desejadas férias sozinho em casa. Não esperava passar as horas em constante conflito ao lado da janela aberta e do céu glorioso desabrochando em cores que usaria para comparar a beleza da amada. Parecia que o sol em todo o seu esplendor iluminava-o de um ângulo e maneira que o deixava tão exposto como um fio desencapado. Cada som o fazia se virar e andar pela casa buscando a origem da perturbação. Chamava o nome de Elena, implorava para que o fantasma que o atormentava aparecesse e desse fim a provação, mas nunca era ela. Ou era o som batendo nas cortinas de uma janela meio aberta ou era fruto de sua própria imaginação excitada demais para se acalmar. Depois de completo o circuito de quartos e corredores conhecidos, Kellan voltava para o lugar de origem: sentando num banco e olhando para as nuvens mutantes e estranhas do céu. Pensou em seguir para o banheiro onde o espelho da parede inteira se encontrava, fazendo-se valer de seu dom de matamorfomago para se transformar numa de suas mulheres amadas. Mas era triste. Doloroso. E só faria aumentar ainda mais a saudade que lhe corroía o peito.
Se levantou e apertou a moldura da janela com os dedos fortes – e de unhas roídas até o talo. O nervosismo o fazia inquieto, a inquietação o fazia pessimista e o pessimismo o incitava a rumar para o quarto e arrumar as malas para a viagem final, para longe. Por que outro motivo Elena teria levado Kim consigo além de manter longe do pai que estava prestes a revelar aquela parte que só comentara de maneira leviana e superficial. Se ele se arrependia de ter dado aquele frasco? Não sabia dizer. Seu interior era um caos completo, uma mistura de prazer por aliviar o peso e a esmagadora sensação de ter estragado o que melhor lhe acontecer como todas as outras vezes que chegara perto de ser remotamente feliz. Quem você está tentando enganar, Kellan? Se repreendeu. Sua memória excelente não conseguia trazer dados que pudessem ser associados com felicidade que não relacionados a morena de olhos brilhantes e azuis. Fugir da máfia russa era mais adrenalina e animação do que felicidade. Qualquer um podia escapar de trouxas quando se tinha a magia e poder ao seu lado, e a carta da manda que era seu dom. Matar os pais não era, tampouco, felicidade. Foi uma necessidade, um dever. Se ver livre de tais presenças nocivas só não era mais importante que livrar do mundo de sua influência. O que aconteceria se ele fugisse ao invés de matar? Teriam ido atrás? Teria feito a vida dele um inferno maior do que já era? Provavelmente.
O som do telefone o tirou dos devaneios. Usar a aparatação para chegar ao aparelho parecia exagero, mas na hora pareceu muita mais do que razoável. A voz conhecida o fez usar um tom mais ameno e descontraído, como se nada tivesse acontecido, como se seu mundo inteiro ameaçasse ruir numa só palavra. Nonna poderia ser a porta-voz de tal trágico destino. Elena poderia estar tão… tão… – palavras não surgiram para explicar – que precisaria da ajuda de outros para transmitir a notícia ao marido, ou melhor, ex-marido. É a separação. É a separação. Os pensamentos voltavam para a mesma frase, mesmo que o que a mais velha tentava falar fosse justamente o contrário. Kellan piscou e pediu para o recado fosse repetido, obtendo a confirmação do que tinha ouvido. “Obrigado.” Agradeceu em inglês com o forte sotaque russo e abaixou o telefone, a mão tremendo em expectativa.
O que faria o que faria. Pegou o casaco pendurado atrás da porta, ativou a secretária eletrônica, ligou o urso de segurança e pegou pó de flu no pote sobre a lareira. As chamas verdes o consumiram, o brilho fazendo-o piscar e se ver num novo ambiente, conhecido em sua decoração e na presença feminino que o aguardava. Kellan a cumprimentou com respeito e ouviu as indicações de onde Elena estaria. A informação, contudo, entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Negou com a cabeça e torceu a varinha que tinha em mãos, sem nem ter percebido quando a tinha tirado do bolso, sorrindo de maneira contida. “Eu não posso ir atrás dela, Nonna. Eu não mereço nem tenho permissão para fazer isso.” Lançou um olhar esperançoso e vago para o interior da casa, ansiando ver o rosto da esposa nem que fosse pela última vez. Que não esteja em lágrima, por favor. Kellan parecia uma criança imberbe dos tempos de fazenda, nervoso de uma maneira que não esperava ser possível. Parecia às vésperas da morte, batendo no portão negro que o levaria para o inferno. Se ela viesse com lágrimas não aguentaria. As lágrimas o levaria num deja vu de anos atrás e ele tinha marcas profundas desse dia fatídico. Além de lembranças que ele tinha visto ao apagar aquelas que destruíram a esposa, seu único amor.
Elena emergiu ainda em prantos, sequer se preocupando em conter os soluços altos que emitia. Para ser honesta, ela não fazia ideia do que pensar, quem dera como agir. Acreditava estar sozinha na casa, imune a qualquer tipo de pergunta ou julgamento; livre com sua dor ao menos por um breve período de tempo. E aquilo doía. Deus, como doía. Talvez a antiga Elena não soubesse a gravidade do que fizera, mas a atual sim. Ela via todos os dias no rosto do homem amado. Às vezes pegava Kellan olhando para si com uma expressão esquisita -- pesar, agora entendia --, relativamente aéreo, mas ainda assim focado, como se incomodado por um pensamento pertinente.
Culpa.
E sim, ele era culpado por muitos crimes. Mentiria se dissesse não estar com medo; Kellan tirara a vida de uma família inteira, sua família, e mais do que nunca isso a assustava, povoando sua mente com imagens e mais imagens sangrentas e doentias. "Assassino" ecoando repetidamente na parte mais profunda e negra de sua mente. Todavia, seria extremamente vil condená-lo dessa forma. Inferir que esse ato odioso se repetisse, uma vez que a situação não poderia ser mais obviamente diferente, era deixar as emoções conflitantes tomarem o controle, permitir que a ingenuidade a cegasse novamente. Era cometer o mesmo estúpido erro. E isso simplesmente não era uma opção.
Com alguns passos para trás, sentou-se na cama. A janela aberta ainda trazia a brisa leve, porém um pouco mais fria que o usual. Elena olhou para fora, notando a coloração escura que cobria todo o céu. Passara mesmo tanto tempo ali? A respiração compassada e forte ajudava a acalmar, mas os vestígios do choro ainda se faziam presentes no inchasso do rosto. De repente, porém, a mão veio à boca, prevendo o que o organismo trabalhava para conter. O interior de Elena embrulhou, dando espaço à náusea, e a súbita corrida ao banheiro foi mais reflexo do que cálculo. Ao abrir a porta, no entanto, deu-se de cara com o grupo de familiares.
Vê-los ali surtiu na mulher efeitos divergentes. Felicidade por vê-los bem, angústia pelos olhares recebidos; a expectativa exposta em cada um deles. Elena parou por um momento, absorvendo tudo, antes que os sintomas à lembrassem do seu real destino, levando-a a voltar a correr. E vomitou duas, três vezes. As lágrimas mornas se misturando às gotículas de suor devido ao esforço, seu corpo se retesando, debruçando-se sobre o vaso sanitário uma ultima vez.
When I Was Your Man || Kellena
"Você pode escolher o que bem entender. Os galeões são seus, digo, nossos.” Você pode escolher tudo, Elena, que será seu. Eu prometo. Kellan não conseguia desviar o olhar do rosto da esposa de tão admirados que estava. Haviam se passados anos e mais anos desde que se conhecerem, mais uns outros construindo uma casa e uma família, e mesmo assim, ela não tinha mudado. Claro, uma ou outra marca indicava o desgaste inexorável dos anos, mas nada alteravam a beleza que ela carregava no rosto com tanta graça. Kellan levantou a mão e deixou que os dedos fizessem algo que eles estavam coçando de tanto desejo. Passou as pontas pela bochecha macia de Elena, sentindo a pele de seda sob os dígitos, antes de deixá-los seguir o caminha até os cabelos negros. Era bom demais, mais do que ele merecia, obter tanto conforto de um gesto tão simples. Haviam dias em que o homem simplesmente acordava na cama desorientado, perdido e confuso do porquê uma mulher como ela tivera a insanidade de aceitar alguém como ele pelo resto da vida. Será que ela sabia que a média de vida tinha aumentado? Será que ele contara tudo, tudo, sobre sua infância e vida? Nesse momento ele lembrava que não e entendia, entendia o motivo por trás de tudo. Manter esse segredo o deixava triste, mas bastava um olhar para a prateleira do quarto do casal para que a tristeza fosse jogada para longe. Da primeira e última vez que contara tudo Elena se desfizera em sua frente. Escandalizada, revoltada com cada grama de verdade que espremia do lugar mais vulnerável e sensível de seu ser.
Kellan lembrava da dor que o dilacerou de um canto a outro da alma. Daquela expressão de arrependimento antes da memória dissolver em ar e perfume. Quanto mais pensava nisso, mas a certeza de que não podia continuar assim se firmava. E foi por isso, além daquela nova vida que se desenvolvia no ventre da mulher, que ele decidiu mudar. "Fale mais uma vez. Fale que vou ser pai de novo." A frase que o tinha assustado e enraivecido até a raiz dos cabelos soavam como música. Como se um coro dessas criaturas aladas das religiões descessem do céu numa harmonia de instrumentos e brisas. Kellan amava ficar no jardim da casa, sozinho, só ouvido o vento rugir e brincar ao redor de si. Ele se sentia mais normal assim do que…. há muito tempo. Não havia ninguém para julgá-lo, ninguém gritando para que voltasse atrapalhar. Era só ele e o vasto mundo em sintonia. Parecia meio natureba estranho quando voltava para casa, mas a cada nova experiência tomava consciência de que aquilo ajudava mais do que um psicologo jamais ajudaria. "Eu vou estar ao seu lado de novo. Minha mão vai estar na sua quando o momento chegar. Vamos levar seu irmão para mais perto da sala também, alguém tem que ficar com a Kim." Sorriu tímido. Ia ser bom para os dois, cunhado e filha, passarem um tempo juntos e dividirem essa experiência juntos. Kellan não conseguia imaginar a filha mais longe do que alguns metros no dia que o irmãozinho, ou irmãzinha, chegaria. Kim tinha que ser uma das, se não a primeira, a ver esse novo integrante. "Tentar colocar uma equidade nessa equação é errado, Elena. Muito errado. O que eu fiz para você além de causar problemas? Eu devo tudo o que sou e mais um pouco à você. Se não fosse por você… eu ainda estaria perdido na Rússia, uma bomba-relógia a ponto de explodir. Não parece, mas você me curou." Desceu os olhos para o ventre onde sua mão estava como se atraída por um imã invisível. "Não sou o homem perfeito, nem de longe eu seria considerado metade de tal, mas eu prometo que tentarei sê-lo para você todos os dias. Serei, sou e sempre farei o melhor para continuar sendo o homem que você aceitou se casar."
Tirou a chupeta da boca, a limpou na barra da camisa e forçou a entrada da mesma na boca de Kim que começava a bocejar. "Eu já tenho uma batedora. O que custa me dar um batedor?" Com cuidado, colocou a cabecinha diminuta no colo, o corpo languidamente posicionado sobre o colo de Elana. Era agora,a oportunidade perfeita. "Elena, eu tenho algo para te dar." As palavras mal foram ditas e os efeitos já reverberavam pelo íntimo de Kellan. E se o que ela visse acabasse com tudo? Mostraria que tudo o que tinham era o sonho bom demais que Kellan considerava, mas mantê-la no escuro era ainda pior. O homem podia fazer a árvores genealógica e colocar cada fato e detalhe da vida de Elena no papel. Pais, irmãos, família, contos e causos. O que podia ser dito do Kellan? Tudo depois que fugiu de casa. Puxou a bolsa de picnic para perto e procurou o objeto por entre os alimentos que só ele sabia localizar. A preservação de tal presente remetia as histórias que ouvira nos corredores. Sobre uma grande Hermione Granger que apagara a memória dos pais para que não fossem machucados e a devolveu quando a ameaça de Voldemort não era mais um perigo. Algo tinha dado certo, ela voltou para a família não? Assim como as Horcruxes e os estilhaços de alma, a memória que Elena perdera fora transferida para ele. Na íntegra. E era justamente essa parte leitosa que saíra de sua cabeça que ele retornava. "Eu te contei que apaguei sua memória para… você sabe." Dor, mais dor. Por que ainda doía tanto? Kellan fechou os olhos com força e voltou a falar, os olhos claros brilhando no tom febril, ansiosos. "Você me contou tudo sobre sua infância. Tudo. E é injusto para você e para mim manter a minha sob tantos panos e segredos. Elena…" Esfregou os olhos. Lágrimas de pai, não lágrimas de derrota. Não são lágrimas de tristeza ou lembrança. Lágrimas de felicidade. Tentou se convencer, mas falhou miseravelmente. Ele sorria, um sorriso contido e reduzido. "Essas memória te quebraram, mas são suas. Não posso guardar isso de você por mais tempo. Olhe-as se quiser, guarde-as ou destrua-as, só saiba que eu te amo, mais do que a mim mesmo, e que existe paixão a segunda, terceira e quarta vista.” Depositou o frasquinho na mão de Elena, fechou os dedos dela por cima do vidro frio encostando a testa na dela e a beijando de maneira tenra.
Com a mão estendida, Elena sentiu o peso do objeto em sua palma antes que Kellan pudesse cobri-la com os dedos. O discurso não fazia muito sentido, o que provocou certa confusão em sua expressão, mas assim que a leve pressão cessou e a mulher finalmente foi capaz de ver o que segurava, poderia jurar que sentira o coração parar por alguns segundos, gelando o corpo inteiro consigo.
Uma memória.
E então ela entendeu. As últimas semanas daquele ano terrível de ataques que trouxera sequelas para tantos amigos. De pesadelos a paranoias, todos acabaram apresentando um pouco de desestabilidade em decorrência dos ataques sofridos. Todos, menos Elena. A curiosidade sempre fora um dos seus maiores defeitos e às vezes as indagações sobre as lacunas em sua mente ultrapassavam o saudável, mas ela não acordava no meio da noite suando e com os olhos marejados por pesadelos corriqueiros. Não tornou-se uma pessoa fria, não foi traumatizada. Ao menos não lembrava-se de tanto, e por isso era extremamente grata a Kellan. Removendo de si essas memórias, no mínimo, insuportáveis, ele havia a curado. Então por que queria devolvê-las agora? Simplesmente não fazia sentido.
Todavia, a maneira como o homem a olhava, -- ao que parecia a ela -- triste e até mesmo preocupado, fez Elena perguntar-se algo que jamais havia. “Teria algo a mais?!” Poderia Kellan ter omitido algo sobre as lembranças deletadas além dos detalhes traumáticos? Esse pensamento externou-se por meio não de palavras, mas de um olhar puramente inquisitivo para as orbes verdes, esperando a resposta de uma pergunta nunca verbalizada enquanto a mão apertava o recipiente um pouco mais forte que o necessário.
[...]
“Nonna, a senhora tem um tempinho?” As palavras saíram fracas, abafadas pelo zunido do telefone; mas ainda assim pareceu ser o suficiente para que a senhora do outro lado da linha captasse o tom angustiado da neta. Não que fosse coisa realmente difícil de notar, uma vez que as ligações eram quase sempre cheias de euforia e ansiedade. “Claro querida, está tudo bem?” a preocupação era notável.
Elena hesitou, deixando a estática soar e misturar-se ao som da sua respiração enquanto encarava o pequeno frasco sobre a mesa à sua frente, a uma distância relativamente segura. Suspirou. “Sim, eu só... preciso de um conselho”.
[...]
Elena fechou os olhos e andou a passos lentos enquanto passava os dedos pela parede e sentia a brisa fraca que entrava pela janela brincar com os seus cabelos. Aquela casa trazia tantas lembranças... e era por mais algumas que ela estava lá naquela tarde, aproveitando-se de um passeio extremamente conveniente entre Kimberly e a bisavó.
Abriu a porta e encontrou um quarto perfeitamente arrumado, cercado por mobílias antigas e porta-retratos desbotados que as enfeitavam. Todavia, o que mais chamava a atenção era a bacia de pedra rasa com entalhos estranhos nas bordas, encostada no canto oposto à cama.
Aproximando-se da penseira, foi impossível para Elena não recordar de um momento particular em sua infância: Giovanna Valentini, poucos anos após a morte do marido. Os cabelos, a pesar dos escassos fios grisalhos, ainda possuíam uma coloração negra profunda, mas o sorriso gentil era exatamente o mesmo dos dias atuais. Elena tinha quase sete anos e andava despreocupada pela casa quando abriu a porta do quarto e a encontrou com o rosto imerso no líquido prateado. Enquanto observava, sentiu o desespero a consumir ao constatar que a mulher continuava imóvel mesmo após minutos, como se estivesse desmaiada. Lembrava-se de ter corrido até a senhora o mais rápido que pode, sacudindo-a e tentando a salvar do que pensava ser um afogamento, os olhos encharcados quando a mulher emergiu e, com um abraço preocupado, lhe afirmou estar tudo bem. Desde aquele dia, a pequena Valentini jamais ousou chegar perto do objeto. Até agora.
Abriu a bolsa e dela retirou o frasco vítreo, trazendo-o à altura dos olhos. Contra a luz do sol, o líquido refletia um azul-prateado brilhante, a memória dançando sobre si mesma em movimentos desleixados. Destampou, e tão imediatas quanto as sinapses conseguem ser, incertezas a impediram de continuar. A mão livre foi em direção à barriga, segurando-a com delicadeza, como se acariciasse o próprio serzinho que ali habitava. Estaria ela fazendo a coisa certa?
Respirou fundo. “Elena, essas memória te quebraram, mas são suas. Não posso guardar isso de você por mais tempo. Olhe-as se quiser, guarde-as ou destrua-as...” Desejos contraditórios. Tudo o que Elena mais queria era esquecer de uma vez por todas essa história. Era ir para casa, encontrar Kellan e beijá-lo como se não houvesse amanhã; Ou melhor, como se o amanhã jamais chegasse de fato. Mas ela não podia. Já havia fugido do passado por tempo demais. “...só saiba que eu te amo, mais do que a mim mesmo, e que existe paixão a segunda, terceira e quarta vista”. “Eu também te amo, Kellan.” o sussurro foi quase inaudível, mas o suficiente para encorajá-la a despejar o líquido na penseira; afundando-se em seguida.
[...]
O mundo parecia turvo como fumaça, semelhante a uma imagem refletida em água agitada, até que cada coisa passou a lentamente adquirir forma. Elena percebeu que não conhecia o lugar onde estava, procurando nos móveis e paredes da casa algum quadro ou retrato que lhe trouxesse um pouco de luz. Todavia, nada era, de fato, familiar. Até que a figura de uma criancinha passou correndo por ela, deixando de atingí-la por pouco. O menino fungava, e enquanto corria para se esconder atrás de um dos sofás, Elena não conteu-se em seguí-lo, observando-o com um misto de preocupação e curiosidade.
E então um homem apareceu, os passos fortes ecoando e trazendo a atenção da mulher para si. Elena não entendeu sequer uma palavra do que dizia, falando em tom gritado e gutural que lembrava a ela às vezes em que Kellan tentara a ensinar um pouco de Russo, porém, de uma maneira muito mais branda que o usual. Kellan... Voltando a atenção mais uma vez para o garoto ela pode notar muitas semelhanças, a começar pelo cabelo dourado e ondulado e os olhos esverdeados, agora vermelhos e inchados devido às lágrimas. Vê-lo naquele estado trouxe uma dor gelada ao peito de Elena, mas nada se equiparou às cenas que presenciara em seguida: Os gritos se intensificando, a aproximação repentina e, finalmente, o tabefe. O horror fora indescritível, revoltante. Ao ver a mão calejada atingir o pequeno rosto com tanta força, Elena não teve outra reação senão a de avançar no rapaz, sentindo-se estupidamente impotente ao perceber que o atravessara como um fantasma.
Kellan, que agora protegia o rosto marcado com ambas as mãos, começou a soluçar alto e correr para longe, em direção ao que pareceu ser a cozinha. Elena não pensou duas vezes antes de acompanhá-lo, momentaneamente aliviada por vê-lo ir ao encontro da mãe. Ela o protegeria, afastaria o filho do troglodita com quem havia casado. Kellan estaria à salvo. Mas, infelizmente, não foi isso o que aconteceu. A mulher de feiçoes frias recusou-se a abraçá-lo, dando-lhe as costas no momento em que mais precisava. Deixando que ele fosse rudemente arrastado pelo braço até a frente da casa, abandonado sozinho, assustado e obrigado a suportar a forte nevasca que assolava aquelas terras.
Elena observou todo o resto imóvel, incrédula. Aquela era uma memória cruel e deturpadora, o contrário de tudo o que uma família significava para ela. Pensou em August, em como todos ficaram ao seu lado mesmo perante a deficiência. Foi inevitável não lembrar-se das noites conturbadas de Kellan, dos sussurros durante sonhos ruins. Se ele tivesse a contado, talvez tivesse como ajudá-lo. Talvez... Mal teve tempo para organizar os pensamentos quando o cenário mudou. Já não estava mais na Rússia, mas nos corredores de pedra de um lugar que conhecia muito bem.
Kellan saía do salão comunal, em seus lábios um sorriso genuíno daqueles raros de presenciar, mas que derretiam o interior da morena sempre que o fazia. Andou por poucos metros até avistar, debruçada sobre a janela, uma garota de longas mechas escuras. Elena, seis anos atrás. Em um abraço por tras, o garoto a trouxe para si, provocando certo sobressalto. Porém, este foi rapidamente trocado por surpresa, felicidade. Era fácil perceber as emoções da lufana. Radiante quando feliz, destruída quando abatida.
Mas, no momento, estava mais para apaixonada. A Elena atual pegou-se divagando, tocando os lábios com a ponta dos dedos e ansiando pelo calor emanado do corpo de Kellan -- que nesse exato instante trazia a menor para os seus braços, intensificando o contato --. Escondeu o rosto. Deuses, eles já eram atirados mesmo naquela época! Não conseguiu conter o sorriso. Entretanto, o momento foi abruptamente rompido por um duende encapuzado, jogando os amantes no chão.
E foi quando aconteceu: Em um ímpeto, Kellan revelou algo que mexeu profundamente com a cabeça de ambas as Elenas. “Eu matei a minha família. Todos os quatro. Meu pai, minha mãe e meus dois irmãos. Com minhas próprias mãos ao 12 anos. Depois encobri tudo com fogo maldito. Foi um ataque de raiva, mas não teria feito diferente se estivesse com a cabeça fria. Eu os matei porque eu quis.” Uma pausa, o olhar passando lentamente do chão para as orbes azuis. “... E não me arrependo de tê-lo feito”.
Incredulidade. Esse foi o sentimento que assolou as duas versões de si mesma, provocando a indignação. A diferença, no entanto, era clara. Enquanto observava o passado, Elena percebia o quanto a ingenuidade de outrora fora capaz de cegá-la. “Isso é monstruoso!” Suas palavras reverberaram. A pesar da maneira rude como Kellan a tratara, o que fez a ele fora ainda pior. Ouvir-se dizer aquilo, julgá-lo de maneira tão insensível, a fez pensar em August e na sua família, depois em Kim e no bebê. Os pais de Kellan eram brutos, rígidos à insanidade. Uma comparação da sua vida à dele, dos seus problemas de falta de atenção em contraponto aos maus tratos sofridos, era simplesmente ridículo. Claro, o ato de Kellan fora completamente extremo, talvez até doentio. Mas, após presenciar da memória compartilhada, ela finalmente compreendia.
A cena mudou novamente. Kellan agora corria de varinha em mãos, preparado para qualquer tipo de contratempo. O caos ao redor deles era desconcertante, sequer se comparando às especulações de seu passado desmemoriado. Corpos de inimigos e amigos jaziam para todos os lados, personificando o campo de batalha. E então, ambos viram a figura ensanguentada de uma garota estirada ao chão. Horrorizada, tardiamente percebeu: era ela.
A espectadora não esperava ver-se nesse estado; entretanto, buscou engolir o próprio desespero, pondo na cabeça que não havia nada que pudesse fazer. Kellan começou a tratar dos seus machucados e tentar trazê-la de volta. Ele estava lá, preocupando-se, a amando mesmo após a rejeição. Mas a Elena do passado parecia perturbada, completamente louca enquanto gritava e chamava atenção. Observou os fatos que se seguiram com um nó crescente na garganta, vendo cada palavra proferida dilacerar não só a ele, mas a ela própria. Como foi capaz de dizer todas aquelas coisas? De ser tão cruel? Agora ela sabia que boa parte das feridas que amarguravam o marido -- feridas essas que jurou ajudar a curar -- foram nada mais, nada menos, do que provocadas por ela própria.
"Obliviate". O feitiço sussurrado veio como um alívio. Elena viu a si mesma desfalecer nos braços do loiro, sendo carregada até a enfermaria. Seus olhos ardiam e seu coração estava apertado, o interior quebrado expulsando lágrimas sem o mínimo pudor. Não queria ver mais nada, sequer continuar naquele passado que trazia a tona uma parte tão obscura de si mesma. Kellan se sentiu uma fera por praticamente toda a vida. Contudo, ao emergir, Elena tinha apenas uma única certeza. Ela era o monstro.
“…And she was the happiest for the second time in her life. Kim would finally have a friend, another little piece of the Sun”.

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When I Was Your Man || Kellena
Kellan parou para pensar, segurando o queixo como se estivesse cuidando de um dos muitos casos que passavam pelo seu escritório. "Acha que Kim vai passar no limite de altura, mamãe? Ela é uma coisa microscópica." Provocou com um sorriso divertidos no rosto. Ele queria pegá-la pela cintura e colocá-la de cabeça para baixo como sempre fazia, mas alguma coisa lhe dizia que não daria muito certo. Não com o estômago da filha cheio de sanduíches e outros lanchinhos da tarde. "É claro que você pode ir, Kim, mas vai ter que se comportar e dar um beijo em cada um dos seus pais. Não se esqueça de agradecer." A menina loira soltou uma risada aguda e contagiante, beijando os pais no rosto e os abraçando com toda a delicadeza de uma flor. "A mamãe vai pagar o lanche, né?" Levou um sanduíche a boca e pegou uma bela mordida enquanto piscava um dos olhos em direção à esposa.
Já nas primeiras palavras, Piotrovitch contraiu todo o corpo. Me traz lembranças felizes… Não podia ser coisa boa. Essa frase era sempre usada antes de notícias ruins ou doenças súbitas de grande gravidade. Kellan conhecia o protocolo, ele vira os amigos lidando com isso no escritório. O homem se forçou a recordar as palavras anteriores, novidade. Novidade não queria dizer uma coisa ruim, certo? Não quando o rosto adorável de sua esposa estava tão emocionado de felicidade. "Droga, eu sempre quis comprar um barco, mas fico feliz com esse terreno no meio do nada." Os ombros relaxaram e a respiração tornou-se mais fácil. Aquele era um belo lugar e naquela época do ano, parecia trazer o melhor de si desde que eles o descobriram. À medida que o discurso transcorria mais e mais as suspeitas de Kellan caiam por terra. Afinal, alguém que passara anos e mais anos sofrendo abusos não esperava uma notícia boa sempre que chegavam com novidades. Mesmo que elas viessem da única mulher cujo amor era algo inquestionável e a felicidade ao seu lado era inegável. Deitou a cabeça sobre a de Elena fazendo escorregar o braço para que ficasse por trás dela, meio protetor meio um apoio para ela relaxar adequadamente. Manteve-se em silêncio. Uma resposta irônica ou sarcástica ia quebrar o climax que chegava. O que era? Que notícia tão importante era aquela que ela não podia contar logo? Kellan franziu o cenho quando a filha entrou no pequeno teatro lançando um olhar curioso para Elena do tipo "envolvendo até a filha? que feio".
Bom, Kellan não esperava por isso. Pegou a chupeta com uma exclamação no rosto e ficou ainda mais atônito quando pousou a mão no ventre de Elena. "Outro… filho…?" Falou pausadamente. Suas narinas dilataram-se, o ar entrando e saindo rápido demais dos seus pulmões. Um observador externo teria visto a raiva estampada em seu rosto. Outra criança? COMO ASSIM OUTRA CRIANÇA? A visão ficou negra de repente e as imagens desbotadas de sua infância assumiram o controle. O mais novo dos irmãos, o último a chegar a família que já tinha um casal de gêmeos. A sombra, o descaso. A crueldade do campo, do pai e da família que não faziam nada além de piorar. Tapas. Gritos. Castigos. Cada lembrança pareciam um chicote o açoitando, abrindo novas feridas nas carnes recém curados. Não podia ter outro filho, não podia. Essa criança… não. A fúria em seu rosto não durou um segundo, talvez menos do que isso. Bom, esperava que fosse o mínimo suficiente para que Kim não a tivesse notado. "Outro filho." Os olhos do homem ficaram quentes, úmidos, molhados demais. Mordeu o lábio inferior tentando se conter, conter aquele novo sentimento. Qual era o problema Kellan? Você não vai repetir os erros do seu pai. E é a Kim. Kellan a puxou para o colo e a abraçou com carinho. Ela era uma boa menina e puxara o lado mais doce da família. Ela era Elena em miniatura, sua Elena calma e tranquila. A verdadeira rocha da família. "Eu vou ser pai de novo." O tom de sua voz, o desejo de captar e ver a mesma felicidade refletida nos olhos azuis de sua esposa, transbordavam uma felicidade que ele não acreditava existir. Era mais, muito mais, e crescia como erva daninha enquanto aceitava o que o faria o homem mais feliz do mundo.
"Elena. Eu sou feliz." Os votos do casamento tinham sido lindos e de trazer lágrimas a quem assistisse o video, mas a felicidade de qual ele estava falando agora era sincera. Genuína. Não que não tivesse sido no dia do casamento, mas agora ele tinha a total certeza de que o que sentira era real. E não um truque sádico de sua alma remendada."A primeira vez foi quando eu te conheci." Umedeceu os lábios. "A segunda vez foi quando nos beijamos." Envolveu-a pela cintura e a trouxe para perto, bem perto. "A terceira foi quando eu te pedi em casamente. O seu sim foi minha quarta alegria.” Beijou o ombro desnudo de Elena, rápido para que pudesse continuar olhando seus olhos. "A quinta se chama Kim." Kellan desceu o rosto no topo da cabeça loira da filha e bagunçou os cabelos da pequena com o nariz, fazendo-a rir e chamá-lo de bobo. ”A sexta…” Fez a mão que a envolvia subir e pousar em cima do abdômen macio de Elena. "Quantas vezes mais você vai me deixar feliz, Elena? Quantas? Minha dívida está ficando grande demais para poder ser paga." Balançou a cabeça fitando-a com ternura e amor incondicional. "Espero que o meu amor seja suficiente, porque de resto, você me tem todo." Kellan inclinou-se para Elena e a segurou pelo rosto, beijando-a nos lábios como se fosse a primeira vez. "Eu te amo, Elena, e amo o que você tem feito por mim, comigo e o que tem me deixado fazer por você." Encheu seu rosto de beijos. Nariz, olhos, bochechas e boca, sempre voltando àquela boca. Kellan levantou a chupeta, admirou-a e pôs na boca. "Então, para quando que é o nosso batedor?"
Ao sentir os lábios de Kim em sua bochecha, Elena sorriu fraca, mas alegremente. Era uma sensação agradável a de ter a filha nos braços, mesmo em um abraço tão curto. Era quente, acolhedor. Ela adorava. Kimberly era como um pedacinho de raio de sol na vida deles, a começar pelos cabelos dourados, tão semelhantes aos do pai. Era engraçado como uma criança tão pequena podia demonstrar tantos traços herdados, principalmente os físicos. Ao sorrir, Elena poderia jurar ver um sorriso idêntico ao do marido estampado ali. E isso a deixava incrivelmente mais feliz.
Contraiu os olhos, a boca levemente aberta em uma incredulidade divertida. "Eu vou pagar, é?" Sorriu. "Então acho que isso significa que vou poder escolher onde vamos comer também?" Perguntou retoricamente, pensando nas possibilidades. Talvez eles pudessem dar uma volta pela Londres bruxa, mostrar a Kim todo aquele universo novo e encantador. Mas isso ficaria para uma outra hora.
Porque agora Elena havia contado... Ou melhor, Kimberly havia. Durante segundos de pura agonia, enquanto o rosto de Kellan passava da completa confusão para a clareza, Elena indagou qual seria a reação do marido. Lembrava-se quase perfeitamente da primeira vez que aquele sentimento a invadiu. Insegurança. Não por ela, mas pela vidinha que carregava. "E se...?'s" que não duraram mais de alguns segundos. Não até ver o sorriso emocionado do homem. Porém, dessa vez havia sido diferente. Olhando atentamente para o marido, Elena viu uma pontada de raiva, de indignação. Uma expressão que desanuviou repentinamente, dando espaço à emoção que tanto ansiava por ver. Ela não sabia muito bem o que havia acontecido, mas se lhe fosse dada a chance de opinar, diria com certeza que o loiro acabara de travar uma batalha interna. Aquilo a preocupou, levando uma pequena interrogação à sua expressão. Elena sabia que muitas partes do passado do homem ainda eram feridas profundas, cicatrizando a um ritmo tão lento que talvez nunca chegassem a fechar completamente. Contudo, ela tentaria o possível e o impossível para vê-lo livre dos seus demônios, da mesma maneira que ele fazia com ela. Não importava quanto tempo levasse.
Kellan, você é um dragão. Confessou uma vez, quando estavam a sós no quarto, ambos deitados sobre a cama e de frente um para o outro. Elena mexia no cabelo dele, descendo a mão aos poucos para o rosto, passando o polegar levemente pelas marcas e curvas. Era sua maneira de entendê-lo, uma analogia aos animais que conhecia tão bem graças ao trabalho. Algo que começou como uma simples aptidão para a matéria tornou-se uma de suas paixões, e não tardou até que a garota decidisse que 'Trato das Criaturas Mágicas' seria sua profissão. Eles podem parecer agressivos, perigosos... Instáveis. As palavras vinham à sua mente e ela apenas as reproduzia, olhando fundo nos olhos do homem. Mas se souber como cuidar e como dar carinho... Um dragão é nada menos que uma criatura absurdamente fantástica.
"Sim, você vai ser pai de novo." Assentiu, sorrindo abertamente. Kellan parecia tão... feliz, que era simplesmente impossível não ser contagiada. Elena olhou em seus olhos, como fazia tantas e tantas vezes, mas agora eles estavam tão brilhantes e intensos... Tão cheios de amor. Ouviu a declaração em silêncio, revivendo em sua mente todos os momentos citados. O primeiro beijo nos corredores de Hogwarts... Kellan havia sido extremamente convencido e narcisista, mas tão sexy! E a queda por músculos, deuses. A simples lembrança fez suas bochechas arderem em vergonha. O casamento foi a próxima, um vestido branco e longo, lindo. A troca de alianças, os votos... Elena tinha aquele momento como o mais feliz de sua vida. Bom, até agora.
Segurou a mão sobre sua barriga, acariciando-a. "Quantas forem possíveis e necessárias. E vai ter que trabalhar muito duro pra retribuir essa sexta. Tenho experiência o suficiente pra saber que ela é bem... dolorida." Brincou, fazendo uma careta e rindo em seguida. Eles estavam tão próximos que Elena podia sentir a respiração do marido. "Eu te amo, Kellan Piotrovitch. Amo com todas as forças e tudo o que eu tenho. Você..." Olhou para Kim ao seu encalço, e depois para a mão que repousava em seu ventre. "...Vocês são a minha vida, e eu não fiz nada além do que você me faz todos os dias. Não trocaria isso por absolutamente nada no mundo." Tomada pelos lábios de Kellan, retribuiu na mesma intensidade. Um arrepio percorreu sua espinha. Droga de lugar público.
Kellan pôs a chupeta na boca e Kimberly desatou a rir, acompanhada por Elena. "Não tenho muita certeza... Mas o medico disse que o bebê tem mais ou menos dois meses." Disse, admirando o homem por alguns segundos antes de continuar. "Espera... batedor? Aposto que será uma batedora." Sorriu novamente, a esperança preenchendo sua voz.
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Kellan riu alto e sem restrições, segurando a esposa pela cintura e erguendo ambas as mulheres de sua vida num giro. "Me pergunto o que vou fazer nessas três semanas. Pescar, sair com o pessoal do trabalho. Visistar os amigos de infância e colégio." O homem mirava o horizonte fingindo se perder em pensamentos, planos essencialmente feitos para serem executados sozinhos. "Soube que abriu um parque de diversão perto de um colégio infantil lá. Um de uma tal de Kimberly. Acho que vou ter que ir sozinho." Suspirou pesadamente e balançou a cabeça decepcionado. O que vou fazer com esses ingressos e essa vontade de ir na xícaras que giram?” Kellan sabia que tinha pegado baixo com a menção da atração mais desejada de Kim, mas nem ligava, queria ver a filha se defendendo. "Mamãe, sabe alguém que queira ir comigo?" Se dirigiu a Elena pedindo com os olhos que participasse da brincadeira. "Alguma amiguinha da Kim, talvez?"
Desde que Kim nascera, um sentimento estranha crescera no peito de Kellan. Um sentimento novo e desconhecido que o deixava mais assustado que incomodado. E ele crescia conforme o ventre da esposa expandia e comportava o novo serzinho que se desenvolvia. Talvez, bem no início de sua vida, quando era apenas um bebê de peito,o garoto desenvolvera algo como amor ao pai e a mãe. Amor à família melhor dizendo, mas com o tratamento e o curso que foi imposto esse sentimento foi destruído e enterrado fundo. "Um pudim. Pu-dim. Pudim. E serve para comer, mas só depois dos sanduíches." Kellan tirou o prato do alcance da mais nova, deixando-o mais perto de sua perna onde poderia protegê-lo das mãozinhas incansáveis. Agora, aquela menina linda, loira como ele e aquelas pedras azuis nos olhos, trouxeram a parte morta a tanto escondida. Enquanto vivesse, respirasse e tivesse forças para se erguer todos os dias, Piotrovitch seria para ela o pai que nunca teve, o amigo paterno que nunca lhe fora concedido.
"Meu dever é agradá-la." Levantou-se rapidamente e se aproximou das garotas, passando um braço por trás de Elena e comendo um sanduíche com a mão livre. Kim mais brincava que, de fato, comia o que tinha em frente, mas não tinha problemas. Kellan fez o suficiente para uma família com o dobro de integrantes daquela que tinha agora. Interrompeu-se, baixando o pão e aproximando seu rosto do dela, beijando-lhe as faces e por último a boca cujo o gosto era uma mistura de algo delicioso e ela. "Novidades?" Ergueu uma sobrancelha surpreso, os rostos próximos. "Ganhamos na loteria bruxa?" Brincou e esperou o que ela tinha a dizer.
Elena riu contidamente com a situação, virando o rosto para que a filha não percebesse. "Não sei... O que acha da Clary, Kim? Soube que ela adora parques de diversão, não é verdade?" brincou, vendo a filha fazer que não com a cabeça e se autoconvidar excitada. "Oh, você quer ir? Sério? O que você acha disso, Kellan?" Falou em falsa surpresa, entrando na brincadeira.
"Não, não ganhamos na loteria." gargalhou, acariciando seu braço. "Sabe..." começou "Eu adoro esse lugar... Me trás várias lembranças felizes." Sorriu e olhou para ele, sustentando o ato por alguns segundos, admirando as pequenas orbes que refletiam seus próprios olhos. Elena inspirou profundamente antes de deitar a cabeça em seu ombro, trazendo a pequena loira ao seu lado mais para perto e a abraçando de maneira amorosa. Fechou os olhos. Há dias, quando, após uma série de enjoos e contrações, decidiu finalmente visitar um médico, descobriu que um novo serzinho habitava seu ventre. A notícia não poderia ser mais empolgante. Um segundo filho? Ela mal podia esperar para gritar isso em alto e bom som. Porém, Elena sabia que a notícia era especial de mais e que precisava, em primeiro lugar, ser compartilhada com eles; as razões da sua vida. Abriu os olhos, apreciando o parque, e continuou. "Eu passei um tempão pensando em como te contar isso, sabia? Queria que fosse romântico, mágico... Com vários confetes estourando para todos os lados e uma música alegre de fundo." Gesticulou, imitando os confetes, rindo um pouco. "Mas no fim decidi que assim seria melhor... Mais íntimo. E que lugar seria mais romântico do que onde você me pediu em casamento? Depois de Hogwarts, esse é meu lugar favorito." Um sorriso largo preencheu seus lábios, enquanto lembranças da data faziam o mesmo em sua mente.
Afastou-se um pouco e arrumou-se sentada, de frente para o marido. Inspirou e expirou nervosamente. Era agora. "Kim, você trouxe?" Ergueu as sobrancelhas em expectativa, ao mesmo tempo em que sorria para a filha, encorajando-a a fazer o que haviam combinado. A menina então, com um aceno animado de cabeça, pôs-se de pé e caminhou até o pai, retirando algo do bolso da calça, uma chupeta, e entregando-o. "Eu não... não preciso mais, papai. É do neném agora. Eu já sou beeem grande." As mãozinhas seguraram o maior e o puxaram até a morena, apontando para sua barriga e arrancando um sorriso emocionado da mais velha.
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Kellan fechou a cara subitamente, franzindo o cenho e os lábios em conjunto. "Você gosta mais dela? Pode ficar." Assim que o falou seu rosto desanuviou, dando lugar a um sorriso contido, mas obscenamente feliz. O fato de ter escondido o segredo por tanto tempo pesara na temperamento do homem, que se irritava quando Elena chegava perto demais de descobrir a verdade. Ou a parte dela que Kellan mantinha guardada a sete chaves. A mudança do rosto, como ele conseguia persuadi-la, era sempre interpretada como brincadeira, como um ato do tão possessivo Piotrovitch. Ao menos um de seus defeitos vinha bem a calhar. "Quando não está comigo." A sua vontade era criar uma chave de portal, mandar Kim para a vó de Elena (que permanecia firme e forte depois dos anos) e tomá-la ali, no meio da grama alta e do cheiro agradável de campo.
Dobrou o joelho esquerdo e inclinou-se para frente, facilitando o acesso da esposa e diminuindo a necessidade dela de se esforça demais em tirar a menina dos ombros. "Eu esperava estar no meio da refeição para dizer isso, mas você não me deixa outra escolha." Kellan suspirou, fingindo decepção, e voltou a envolvê-la com o braço. Dessa vez envolvendo-a pela cintura e trazendo-a para mais perto de si, o lugar a onde ela pertencia. Gentilmente, pousou o rosto nos cabelos da esposa, pressionando os lábios no couro cabeludo. "Eu estou de férias. Três semanas inteiras.” O departamento estava num clima estranho de comemorações e, por sorte ou pelo esforço de Kellan, o homem fora concedido um regalo que nem os mais velhos funcionários tinham. Ele não apontou esse detalhe para o chefe, nem levantou muito o rosto enquanto ia até o escritório pegar suas coisas, evitando assim os olhares de seus companheiros.
Chegando à toalha, Kellan pôs a cesta no meio e sentou-se, ou melhor, jogou-se sobre o tecido fazendo-se confortável, e estendeu as mãos para a esposa, oferecendo auxílio para que ela pudesse fazer o mesmo. "Escolheu um ótimo lugar, miss Piotrovitch." Falar o seu sobrenome, colocar os dois nomes juntos, era uma sensação indescritível. Quase transcendental. Parecia clichê e despropositado, mas para alguém que passara a vida inteira tendo os mínimos prazeres negados, uma mulher para chamar de sua era, no mínimo, a melhor coisa do mundo. "E como foi o seu dia?" Perguntou interessado, colocando os itens para fora da cesta e diminuindo a velocidade quando as comidas favoritas de Elena eram retiradas.
O sorriso no rosto ampliou-se cerca de dez vezes mais ao ouvir a notícia. "Três semanas? Isso é maravilhoso!" Elena esticou-se para um abraço rápido, animada, tentando segurar Kim no braço direito enquanto o esquerdo cercava o tronco do marido. Os braços da pequena Kim envolveram os pais, feliz em vê-los felizes, sem sequer saber o motivo.
Elena sentou-se sobre a toalha e passou a acariciar os cabelos curtos e loiros da filha sentada à sua frente. Havia algo bastante possessivo em ser chamada de Miss. Piotrovitch, mas Elena adorou na verdade. Ela era dele. De corpo e alma. "Muito obrigada, Mr. Piotrovitch. Hm... Uma tortura sem a minha filhota." As mãos passaram do cabelo para as bochechas da mais nova, apetando-as sem muita força. "Não quero nem imaginar como vai ser quando ela for para Hogwarts... Acho que só vai me sobrar você". O sorriso provocativo surgiu novamente, seguido de uma mordida no lábio inferior e um olhar que sugeria... coisas.
Uma memória bastante inconveniente, porém, lentamente preencheu a mente da morena. Lembrou-se de Hogwarts, de quando não passavam de imaturos adolescentes. Mas, principalmente, lembrou-se de quando quase teve todo o seu futuro arruinado. O que teria acontecido se o feitiço tivesse sido disparado? Ela não sabia dizer... Sequer queria pensar nisso. Não suportava a ideia de passar a vida sem os olhos, sem o sorriso que traziam alegria para cada momento difícil que passava. E Kim? Ela jamais existiria também, talvez apenas em sonhos... ou em uma bisbilhotada no espelho de Ojesed.
O ponto era: Elena teria perdido tudo o que mais ama hoje por causa de um julgamento prévio, um momento de raiva e amargura que sequer foram reais. August estava são e salvo em casa, beirando a maior idade. E Kellan... Elena aprendeu que não se pode julgar ninguém baseado em suas próprias experiências. O passado do marido ainda era, em partes, desconhecido. Mas ela não se importava mais... Elena o amava, e saber que tudo era recíproco fez um filete de lágrima que ela sequer percebeu escorrer por seu rosto.
O pudim melecado de calda e o sapo de chocolate, assim que retirados da cesta, chamaram a atenção da garota. "O que é isso mama?" Kimberly perguntou curiosa. "Kellan!" Um sorriso bobo chegou à expressão reflexiva de outrora. Elena engatinhou e depositou um beijo nos lábios do outro, depois voltou ao seu lugar. "Obrigada, amor".
Uma inspiração forte, acompanhada de um sorriso travesso, indicavam o que viria a seguir. "Mas não é só você que tem novidades, Mr. Piotrovitch... Preciso contar uma coisa."
Don't kill yourself, please.
If you’re suffering from depression and are looking for a sign to not go through with ending your life, this is it. This is the sign. We care.
If you see this on your dash, reblog it. You could save a life.
When I Was Your Man || Kellena
Kellan diminuiu a velocidade dos passos, apreciando aquela linda mulher seguir até seus braços. Ele sorriu, satisfeito e ao mesmo tempo incrédulo de que, enfim, encontrara uma maneira de passar por todos os problemas e se juntar à ela. Colocou a grande cesta no chão e se preparou para sentir aquilo que sempre aconteceria quando ela se aproximava. A alegria, a felicidade, o alívio de que ela não correria para longe se falasse uma palavra mais descuidada. Envolveu sua cintura com o braço lançando a cabeça para trás e tirando Kim do alcance da mãe. "A mamãe é minha, garotinha." Brincou, levando a mão livre (e que não segurava o joelho gorducho da filha) para a nuca da esposa e puxando-a para um beijo mais digno de Kellan Piotrovitch.
"Mama não. Minha!" As palavras das mais nova embolava com a irritação, o rostinho franzindo e os pequenos punhos bagunçando os cabelos do home. "Boa tarde, моя любовь. Sentiu minha falta?" Afastou um pouco o rosto, acariciando de leve a bochecha macia, e se contentando em olhar os olhos azuis que nunca se cansaria. Com cuidado para não derrubar a menina, Kellan voltou a pegar a cesta e se direcionou para a grande toalha vermelha e branca estendida no meio do gramado. "Desculpa a demora, o trânsito trouxa estava terrível. E tanta gente.” Resmungou como um adolescente mimado. Como Kim era muito pequena para entender, e manter o segredo, certas coisas na rotina da família eram exclusivamente trouxas como… dirigir. "Mas trouxe tudo o que você pediu. E mais umas coisinhas" Sorriu triunfantes.
A sensação de ter-se sob os braços de Kellan era para Elena algo impressionantemente excitante. A pele arrepiando e esquentando a cada mínimo toque, o beijo... Foi preciso a voz irritada da filha para trazê-la de volta ao mundo real. Com um aceno desleixado de cabeça (ainda estava se recuperando da onda de êxtase que a atingia sempre que via-se nessas condições) a morena desvencilhou-se dos lábios do marido e olhou para a filha. “Eu sou dos dois, ok?” falou em um tom sereno, sorrindo com a facilidade que a criança mudava de uma cara emburrada para seu sorriso mais brilhante.
Dos dois... As palavras, depois de ditas, passaram a acender na mente da garota, levando-a a instintivamente fitar a própria barriga. Sorriu sozinha ao lembrar que, há algumas semanas, havia se queixado de umas gordurinhas a mais. Gordurinhas essas que Kellan – de um modo bastante persuasivo -- fez questão de garanti-la que eram apenas coisa de sua cabeça. Mal esperava para ver a reação do rapaz quando finalmente contasse a novidade.
“E quando não sinto?” mordeu o lábio inferior, rindo com o tamanho do clichê que havia dito. Mas o que poderia fazer? Era a mais pura verdade. Encarou os olhos verdes que tanto amava, deixando-se ser acariciada. “Está tudo bem. Peça desculpas para a grama mutilada.” Brincou. “Eu entendo... Por falar nisso, quando pretende tirar férias?” Um raio de esperança passou por seus olhos. Por mais que confiasse na força marido, mal podia suportar o fato de que se submetesse ao perigo todos os dias. Sem falar que, com todo o estresse da vida adulta, às vezes quase não sobrava tempo para os dois. Ergueu as mãos para o ar, a fim de segurar a pequena Kim e carrega-la até o lençol, ajudar com o peso. “Mais umas coisinhas?” Uma sobrancelha foi erguida. “Que coisinhas?” sorriu maliciosamente, sua mente insistindo em ignorar o fato de que estavam em um parque público.

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A sensação de desconforto, do gancho no umbigo, sumiu antes mesmo de seus pés encostarem no chão. A brisa cálida de verão em conjunto da temperatura morna do fim de tarde aliviaram o peso nas costas de Kellan que ele não percebera que tinha. Foi como se seus ombros, sua postura altiva e forte de russo, voltassem daquele lugar adormecido que fora imposto pelos dias de trabalho. Não que a profissão fosse um grande peso ou um enorme sacrifício para o homem, mas as horas gastas tentando convencer os bruxos de que não era bem assim que as leis se aplicavam eram horas longe das únicas razões de sua vida. Ele sacudiu a cabeça levemente, colocando sua visão para esquadrinhar a colina relvada e verde coalhada de pequenas flores amarelas, as preferidas de Kim. Até onde sua visão alcançava ninguém os atrapalharia por um bom tempo.
O peso da grande cesta em sua mão só não foi maior que o pequeno corpo agarrando a parte de trás de sua perna. As pequenas mãozinhas fechando no tecido grosso da calça jeans e a urgência dos dedos redondos em escalar o grande monte que era o pai. Kellan estendeu o braço para trás e pegou a filha como se não pesasse nada (e não pesava mesmo), fazendo uma manobra e colocando-a sobre os ombros. A risada o fez sorrir ao olhar para a esposa que se aproximava, lentamente, olhando a paisagem enquanto o mesmo sorriso refletia em seus lábios. "A mamãe está tão bonita, não é Kim?" Falou em confidência, mesmo que sua voz grossa pudesse ser ouvida pela mulher ao longe.
Elena abriu sua bolsa e dela retirou um lençol, forrando a grama em seguida. Era um daqueles quadriculados em branco e vermelho, característicos de filmes. Algo que ela sempre tivera a vontade de reproduzir. Sentou-se e, em um gesto que claramente transpassava sua ansiedade, passou a, vez ou outra, arrumar as pontas do lençol, ou até mesmo a arrancar alguns pedacinhos de grama do chão.
Sua ansiedade se resumia a algo extremamente importante. Há cinco anos, quando casou-se com Kellan, Elena sentia-se completa, como se nada mais importasse além do que ambos estavam vivendo naquele momento, do amor que sentiam um pelo outro. Porém, não demorou muito para que as coisas mudassem um pouco, pra melhor. Um ano depois descobriram que teriam uma filha, a pequena Kimberly, que os transformou de maneiras inimagináveis. E a morena tinha razões o suficiente para acreditar que isso estava acontecendo novamente.
Como combinado, Kellan pegaria a pequena na escola e a traria até o parque, mas estavam demorando tanto... Seus brilhantes olhos azuis exploraram atentamente o local em busca de algum sinal dos dois, e um sorriso enorme preencheu seu rosto ao notar as pessoas que se aproximavam. Sem conseguir se conter, levantou-se e foi ao encontro deles, sentindo as pontas dos lábios indiscretamente levantarem ao ouvir o comentário. “A mamãe está lisonjeada.” aproximou-se de ambos, rindo, e selou os lábios aos do marido, antes de postar-se nas pontas dos pés e beijar a testa da filha.
ainda ooc:
Ah, e desculpem a pequena surtada. Eu ri muito kkkkkkkkkkkk
Marida e Husbride, guardarei as duas sempre no meu coração. *-*