Eu nĂŁo tenho cabelos vermelhos e o meu vestido nĂŁo Ă© amarelo. Eu sou sĂł uma menina invisĂvel, deitada na grama invisĂvel que a moça que nĂŁo sabia desenhar, nĂŁo desenhou. Aquele Ă© o menino que eu nĂŁo lhe falei. Ele sempre estĂĄ preso num Ășnico instante; o instante em que o moço que sabia desenhar, o desenhou. O balĂŁo que subia as nuvens, com vĂĄrias crianças chamando, teve de desviar o caminho, pois nĂŁo fazia parte desse desenho. O aviĂŁo que trazia uma faixa, com linda declaração de amor, teve de mudar a rota, pois neste cĂ©u azul Ă© que nĂŁo foi desenhado. O pombo-correio que veio voando de fora da imagem, bateu o bico na borda e caiu. Por isso, o menino estĂĄ sempre sĂł. Se as crianças do balĂŁo nĂŁo conseguiram. Se o aviĂŁo tambĂ©m nĂŁo conseguiu. Se nem o pombo-correio teve sucesso, como Ă© que eu, uma menina invisĂvel, feita de palavras, poderia chegar atĂ© ele? Foi o que passei dias e dias pensando. EntĂŁo, numa de minhas viagens, ouvi dizer que uma imagem valia mais do que mil palavras. NĂŁo tive dĂșvidas. Abri a oficina invisĂvel, acendi as luzes transparentes e comecei a construir este imenso abraço de palavras. De mil e duas palavras. Para, um dia, entregar a ele.
Rita Apoena. (via velhocaos)










