Ser adulto é viver coisas que dariam lindos textos, mas não ter tempo de escrevê-los.
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Ser adulto é viver coisas que dariam lindos textos, mas não ter tempo de escrevê-los.

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Eu parei de escrever, sobre a vida, a morte, amor, sobre tudo. Cheguei num ponto que deixar dentro estava sendo mais fácil, até mais confortável. Ano passado começou a pandemia, foi uma loucura no hospital, muitas dúvidas, muito medo, muita incerteza. Ninguém estava seguro, todos deveriam ser considerados suspeitos, certo?! Não! Não quando não se tem material, quando não se tem lugar para isolar as pessoas. Você acharia absurdo se eu dissesse que crianças com covid e sem covid ficaram no mesmo quarto porque não havia onde colocar mais ninguém?! Pois isso aconteceu, eu vi, eu vivi, eu chorei. Ano passado começou a pandemia, ainda sem data para acabar e no meio dela as outras enfermidades continuam e é sobre isso que eu pretendo falar, sempre que puder, sempre que conseguir vomitar as palavras que ficam entaladas a cada plantão.
Hospital novo, histórias novas
Voltei para minha cidade natal, consegui um emprego no hospital que é referência na região, consegui continuar cuidando dos meus bebês, agora trabalhando no berçário. Eu achei tudo incrÃvel no começo, lindo assistir partos, ver crianças saudáveis nascendo e indo pra casa no dia seguinte. Foi lindo! Até nascer a primeira criança parada. Não temos uma UTI neonatal no hospital, não temos recursos que uma criança assim precisa. Foi desesperador, ver a falta de material básico necessário. Foi angustiante ouvir a mãe gritando de dentro da sala de parto, que ela não ouvia a sua menina chorar. E ela não chorou, conseguimos reverter o quadro, depois de muitas tentativas, mas ela não chorou, ela não respirou sozinha. O ventilador mecânico não funciona direito, perdemos tempo tentando arrumar. O berço aquecido não funciona bem, a criança fica hipotermica. A pediatra não está acostumada com situações assim, fica mais de uma hora calculando as medições necessárias. Eu passei o plantão sabendo que o estado da menina era grave, minha colega da noite disse que pela madrugada a mãe pediu para se despedir da filha, pela manhã a bebê faleceu. E eu percebi que não importa para onde eu vá, as vezes os anjos precisam voltar para casa cedo.
Depois de alguns meses, percebi que preciso voltar a escrever sobre meus plantões. Eu preciso dividir isso. Antes de sair do antigo hospital em que eu trabalhava, perdi mais um paciente, depois dele escrever ficou difÃcil. Há quem diga que eu me envolvo demais na histórias deles, que tenho que aprender a separar as coisas, mas eu ainda não vi uma maneira (nem sei se quero) de fazer isso. Era um menino, pouco mais de dois anos, tinha uma cardiopatia grave, rara. Tinha também uma pequena atrofia em uma parte do cérebro, o que o impedia de falar, mas não o impedia de sorrir! E que sorriso lindo aquele menino tinha, gargalhava dentro da UTI, nos dava trabalho. Arrancou tantos acesso, o cateter nasal era impossÃvel ficar no lugar. Logo depois da cirurgia, ele acordou, mas não conseguia respirar mais sozinho. Foram várias tentativas de tira lo da ventilação mecânica, sem sucesso. Foi feita outra cirurgia, que melhorou um pouco o quadro dele, mas naquele ponto, além do sorriso, ele já tinha o olhar perdido. Todos os plantões eu o chamava, sem obter resposta, nada, ele ficava olhando para o nada. Eu o chamava, brincava, fazia carinho, conversava, ele não me olhava. O corpo dele suportou muita coisa, ficou desnutrido, após sair da ventilação respirava com muita dificuldade também. Era agonizante ver aquela situação. Um dia, enquanto as medicas o examinavam, eu fiquei de frente para ele, só olhando e eu juro que naquele dia ele me viu, ele me olhou dentro dos olhos, eu tive esperanças, achei que aquele era um sinal de melhora. Poucos dias depois, eu estava em casa quando recebi a notÃcia, o corpo dele não suportou mais. Era perto do horário do almoço, eu estava sozinha, morava perto do hospital, quase fui vê lo por uma última vez, mas preferi guardar a imagem dele me olhando, a imagem da esperança.
O plantão que quase me perdi
Quando uma mãe perde um filho, toda mãe perde um pouco junto. Como não se comover com a dor da pessoa que cuidou, que amou, que rezou e implorou. Como não sentir dor vendo o choro de quem só queria o bem, a felicidade, o futuro lado a lado. A dor chega corroendo, estraçalhando, destruindo. Como ver um anjo perder a vida e não chorar?! O que falar pra uma mãe que acabou de ver sua menina deixar esse mundo?! No necrotério ela me pediu para ver o rosto da pequena, ela repetia que o tempo juntas tinha sido muito curto e chorava, como chorava. Abracei, fizemos uma oração, ela não conseguia falar. Uma amiga que ela fez lá na recepção do hospital, durante o tempo em que a filha estava internada, foi junto, ela nos ajudou na oração, minha voz também falhava, as lágrimas não puderam ser contidas, no curso não me prepararam para isso, não me disseram o quanto meu coração iria doer. Ela era tão pequena, do mundo pouco viu, se foi tão inocente que já a imagino brincando no céu com meus outros anjinhos que se foram. Dói e ainda vai doer muito. Sou mãe e hoje eu sinto que perdi um pouco de mim junto com aquela mãe que perdeu tudo de si.

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Sobre a dor
Ela tinha cinco anos! Cantava pelos corredores, distribuÃa abraços e beijos! Quem a via passar, não poderia deixar de notar tamanha alegria! Na primeira vez que ela internou no setor em que eu estava, era uma simples infecção, de onde se acabou descobrindo uma cardiopatia. Ela ficou na UTI, mas logou voltou para a pediatria. Todo plantão, era um abraço, um beijo, um sorriso novo, mas ela... ah! Ela tava sempre ali! E no prognóstico tinha uma cirurgia, q cardiopatia era grave, quando nasceu a nossa pequena não fez um exame que poderia ter evitado tudo isso. Ela pode ir pra casa, brincou, tenho certeza! Mas teve que voltar e todos os plantões ela me recebia com sorrisos. Eu não estava mais naquele setor, mas fazia questão de ir dar um abraço nela, ouvir suas novidade e dar os desenhos que ela tanto gostava! Foi assim durante um tempo, enquanto ela aguardava uma vaga para cirurgia. Tirei uma folga num domingo que prometia ser tranquilo, mas recebi a notÃcia que ela tinha voltado para UTI, nada demais até então, só estava um pouco cansada, um pouco enjoada. a segunda feira chegou e perto da hora do almoço eu soube que ela tinha falecido. Não acreditei logo de cara, era impossÃvel isso! Minha menina, minha paciente, a minha garota feliz, que amava os desenhos da Frozen. Como doeu, ainda dói. Eu nunca mais serei a mesma, jamais me esquecerei dela. Minha Gabi, hoje sei que cumpriu sua missão e voltou para casa, a saudade aperta as vezes, choro sem perceber quando vejo uma foto sua, você mudou a minha vida. Você se foi fazendo algo que amava, se foi segurando o lápis de cor, que pintava um desenho lindo! Um dia nós veremos novamente, tenho certeza disso! Te amo Gabi, esteja em paz, esteja bem, te desejo luz.
Um dia de cada vez
Plantão prometia ser agitado, três crianças gravÃssimas, vamos trabalhar, fazer controle de sinais vitais, começa a choradeira, ta quase na hora da dieta, eles não param de chorar, a luz acaba! O gerador demora a ligar, os ventiladores, monitores, bombas, tudo começa a apitar, se a luz não voltar não somos suficientes pra ventilar os bebês graves por muito tempo, todos prendem a respiração, rezo em silêncio, nunca rezei tanto na vida, a luz volta. O alÃvio dura alguns segundos e a luz acaba de novo, caramba! Que desespero, não sei até quando as baterias vão aguentar, tenho medo, meus pequenos estão em risco. A luz volta, por favor, não acaba de novo! A parte da manhã passou, ninguém parou, sem intercorrências. Hora do almoço, engole a comida que tá na hora da dieta das crianças. Tirei meu descanso no setor do lado, ajudando as colegas com os bebês maiores, que estão pra adoção. Voltei e tudo estava revirado, a criança descompensou, saturação caiu, batimento foi quase a zero, ele ficou cinza e não estou exagerando, o exame dele está horrÃvel, corre na farmácia pra buscar a medicação que tem que ser feita agora, é urgente, ele pode parar a qualquer momento, a temperatura dele está baixa e não quer aumentar, ele lutou tanto desde que nasceu, quase um mês atrás, e ate agora sem a cirurgia que precisa, ele não está aguentando mais, o coração que já não funcionava bem, agora está pior, os rins estão parando, os pulmões estão cheios de secreção, a cardiologista acha que ele não vai sobreviver. O exame do paciente ao lado também não está nada bom, vai precisar de uma transfusão de hemácias, corre no laboratório, busca a amostra de sangue, liga pra agência transfusional, e não esquece que o antibiótico trocou e tem que iniciar antes do sangue chegar. Já eram quase 19h e eu não tinha acabado tudo, tenho que fechar os balanços e ainda falta um neném para trocar a fralda, tomei um susto, tinha sangue. Uma menina enorme, nasceu parada, linda, tão linda. Ninguém nunca vai assumir, mas foi erro médico, isso me mata, me corrói por dentro, me assusta ver tamanha falta de humanidade. O plantão acabou, eu sobrevivi e meus bebês também. Como me disse a mãe de um dos bebês graves, vamos viver um dia de cada vez. Hoje eu não perdi ninguém.
Dor da alma
O relógio marca 20:15 e eu acabei de entrar no ônibus para casa, estou exausta, com o choro agarrado na garganta, minhas pernas doem tanto, mas o que está incomodando de verdade é a dor na alma, a dor de quem viu um ser completamente inocente perder a vida, como um sopro. Hoje quando peguei o plantão, me avisaram que meus pacientes estavam em estado grave, ali já soube que seria longo o meu dia, pedindo a cada minuto que não tivesse intercorrência, mas antes das 8h meu paciente teve uma parada cardiorrespiratória, corre, abre o carrinho de emergência, prepara a adrenalina, cadê o ambú?! Achou, tudo certo, faz massagem, ventila, ele voltou! Vamos lá, ainda tem o dia todo, fiz minhas coisas sempre de olho no monitor dele, rezando, pedindo para que nada mais acontecesse. Medicações, sinais vitais, a bomba apitando, a incubadora também. Quase hora do almoço, ele parou de novo, corre, faz adrenalina, ventila, massagem, pede o sonar emprestado do outro setor, corre, ele voltou! Colhe sangue para exame, leva correndo no laboratório que fica do lado de fora do hospital, corre mesmo o sangue não pode coagular. Minhas colegas foram almoçar, tenho que dar a dieta, medicação, e o olho no monitor dele, eu pisquei e ele parou, cadê a médica de plantão, não tem ninguém, corre, acha alguém, achei! Faz massagem, adrenalina, ventila! Pega o sonar emprestado de novo, nada! Sem batimentos. Minhas colegas voltaram, minha vez de almoçar, engoli a comida, quase engasgando. Voltei 12:15, me comunicaram que o óbito foi constatado 12:00. Tão pequeno. Hora de preparar o corpo, tira o acesso, a sonda gástrica, sonda vesical, troca a fralda, achei uma roupinha branca pequena, que ainda ficou grande nele, parecia um anjinho. Enrolei no lençol e levei para o necrotério. Meu plantão tinha acabado de chegar na metade e eu já estava acabada. O telefone toca, a mãe do bebê chegou para ter notÃcias, não a vi, mas agora choro por ela, por ele, por mim. Preciso me recuperar, amanhã é outro dia e outra vida depende de mim.