Os segundos entre o fim de suas palavras e sua caminhada irritada foram longos e intensos o suficiente para que o arrependimento inevitĂĄvel atingisse o peito. O que acha que estĂĄ fazendo?, pensou, enquanto tentava lembrar dos bons momentos do ex-casal. Na infĂąncia e adolescĂȘncia, ele sempre foi o dono de seu afeto inteiro e, mesmo quando estava magoada pelo tĂ©rmino, continuou lhe entregando toda sua dedicação e devoção. Eles nĂŁo eram assim, ela nĂŁo era assim. Pelo contrĂĄrio. Estava pronta para se desculpar, algo que nĂŁo fazia com outras pessoas, mas a resposta dele foi certeira. Se nĂŁo estivesse tĂŁo inebriada pela adrenalina, teria marejado os olhos pelo tom rĂspido e incomum do ex. Se ela nĂŁo falava assim com ele, entĂŁo Theodore jamais agia daquela forma. Ele era dĂłcil e gentil com qualquer pessoa, mas atĂ© mesmo a Charming precisaria admitir que recebia um tratamento Ășnico, completamente exclusivo. Escutar tanta aspereza causou efeito reverso em seu cĂ©rebro; no lugar de chorar, sentiu raiva excessiva. âUau.â Foi o que conseguiu dizer, soltando um risinho nasal. Em outra circunstĂąncia, qualquer que fosse, teria achado sexy pra caralho essa versĂŁo dele, mas, ali, sĂł queria gritar e bater a cabeça dele na parede. Pela primeira vez, nos vinte anos que o conhecia, nĂŁo soube o que dizer. âTe humilhar? Acha que eu iria querer fazer isso com vocĂȘ, seja lĂĄ em qual multiverso for? Se esse for o caso, vocĂȘ nĂŁo me conhece e nĂŁo temos nada a ver.â Foi o que conseguiu responder, ainda abalada com o que ele dissera. Merecia? Provavelmente, mas nĂŁo estava acostumada com tal tratamento. âSe sou assim tĂŁo ruim, a fucking bitch, nĂŁo sei o que estĂĄ fazendo aqui. Ou o que eu estou fazendo aqui.â A Ășltima sentença foi exposta com amargura, mordiscando o interior da bochecha com a mesma força que havia usado no lĂĄbio dele. Escutou seu desabafo acerca do assassinato dos pais em silĂȘncio, e sem atrapalhar, sentindo a raiva diminuir e a ternura tomar lugar do sentimento prior. Em momento nenhum, nem quando a frustração esteve em seu pico, julgou Theo por suas atitudes autodestrutivas ou pelo comportamento que tinha; longe disso. Procurava cuidar dele e acalentar seus tormentos o mĂĄximo que podia, mas chegou Ă conclusĂŁo que nĂŁo podia salvar alguĂ©m que se recusava a ter ajuda. Estava quase cedendo, quase pedindo por uma trĂ©gua, atĂ© sua fala seguinte, e, de novo, mais muralhas foram construĂdas entre os dois. âEu nunca pedi que fosse perfeito, nunca quis que fosse, verdammtÂč. Eu sĂł queria que nĂŁo se matasse numa briga, mas vejo que isso Ă© uma exigĂȘncia muito alta.â Ironizou, o sotaque alemĂŁo tornando-se mais forte a cada palavra proferida. Estava magoada, preocupada e furiosa, tudo ao mesmo tempo. âEu sĂł queria que falasse comigo, que me dissesse o que estava sentindo. Nunca pedi para parar de investigar, Theo. Eu sĂł nĂŁo queria que⊠vocĂȘ estava se arriscando e eu nunca sabia se vocĂȘ voltaria de moto ou num caixĂŁo.â Foi sincera ao expor os prĂłprios anseios, coçando o olho e comprometendo a maquiagem. âE eu nĂŁo entendo mesmo, vocĂȘ tem razĂŁo. Mas eu sĂł queria que me deixasse cuidar de vocĂȘ, sĂł isso. No momento que terminei tudo, te deixei livre para fazer o que quiser de sua vida, sĂł cuidando de longe. Pensei ter sido o melhor para os dois. Quando quiser desabafar com alguĂ©m que nĂŁo entende, mas te ama e estava segurando sua mĂŁo no enterro deles, continuarei aqui. Sempre estarei, sou sua melhor amiga, sĂł nĂŁo sei por quanto tempo vou ocupar esse cargo.â Foi sincera em suas palavras. NĂŁo importava o que acontecia entre eles ou o que ele fizesse, Nellie sempre estaria disponĂvel para ajudar ou tentar animĂĄ-lo. Sua lealdade cega fazia com que esquecesse de todas as decepçÔes e frustraçÔes do passado e focasse no que ele sentia; a recĂproca era verdadeira e sempre foi assim. Sempre seria assim. Era uma uniĂŁo, fruto de uma relação antiga, quando ainda se mantinham no platĂŽnico, nĂŁo saberia agir diferente com ele. Tampouco queria. Disposta a largar aquela discussĂŁo e ir para o dormitĂłrio, sorriu minimamente, porĂ©m sincera, antes de voltar a andar. NĂŁo queria se manter ali, brigando, e sabia que era o que aconteceria se continuasse perto dele. Algum outro dia, estaria mais que disposta a continuar, mas estava cansada da festa e a troca de farpas apenas contribuiu para um cansaço fĂsico e mental excruciante. Estava pronta para espernear e pedir para que a deixasse em paz ao sentir o toque no braço, mas as palavras alheias a deixaram, outra vez, inerte. A respiração tornou a pesar enquanto erguia o olhar para fitĂĄ-lo, as Ărises analisando cada detalhe das outras, e sequer percebeu quando deu um passo Ă frente. Ceder a ele nĂŁo era o racional a si fazer, mas nunca conseguiu ser forte com Theodore; era seu ponto fraco. âEu sei que nĂŁo, desculpe.â Desculpou-se, por fim, a voz menos arisca que anteriormente. âMe mostre, entĂŁo. Que sou tudo o que quer.â O tom de voz era diminuto, pondo-se na ponta dos pĂ©s para tentar nivelar os rostos. NĂŁo sabia como ele poderia demonstrar ou o que queria que fizesse, mas imaginava que ele encontraria um jeito. âVocĂȘ Ă© tudo que quero, e o melhor pra mim.â Fosse pela bizarrice da noite ou pelos anos que passaram namorando, sentiu-se confortĂĄvel com a honestidade. NĂŁo sabia quando a onda de raiva surgiria novamente, mas ela continuava ali, pela forma que os olhos brilhavam ao encarĂĄ-lo e o modo que as unhas ameaçavam arranhar a derme do braço alheio. âNinguĂ©m faz eu me sentir como vocĂȘ, ninguĂ©m.â Era uma mensagem indireta, referindo-se Ă insegurança dele com o homem supracitado. A mĂŁo deslizou do braço Ă nuca masculina, aproximando mais os rostos. Havia certa possessividade e fĂșria no modo que os dĂgitos agarraram os fios castanhos da regiĂŁo. âUma palavra e eu paro.â Sabia que ele nĂŁo mandaria parar, mas gostava de ter o controle em ouvir dele o que ele queria.
Tinha certeza que se arrependeria no dia seguinte. A veemĂȘncia da acidez utilizada em todo desdobramento de senteça direcionada a ex-namorada era em demasia, descomedida, impensada. NĂŁo acharia respaldo em justificativa nenhuma se quisesse buscĂĄ-la, e nĂŁo tinha intenção alguma de fazĂȘ-lo, embora sentisse, em todo seu ser, que deveria. Quem estava sendo, o que dizia e mostrava, raiva, mĂĄgoa, Ăłdio, nada disso pertencia a ele, genuinamente. NĂŁo era Theodore, nĂŁo poderia ser. A delicadeza de Belle impregnava todos os seus jeitos e modos, fĂȘ-lo ser alvo de comparaçÔes, das que mais fazia seu cerne vibrar, em puro orgulho e euforia, Ă sua mĂŁe. Como poderia ser tĂŁo intragĂĄvel, e, pior ainda, ser intragĂĄvel com Eleanor? Havia passado metade de sua existĂȘncia apaixonado por ela, todas suas juras de amor eram dela, desde a infĂąncia. Como poderia? A olhava e era incapaz de discernir e dizer, com precisĂŁo e para o prĂłprio, o que sentia ali. A cada instante, tudo mudava. O espectro de cores ia do vermelho cĂłlera Ă paixĂŁo em toda sua ardĂȘncia, tocavam o nuance frio do azul atrĂĄs de paz e retornava Ă s cores quentes, em questĂŁo de segundos. Outra vez, escutando-a, Theo respeitava o momento e compreendia, em facilidade, aliĂĄs, o que lhe era disposto por Nellie e cada momento de aflição enquanto ainda namoravam. NĂŁo havia sido nenhum santo, abrindo mĂŁo de momentos que sabia serem importantes para a namorada; desconectando-se, por futilidades, em verdade, de instantes com ela que, finalmente, acabou custando-o seu relacionamento. Custou a paciĂȘncia de Nellie com quĂŁo autodestrutivo era. Compreendia o receio alheio, verdadeiramente, porque, Ă s vezes, ele nĂŁo deixava de temer por sua vida, em especial quando instigava demais e se metia em assuntos que, bem, um garoto nĂŁo deveria se meter. Fez o avĂŽ e a irmĂŁ prometerem excluir Nellie de qualquer menção ao episĂłdio cuja violĂȘncia havia sido tamanha que fĂȘ-lo ser jurado no Castigo. Com as habilidades, dilacerando o rosto do agressor, conseguiu tempo suficiente para fugir e pedir por um socorro na Cidade Alta, na lateral do abdomĂȘn uma fenda de poucos centĂmetros aberta por uma lĂąmina afiada. A obsessĂŁo quase fĂȘ-lo perecer, por uma causa que nĂŁo era sua para investigar. Mesmo se desejasse confrontĂĄ-la, protestar o que absorvia, Theodore nĂŁo conseguiria. NĂŁo poderia. Queria abraçå-la, tĂȘ-la para si outra vez, e foi o que fez no instante em que constatou a aproximação ser recĂproca e o pedido de desculpas; os dĂgitos deslizaram atravĂ©s dos fios louros e ele posicionou a mĂŁo na ĂĄrea acima da nuca, as testas unidas pela proximidade. âTemos tudo a ver, Eleanor. Eu quero vocĂȘ comigo, preciso de vocĂȘ.â notificava a ternura acomodar-se por mais uma outra vez, e ele a permitiu, de muito bom grado. NĂŁo aguentava mais irritaçÔes, tanto quanto constatava na melhor amiga, estava exausto. Precisava de um alĂvio, e Eleanor era o seu. âQue mais quer que eu diga?â Ă quela altura, jĂĄ nĂŁo mais sabia se era a incidĂȘncia da esquisitice do baile falando ou apenas ele, em toda sua honestidade. âSinto sua falta, detesto ter sido tĂŁo relapso com nĂłs dois. Me desculpe. VocĂȘ nĂŁo merecia.â