Assim que a aula acabou, eu tive certeza de que George estava louquinho por Vicky, e talvez ela por ele. É claro que era extremamente cedo para dizer, mas eu sentia como se conhecesse aqueles dois há muito tempo. Era meio que um dom que eu sempre tive, de entender muito bem as pessoas que me cercavam - e ficar completamente perdida quando tratava-se de mim mesma. Em todo caso, já que eu havia convidado George para o pub, resolvi ir direto para o dormitório e me arrumar.
Há essa altura, eu estava preocupada com minha colega de quarto que ainda não aparecera lá, mas por outro lado estava um tanto quanto satisfeita em poder deixar toda a minha bagunça de roupas na cama debaixo enquanto ela não chegava e utilizava. Tomei um banho um tanto quanto rápido e revirei minhas coisas em busca do meu vestido preferido, um vermelho de poás. O vesti, arrumei meu cabelo desfiando-o com um pente e colocando uma tiara para separar o resto da minha franja e estava terminando a maquiagem quando Vicky apareceu. “Quer ir ao pub?”, convidei. Ela concordou e eu disse, com um sorriso travesso: “George vai ir...”. Ela corou toda, e eu dei uma gargalhada. “Esses dois... Ainda vai dar rolo”, pensei comigo mesma.
Chegando no pub, logo localizei Rafa e John conversando na mesa que havíamos ficado naquele outro dia. Fui direto sentar com eles, e ao fazê-lo, notei que tinha um outro garoto lá. Ele era moreno, usava uma franja puxada para o lado como a de John e de George e uma camisa branca dobrada até a altura de seus cotovelos, e, devo dizer, era perfeitamente lindo. O garoto levantou-se para me cumprimentar, então fez uma reverência, pegou em minha mão e a beijou, dizendo: “Olá, eu sou Paul. Paul McCartney”. Eu, para fazer jus à apresentação digna de cinema, corei, dei uma risadinha e falei: “Olá, cavaleiro. Eu sou Duda”.
Nós sentamos um de frente para o outro, e John olhou para Paul com uma cara de safado e rindo. Eu não pude deixar de encarar Paul durante toda a conversa. Ele tinha um rosto que parecia ter sido completamente calculado - sua boca tinha um desenho perfeito, hipnotizante. Pela cara que Rafa fez para mim, lá pelas tantas, eu não parava de encarar descaradamente a boca dele. Eu corei e tentei parar, mas por Deus, era difícil. Enfim, eu acabei por descobrir que Paul, John e George estavam na mesma banda, com um cara chamado Richard - mas que gostava de ser chamado de Ringo - e também tive certeza do que Vicky sentia por George e vice versa. Isso foi quando uma outra namorada do tal namorado dela apareceu e eles terminaram, e Vicky saiu do bar, seguida de perto por George. Não tenho certeza do que aconteceu lá fora, mas poderia facilmente chutar que alguém foi muito bem consolada.
Enquanto isso, no pub, John e Rafa, Paul e eu estávamos conversando sobre um assunto totalmente aleatório. John e Rafa eram primos de terceiro grau ou coisa assim então o que eu vou falar talvez soe meio estranho, mas eu pude jurar que John estava olhando para Rafa de uma maneira diferente. Mesmo assim, ele não parava de piscar e paquerar outras garotas à sua volta. Rafa estava claramente incomodada com isso, então eu tive uma ideia que fariam todos felizes. Dei uma olhada significativa para Paul, indiquei o balcão do bar com a cabeça e falei: “Bom, vou pegar a próxima rodada”. Levantei rapidamente, e ouvi Paul falando do fundo que viria me ajudar. Dei um sorriso bobo para mim mesma e assim que cheguei no balcão e sentei no banco mais escondido do olhar de John que eu encontrei, senti uma mão macia mas firme tocar meu ombro. Paul sentou-se no banco ao meu lado, pediu dois pints e ficou me encarando por um breve momento. Pensei no que dizer para quebrar aquele silêncio constrangedor, e no momento que abri a boca e comecei a falar, ele também o fez. Nós dois rimos e ele disse: “você primeiro”. Eu neguei, e ele então falou “Ah, eu ia dizer que está uma bela noite lá fora para ficarmos presos aqui dentro desse bar fechado e cheio de gente.”. “E está completamente certo”, falei, sorrindo.
Assim, levantamos os dois e ele pegou em minha mão e me conduziu para fora, apanhando seu casaco quando saímos. Ele o colocou - um blazer que só o deixou mais atraente ainda. Sorri para ele e quando olhei para o lado vi George e Vicky sentados em um banco abraçados. Soltei uma risada silenciosa, apontando para eles, e puxei Paul para longe dali. Corremos alguns quarteirões sem nem saber por que, até chegarmos em uma outra praça que havia ali. Sentamos em um banco qualquer para respirar e do nada caímos na risada. “Isso foi a coisa mais estúpida que já fiz”, ele disse, rindo. “E você entrou em uma banda com John Lennon”, eu respondi. “Ei, não fui só eu!”.
Outro silêncio constrangedor se seguiu, até que ele me olhou e falou: “Sabe, eu notei você me encarando lá no pub.”. Eu corei até a raiz dos cabelos, e ele notou, porque deu um sorriso malicioso. Virou-se para mim e colocou sua mão esquerda no meu cabelo, colocando uma mecha atrás de minha orelha. “Não, não... Isso é bom. Não precisei disfarçar que estava te admirando também”, ele falou, se aproximando de mim. Novamente, passei a encarar sua boca. Agora, ele estava tão perto que podia ver Deus me ajude, como ele era lindo. “E você gostou do que viu?”, perguntei, sem conseguir desviar o olhar de seus lábios. Ele não respondeu, apenas segurou meu rosto em suas mãos e me
Foi um beijo carinhoso, romântico - sem toda aquela agressividade que que ocorria normalmente. Sua mão acariciava meus cabelos com muita calma, e eu podia senti-lo sorrir. Eu também sorri. Infelizmente, o fôlego nos fez separar. Eu olhei para ele por alguns segundos, e então escorei minha cabeça em seu ombro, passando a mão pelos braços ao notar que estava arrepiada. “Está com frio?”, ele perguntou. “Um pouco, sim”, eu disse, me aproveitando da situação. Ele tirou seu blazer e o colocou envolta de meus ombros. Um cheiro surpreendentemente delicioso que era uma mistura de cigarro e perfume me envolveu. Eu sorri olhando para as estrelas. Nada poderia estragar aquele momento, até que...
“PAUL! EU NÃO ACREDITO!”, uma moça gritou. Eu lembro de ter visto seu rosto, mas ele certamente a reconheceu porque levantou correndo e me puxou pela mão até chegarmos novamente à rua do pub. Quando paramos, eu olhei para ele com lágrimas nos olhos. “Eu não acredito. Eu sinceramente não acredito.”, eu falei, soltando sua mão, que por algum motivo eu ainda segurava, e me virando para entrar no pub. “Duda, espera!”, ele falou, me segurando pelo braço. “Nem sequer pense em falar que pode explicar. Vai se foder, pelo amor de Deus.”
Me soltei dele, entrei no pub muito rapidamente, peguei o que era meu ali, avisei que ia embora e saí correndo para a faculdade, tentando não deixar as lágrimas caírem. Entrei no meu dormitório, subi para a minha cama e só então notei que ainda estava vestindo o casaco dele. “Por que eu só gosto dos idiotas?”, perguntei em voz alta para mim mesma. Sem ter coragem para tirar o maldito blazer, senti o cheirinho que emanava dele, a imagem de Paul colada em minha retina como o Sol em um dia de verão. Finalmente, me rendi às lágrimas que tanto insistiam em cair. Peguei no sono ainda chorando.