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Era um dia cinza. Nuvens grandes impediam qualquer tentativa do sol de se infiltrar nas ruas, ainda com montes de neve deixadas pela nevasca do dia anterior. Talvez, isso quisesse dizer algo… Talvez, o céu refletisse os sentimentos mais profundos de alguém. Pois assim que Lilah sentia naquele momento. Cinza. Uma expressão simples e calma, que se complementava perfeitamente com o vestido amarelo delicado que abraçava seu corpo, mas que não reflita a realidade de seus pensamentos. Ela sabia que se alguém buscasse olhar atentamente, veria que as lumes castanhos eram pintadas por pinceladas de um acinzentado, opaco e frio. Como uma tempestade que permanecia distante, mas trazia a mensagem de destruição. Mas ninguém a olharia tão atentamente assim, não naquele momento ou dia. Afinal, todos ali sabiam bem como mascarar as próprias emoções e ignorar as alheias que não eram de seu interesse. Todos os anos, durante a semana de comemoração do ano novo chinês, seu pai realizava um grandioso jantar, para reafirmar as relações com seus sócios mais próximos, como uma forma de boas energias para o próximo ano. Bom, era isso que ele dizia para os outros, mas ela sabia que só se tratava de uma análise de território para saber quem ainda era confiável após mais um ano de negociações. Era cansativo, mesmo que fosse fácil de entender a dinâmica que se repetia todos os anos. Talvez tenha sido tola de achar que finalmente poderia ter um desejo de ano novo realizado: estar junto com a família de fato. Apenas eles, sem interesses ou negociações. Mas até o universo sabia que isso era um pedido quase impossível de se fazer para o poderoso Fei Yuan. Se questionava por que quando estava ali. Já não tinha aturado isso tempo demais por apenas migalhas de atenção do pai? Talvez, mas era a única coisa que ela poderia se agarrar durante todos esses anos. Migalhas de atenção e afeto. Por isso ela permanecia ao lado dele, como a filha perfeita, mesmo que isso nunca fosse o suficiente.
“Melhore essa expressão, consigo sentir a sua apatia a quilômetros de distância.” A voz fria e indiferente de seu pai a atingiu como um raio. Ela sabia que ele conseguia lê-la melhor do que ninguém, algo que era muito irritante. Com isso, o sorriso iluminou novamente seu belo rosto, extremamente falso, mas ninguém precisa saber disso. “Não estou me sentindo muito bem. Acho que vou lavar o rosto para melhorar minha aparência para ficar de seu agrado. Com licença.” A fala baixa mantinha um tom fiada, que escondia a mágoa em seu interior. Não esperando qualquer resposta ou reação de seu pai, Lilah seguiu para o corredor em direção a escada. Precisava de ar.
A cada passo que subia os degraus, sumia da vista dos demais convidados, mas o peso de seu próprio corpo tornava o percurso mais difícil que o normal. O ar entrava em seus pulmões de maneira densa, dificultando sua capacidade de respirar, fazendo com que o puxasse fortemente em busca do superior a quantidade que parecia ser impedido de entrar. Os olhos já se encontravam marejados, mas não ofereciam nenhuma lágrima sequer. Mesmo que doesse como o inferno. Mesmo que sua garganta queimasse e seu peito pudesse se estilhaçar a qualquer momento. Não iria chorar. Não por ele. Não mais. Chegou ao corredor superior, andando vagarosamente em direção a seu antigo quarto. Era quase como se não tivesse controle por suas pernas, como se seus músculos já soubessem precisamente sua principal rota de fuga. Se sentia completamente imbecil por ainda sentir algo em relação a indiferença de seu pai. Os vinte e cinco anos de sua vida já não tinha lhe ensinado que nada mudaria? Não importa o que fizesse. Ela era apenas a boneca de porcelana, presa em uma redoma de vidro, que deveria se casar para seguir com o nome da família. Mas por quê ainda dói tanto? Era realmente uma tola. Já em frente a porta branca de seu quarto de infância, um suspiro escapou de seus lábios enquanto girava a maçaneta. Contudo, ao em vez de encontrar o quarto branco com detalhes vermelhos, vazios e escuros, travou no lugar. Ombros largos de um corpo alto, que manteve-se de costas para porta, parecia analisar os porta retratos de sua antiga escrivaninha, onde estavam suas fotos de quando era uma criança ingênua e feliz. Não sabia quando o sorriso doce e inocente tinha se perdido durante os anos. Aproximou-se vagarosamente do homem e questionou: “Isso foi na minha primeira aula de kung fu, tinha ganhado meu Tchen Mou I.” Explicou a foto que estava na mão do rapaz, ela tinha 5 anos na época. “Não deveria estar aqui. Um quarto velho não deveria ser tão importante para prendê-lo aqui.” Virou indo em direção a sua cama, ainda sem encarar o rapaz. Quando se sentou e olhou para frente, sua respiração falhou. O rosto marcado e de traços orientais, assim como ela, era muito bonito, mas não era isso que lhe prendia a atenção. Estava fixada nos belos olhos escuros, que pareciam incrivelmente familiares… Uma sensação de perda e desespero assolou seu peito, mesmo que não soubesse o motivo. “Quem é você?”
⊹ · A liberdade que tivera no ano novo ocidental havia acabado de ser perdida assim que os sinais do ano novo chinês começavam a se aproximar, pedindo, como sempre, uma reunião de família. Uma detestável reunião de família entre a grande família Kwang. Já mal lembrava como era estar entre os seus. Talvez porque não se sentisse exatamente parte daquela família. Não quando todos faziam tanta questão de o excluir daquele meio. Os sorrisos falsos, piadinhas de mal gosto e fingimentos que acompanhavam a família começaram desde a residência deles, agro mais cheia com os pais e 11 irmão de Lorenz preenchendo os cômodos e corredores naquele ano. Como tem sido sua residência, Lorenz? É um milagre que você tenha conseguido se formar sendo o cabeça de vento que você é. Nós vamos nos encontrar com uma família muito influente, então tudo tem que ser perfeito. Não nos envergonhe, Lorenz. Fazia tempo que não escutava as lamúrias de sua família, mas já estava farto.
No primeiro momento que teve a oportunidade e depois das formalidades em família, se trancou no quarto, jogando pelo resto da manhã e apenas parando para começar a se arrumar para ir na casa dos Fei para a comemoração do ano novo chinês. Não se importava mais se eles falassem. Falariam de qualquer jeito. Não importava o quanto tentasse agradar e ser o perfeito, nunca seria o suficiente para eles. Ele era o mais novo e ovelha negra Lorenz Kwang. O pateta do Lorenz, que não consegue levar nada a sério ou fazer nada direito. Se fossem falar, pelo menos que falassem mal e o julgassem enquanto aproveitava sua vida. Cansou de perder anos e anos se sentindo vazio em seu quarto por causa dos padrões irrealistas de sua família. Seria ele mesmo, doa em quem doesse.
Para quem estava distraído, a hora de ir até o evento não demorou muito para chegar, pelo menos não para quem não queria ter que se unir com a família tão cedo novamente naquele dia. O caminho até o local no entanto, aparentou demorar mais do que as horas que havia passado jogando no quarto. Infelizmente não pode ir sozinho no mesmo carro, já que a família queria economizar os automóveis para que não causassem um incomodo para os anfitriões. Assim que chegaram, cumprimentou devidamente os patriarcas Fei e deu procedimento às formalidades de costume. Eles não tinham uma filha...? Bom, tanto faz, estava quase na sua oportunidade. 3... 2... 1... Contou os segundos para que o tour pelo local começasse, o dando a oportunidade necessária de fugir dos que estavam desatentos até que precisasse ir para o jantar. Se tivesse sorte, conseguiria passar despercebido até a hora de irem embora.
Tratou de ir para a direção e andar oposto ao de destino do tour, evitando assim encontros indesejados. Viu o quarto no fim do corredor, parecendo mais abandonado do que os outros, como a visão de um abrigo oportuno para sua fuga. Ao entrar no local e ver melhor do que se tratava, um estalo de língua vitorioso escapou da boca do Kwang. Sabia que eles tinham uma filha! Onde estava ela, então? Não se importou muito ponderando aquilo e as mãos percorreram uma das fotos que estavam decorando o quarto. Lembrava de encontrar a garota algumas vezes quando mais novos. Qual o nome dela mesmo? Talylah? Foi tirado de seus devaneios ao ouvir alguém entrando no cômodo, lhe arrancando um suspiro desapontado. Pego no flagra. Ótimo, Lorenz. Agora você vai ter que voltar para lá. As palavras no entanto e o som da porta fechando foram tranquilizadoras. Santa Talylah dos Fei, ela não o entregaria! Acabou rindo com o comentário da outra, deixando a foto de lado por alguns momentos. “Me parece mais agradável do que o jantar lá embaixo. Você deve pensar o mesmo, já que deu um sumiço durante a recepção.”
Quando os olhos encontraram os da garota, no entanto, uma sensação estranha assolou Lorenz. Como uma chama ardente que consumia seu corpo e o fazia se sentir vivo novamente. Como se tivesse achado um propósito, um objetivo. Deveria ser paranoia da sua cabeça, ou quem sabe tesão reprimido depois de tanto trabalhar. Não podia negar que ela era bonitinha, afinal. “Lorenz Kwang.” Ajeitou a postura e levantou o queixo, estendendo a mão em um cumprimento. “Primeiro e único de seu nome. É um prazer.” Sorriu de canto e deu uma piscadela para a outra. “E você?”