Pensei em te escrever uma carta, porque gosto dessas cafonices, sinto que me traz pra perto da realidade e me dĂĄ algum sentido de viver. Acho que talvez eu tenha buscado emoçÔes loucas, intensidades, essa adrenalina que o corpo se vicia e entĂŁo parecemos condenados a sempre entrar numa encruzilhada com ela, decidido se fugir ou se entregar. Pensei em uma versĂŁo mais atualizada dessa carta, um email anĂŽnimo, coisa refinada, pra vocĂȘ me sentir sem saber que sou eu. AĂ lembrei que nem sei seu email, talvez vocĂȘ nem use o que tem, eu que acho que toda vida adulta Ă© a minha vida adulta, jĂĄ que por algum motivo estranho eu checo meus emails todo dia ao acordar. EntĂŁo desisti do email, e tambĂ©m porque em parte sinto que me derramaria mais do que devo, porque to doida pra te contar de todo o desejo que venho sentido e vocĂȘ nem imagina, mas principalmente porque tenho muito medo de vocĂȘ me rejeitar.
TambĂ©m, Ă© claro, tenho medo de como minha autoigem fica se a rejeição vem com dureza, se eu sou sentida como uma invasora, imagina se de repente eu chego e a sua vida ta toda organizada e eu vou lĂĄ bagunçar. Ă verdade que Ă© muita onipotĂȘncia narcĂsica, mas nunca se sabe o que acontece com as pessoas, e eu estou muito autoconsciente pra fingir que nĂŁo sĂŁo motivos egoĂstas, sĂł consigo mesmo sentir medo a partir da fantasia de como vocĂȘ me enxergaria - uma louca, fora de tempo, chegando do nada para perturbar a paz. Ou talvez vocĂȘ queira isso (?). SerĂĄ que a sua vida nĂŁo estĂĄ entediante e eu poderia levar um pouco de tesĂŁo, revirar umas coisas antigas e fornecer entretenimento por algum tempo? Que loucura Ă© essa, meu deus, que parece que de repente todo mundo quer viver, e quer viver tudo, nĂŁo sei se Ă© porque estou chegando perto dos trinta, Ă© tĂŁo pouco e ao mesmo tempo parece muito. E eu nem sei da sua imagem, se de repente seu rosto mudou, seu corpo nĂŁo Ă© mais o mesmo, se de repente vocĂȘ cortou o cabelo e nĂŁo tem mais o mesmo cheiro bom. Vai que de repente mudou atĂ© seu beijo, aqueles instantes breves que nossos lĂĄbios se tocaram e eu me lembro atĂ© hoje da sensação. Sei que com um pouco de autocontrole Ă© possĂvel deixar passar, a sensação aos poucos vai sumindo e aquela agonia de agarrar o ar vai embora. Mas me me arrepia lembrar da sua voz sĂŽfrega, sussurrada, dizendo no meu ouvido que minha pele era macia enquanto tocava a parte interna da minha coxa com os dedos tĂŁo leves. E eu querendo alcançar sua boca sem poder, querendo que sua mĂŁo subisse mais um pouco mesmo com a sensação de estar violando tantas normas! Eu sĂł queria encostar meu corpo no seu, sentir a pele nua do seu tronco roçando meus mamilos, queria saber o que mais vocĂȘ diria pra mim, se repetiria que minha pele era macia, se ia me achar macia por dentro.
Pior que acho atĂ© que te diria essas coisas, porque vocĂȘ tinha se tornado uma dessas pessoas para quem se pode dizer tudo. Eu estaria condenada com certeza ao fogo dos infernos,. E talvez isso que naquela Ă©poca te deu prazer, hoje te dĂȘ nojo, porque eu nĂŁo sei o que ficou de mim pra vocĂȘ. NĂŁo sei se vocĂȘ seguiu me desejando - parece que foi ontem, mas jĂĄ fazem anos! NĂŁo sei se alguma vez vocĂȘ fantasiou um sexo comingo, um reencontro, que partes do meu corpo vocĂȘ beijaria, que partes iria abocanhar. Eu queria te perguntar todas essas coisas, mas sĂł queria saber as respostas se elas fossem afirmativas, porque se vocĂȘ me rejeitar vai ser como me apunhalar na virilha: vai ser um golpe muito mais profundo na minha libido do que pode parecer.
E nesse momento eu estou, acredite ou nĂŁo, numa batalha interna, porque por mais que a conduta sensata seja Ăłbvia, minha vontade Ă© de encaminhar esse texto, mesmo sabendo que isso Ă© deitar na cama de toalha com as pernas abertas, e alguns homens acham apenas vulgar. Mas aĂ fico na dĂșvida se vocĂȘ acharia, se vocĂȘ achava quando fez aquela massagem despretensiosa nos meus pĂ©s enquanto o dia amanhecia, se vocĂȘ achou quando voltou pro quarto sem motivo algum e chegou pra me beijar. Essa parte eu sinto que vocĂȘ tambĂ©m nĂŁo viu se aproximando, talvez nĂŁo imaginou acontecendo, mas minha boca jĂĄ tinha ficado perto da sua muitas vezes e toda vez eu me sentia implorando pelos seus lĂĄbios, a sua lĂngua, a sua saliva. Escrever tambĂ©m Ă© minha punição porque vou virando ĂĄgua junto com essas lembranças, me arrependendo de tantas coisas, mesmo sabendo que elas eram irrealizĂĄveis. Durante um tempo alimentei a fantasia de que vocĂȘ estaria melhor comigo, que nossas conversas madrugada adentro podiam fazer toda diferença nas nossas vidas, que se vocĂȘ me permitisse a gente viveria um belo romance em que Ăamos crescer juntos, um casal Ămpar. Queria te contar isso tambĂ©m: que eu fugi por que estava apaixonada, mas entendia que era ela que vocĂȘ amava, que nĂŁo teria lugar pra minha fantasia e eu ia acabar decepcionada, sem nem poder dizer que eu nĂŁo sabia. Mas queria que vocĂȘ soubesse, pelo menos desconfiasse, que eu pegava todo aquele tempo de metrĂŽ e esperava o pequeno intervalo do seu trabalho sĂł porque gostava da conversa, eu que nem tinha pretensĂŁo de te beijar. Ă sempre assim, nas raras vezes que isso me acontece: eu me assusto, peço muitas provas - afinal de contas, serĂĄ que tem alguma coisa no meu corpo que vocĂȘ possa realmente desejar? NĂŁo deixo vir o momento e depois me esquivo, me arrependo, atĂ© hoje nĂŁo sei de onde tirei forças para me distanciar. Mas acho que foi de muito medo, da sensação de pecado grudando em minha pele junto com suor, da minha perna que estava pronta pra passar em cima das suas e sentar no seu colo, da minha boca que estava esperando sĂł uma oportunidade de encontrar a sua. Essas desgraças desse atos nĂŁo consumados que deixam esse rastro amargo de desejo, essa coisa estranha que eu fui descobrir que queria ter te dado, mas nĂŁo consegui te dar. Porque eu gosto de ser tomada, gostei de sentir a tensĂŁo que ficava entre nĂłs, nas respiraçÔes pesadas, e nĂŁo vou negar que fantasio essa presença num reencontro, aquele nervosismo de nĂŁo saber se no final vou ou nĂŁo te beijar. E nessa fantasia Ă© claro que vocĂȘ transparece um olhar saudosista, acolhedor, como se de sĂșbito montasse a Ășltima peça do quebra cabeça, entĂŁo sua mĂŁo toca a minha, sobe pelo meu braço, se acomoda no canto do meu rosto e me puxa pro beijo, aqueles beijos longos e que ficam procurando um ritmo enquanto as borboletas no estĂŽmago se acalmam. Naquela cafeteria que fomos, ou naquele bar perto do seu antigo trabalho, fugimos pro banheiro sem ninguĂ©m ver e seu beijo desce pela minha barriga, que sonho ver vocĂȘ ajoelhado, o rosto entre as minhas pernas enquanto eu luto pra me equilibrar. E essa sensação de que eu nĂŁo teria que pedir, de que vocĂȘ ia segurar minhas pernas com toda força e eu ia rezar pra ficar com a marca dos seus dedos, porque as suas sensaçÔes nunca saĂram de mim.
DĂĄ vontade de brincar de detetive e sair deixando pistas para vocĂȘ chegar atĂ© aqui, por que pra mim, mesmo, nessa loucura Ă© prazer que transborda, e o ĂĄpice do delĂrio Ă© que eu queria vocĂȘ pra compartilhar. Mas vai lĂĄ saber se isso vai soar como uma desfeita ou uma afronta, entĂŁo talvez eu escreva apenas algumas palavras, talvez nem isso. Mas nĂŁo sei, mesmo sabendo que pode ser e Ă© torturante, eu queria compartilhar um pouco desse sadomasosquismo contigo, desepejar essa bebida agridoce diretamente na sua boca e depois ter seu corpo todo, lembrar de cada pedaço dele, rezar para ele com tanto ardor quanto eu rezo pra exu. Eu tenho sĂł essa sensação de que vocĂȘ me conhece e saberia dizer a coisa certa no momento certo, que saberia apertar meu pescoço suavemente enquanto me fode sem nenhuma delicadeza. Vou tentar nĂŁo consultar o tarĂŽ de novo, e ficar sĂł com o desejo, submergindo nessa pequena fonte d'agua, sonhando mais uma noite com vocĂȘ. Talvez um dia vocĂȘ fique sabendo, talvez isso eleve seu ego, ter um texto todo sobre como eu te amava e ainda hoje queria sĂł uma chance de te ter. Talvez vocĂȘ nĂŁo ache elegante o jeito como me revelo, essa Ă© a pior forma da minha nudez, e ainda assim Ă© essa loucura que eu queria te mostrar. Que pena que vocĂȘ nĂŁo vai leresse texto, porque eu queria lembrar se cheguei a comentar que seu nome era bom de gemer, e quantas vezes eu fiz isso! SĂł depois, quando me autorizei, mas nĂŁo tem tanta graça quando eu nĂŁo posso fazer esse teatro pra vocĂȘ ver. EntĂŁo se um dia vocĂȘ vir algum vislumbre, ou sĂł atĂ© um bom reflexo de mim, nĂŁo esquece de me homenagear. Quem sabe um dia eu tambĂ©m posso te fazer essa pergunta, porque no fundo eu sĂł quero saber se vocĂȘ me desejou, e como, se possĂvel em riqueza de detalhes. Talvez esteja muito tarde da noite, acho que bebi muito vinho e as palavras jĂĄ começam a tropeçar umas das outras. Vou parar de falar enquanto ainda faço algum sentido, pensar nessa histĂłria como um romance proibido e tentar descansar antes que eu realmente te escreva pedindo vocĂȘ com tanta intensidade que eu seja processada por mensagens inadequadas. Posso me despedir rindo, de mim e de todas essas fantasias, que pelo menos alguma parte do meu gozo eu detenho pra poder te dedicar.