Por que Oppenheimer precisava vencer o Oscar?
Oppenheimer, dirigido por Christopher Nolan, levou o Oscar 2024 de melhor filme. Por que isso representa muito para a indústria do cinema e, principalmente, para o próprio prestígio do Oscar? Você deve estar careca de saber que o Oscar é o ponto alto da chamada “temporada de premiações” nos Estados Unidos. Trata-se daquele de maior prestígio e tradição. Contudo, nas últimas duas décadas, o que se observa é que filmes pequenos, de pouca bilheteria, porém com grande prestígio com a opinião da crítica, eram favorecidos nas indicações. Os chamados blockbusters, ou filmes industriais de grande popularidade, passaram a ser lembrados apenas nas chamadas categorias técnicas, especialmente na de efeitos especiais. O último Blockbuster a ganhar o principal prêmio do Oscar foi O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, em 2003, produção que arrecadou pouco mais de um bilhão de dólares.
Não digo aqui que uma produção simples não mereça o reconhecimento, mas o século 21 mostrou que a tendência das premiações em prestigiar sobretudo a “arte” teve um preço: o interesse do público. Isso não é pouca coisa, pois um filme norte-americano não se paga com patrocinadores ou com incentivo governamental, como acontece no Brasil. Lá, a renda do filme vem da bilheteria. Portanto, sim, estar em sintonia com a audiência é fundamental. Ao escolher premiar filmes indies prestigiados por críticos, porém nem tanto pelas pessoas, a Academia de Cinema norte-americana optou por se desconectar de quem a sustenta. Tanto que “filme de Oscar” se transformou em uma espécie de definição para filme chato.
Essa foi uma tendência que ficou acentuada a partir de 2005: menos filmes grandes indicados e uma predominância de pequenas produções que não necessariamente foram lucrativas. Em 2005 foram indicados para Oscar de melhor filme flops como Munique, de Steven Spielberg, produções de menos de 10 milhões de dólares, como Capote e Boa Noite e Boa Sorte, e os pequenos, porém bem sucedidos Crash e Brokeback Mountain. Filmes populares do mesmo ano foram preteridos e que poderiam muito bem ter sido indicados, como V de Vingança, Batman Begins, e Sin City. 2005, aliás, foi um ano de queda de audiência em relação ao anterior. E se falarmos de 2004, vamos observar um pico de audiência nas premiações. Não à toa, foi ano em que 45 milhões de pessoas viram a consagração de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, segundo dados do site Statista. Isso representou um dos três picos de audiência do milênio.
Audiência e bilheteria têm alguma correlação quando se trata do Oscar. Entre 2000 e 2014 notamos que as cerimônias com menor audiência, na casa dos 30 milhões, foram justamente as edições em que filmes populares não foram indicados às principais categorias. Estavam na lista filmes pequenos como Onde Homens Fracos Não Têm Vez, Juno e Michael Clayton (???). Apesar de serem filmes considerados excelentes por alguma razão, o fato é que muitos deles não tiveram capacidade de gerar interesse no público.
A Academia bem que tentou corrigir tal tendência ao mudar o regulamento em 2010, quando foi implementado a lista de até 10 filmes indicados na categoria principal. Com toda certeza isso possibilitou a inclusão de blockbusters como Avatar, Up, Top Gun Maverick, Joker, Nasce uma Estrela, ou seja, filmes que são populares até hoje. Mesmo que em 2010 o vencedor tenha sido o independente flopado A Hora Mais Escura, pelo menos o público tinha para quem torcer, e isso refletiu em uma audiência de 41 milhões.
A partir de 2015, porém, as cerimônias do Oscar começaram a sofrer uma queda ano após ano, chegando ao fundo do poço em 2021 com uma ridícula audiência de 10 milhões. Séries de TV populares conseguem muito mais que isso. É que o público entendeu que indicar filmes como Pantera Negra, Nasce uma Estrela e Perdido em Marte era só uma armadilha, porque no fim da noite, quem seria consagrado seria produções como Green Book, Moonlight e Nomadland. Ou seja, filmes que ganham o Oscar, mas reprovaram tristemente no teste do tempo e não conseguiram entrar no inconsciente coletivo.
Outra razão para a queda acentuada do interesse do público pelo Oscar e pelas premiações em geral foi a questão da ideologização de Hollywood. Ao tentar promover de maneira agressiva certas agendas, o público interessado em entretenimento e escapismo simplesmente minguou. São as consequências para uma indústria que decidiu espantar os maiores patrocinadores, e ainda jogou a culpa pelos próprios fracassos nos mesmos que se recusaram a comparecer às salas, como se ver filmes fosse algum tipo de obrigação. As pessoas simplesmente se irritaram em não querer assistir a uma história que não as interessava e ainda ser chamadas de taxistas por causa disso. Ah, e tinha os discursos... como bem disse Ricky Gervais no Globo de ouro: ninguém está interessado em ouvir sermão vindo de pessoas altamente privilegiadas e que vivem em uma bolha! Chapéu de burro para essa indústria é pouco.
A desconexão entre indústria e público foi tão forte que isso se refletiu nas edições de 2020 e 2021: elas representaram o fundo do poço de audiência e bilheterias. A pandemia exerceu o seu papel, mas o problema foi que “filmes do Oscar” passaram a ser lançados também em plataformas de streaming, lugar que hoje bem se sabe que, além da concorrência brutal, o público prefere milhões de vezes assistir às séries antigas, doramas e comédias românticas. Quem você acha que vai atrair mais atenção nesse contexto? A comédia natalina da Vanessa Hudgens ou o “filme do Oscar”? Além disso, a principal premiação do cinema ainda teve a indignidade de menosprezar o único filme com bilheteria decente e que salvou a indústria nesse período: Homem-Aranha: Sem volta para casa.
A premiação de 2024 que consagrou Oppenheimer mostrou uma tentativa de mudar essa tendência. Os dois e únicos filmes de bilheteria expressiva de 2023, Barbie e Oppenheimer, foram lembrados e premiados, mesmo que Barbie tenha conquistado estatuetas menos importantes. O público, assim tinha por quem torcer e não foi frustrado com o resultado: afinal, ele viu pelo menos essas duas produções serem consagradas, por mais que as demais da lista fossem de “filmes do Oscar” que não atraíram audiência nem nas plataformas de streaming que as produziu. Oppenheimer teve uma bilheteria de pouco mais de 900 milhões de dólares. Mais do que ele, na mesma premiação, só Barbie. Aliás, Oppenheimer é o filme vencedor de Oscar com a segunda bilheteria mais alta deste século, à frente dele apenas de Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei.
Mas, afinal, Oppenheimer mereceu vencer? Sim! Por que Oppenheimer mereceu vencer? Porque ele é bom e popular. É bom e popular porque ele traz uma combinação de diretor prestigiado em circunstância da carreira que construiu, elenco competente e carismático, qualidade de roteiro e de produção, e que busca entreter. O público, no fim das contas, quer ver nas telas de cinema essa combinação de qualidades. O outro filme popular do Oscar 2024, Barbie, bateu bilhão de bilheteria por isso mesmo, e só não ganhou a categoria de melhor filme porque simplesmente não era o melhor: mas eu concordo plenamente com a indicação dele por todos os argumentos ditos aqui.
A vitória de Oppenheimer talvez seja o resultado do abrir de olhos (será?) da Academia. É o esforço dela para entrar em sincronia novamente com o público, e ainda premiar o excelente. Está passando da hora da indústria, e das premiações, entender que se virar as costas para quem paga para assistir vai mesmo perder a relevância.