Do pé de Pinheiro até aqui
Tranquei debaixo da árvore de flores vermelhas
Depois comecei uma nova vida.
Um ano que começa em agosto.
A vida que nasceu no olhar dele.
Dali tudo era de fato lindo,
mas se vissem de onde eu vinha
saberiam melhor por que conseguia enxergar tanta beleza.
Era uma nova possibilidade.
Eu vinha de um lugar de água boa,
uma terra que no seu nome se diz Santa,
um solo fértil onde as pessoas passam fome
e aos domingos vão às igrejas
pedir pra algum deus que está no céu
aliviar as dores aqui da terra
e depois, vão para suas casas
e bebem até se esquecerem da fome
e das dores aqui da terra.
No fim, o álcool era o deus que mais rápido atendia as preces deles.
Mas se fosse recontar essa história,
esse fato eu não mudaria.
Foi a beleza dos olhos dele
que me fez guardar tudo que houve antes,
A princípio eu queria viver com tudo,
amaldiçoar todas as flores,
pois as da antiga terra me machucam.
Ele foi a primeira coisa que amei na nova terra,
eu nem direito sabia sobre amor.
Daí, eu contei muita coisa,
talvez muitas com um exagero poético
que no fim culminou sendo o asco
Mas, eu já disse muito sobre,
e com muitas palavras diferentes.
Agora acho que preciso voltar até a árvore
e pegar a caixa com a vida de antes.
Fazer algo com o barro e a dor.
Deixar de contar a história de agosto
e contar uma que aconteceu de fevereiro a abril
e que me fez correr até aqui.
e pedia pra que fosse tudo diferente.
Que tivesse um rio bem grande
para me lembrar do meu avô
e uma terra quente para me dar calor.
E eu fui atendida em tudo.
Um rio para banhar minha alma,
grande ao ponto de não me permitir fugir com minhas próprias pernas.
Eu mostrei para todos na terra nova o pior lado.
E eles só me perguntavam pelo melhor.
“Houve um tempo que não foi assim!”
-Eu era a pessoa mais doce e disposta
Foram roubando partes minhas.
Ele me perguntou se não sabia o caminho de chegar lá de volta.
o mês que eu mais falava era abril.
Toda vez que alguém citava abril,
eu dizia: “Foi o mês que minha mãe morreu!”
E ali eu instaurava um assunto à parte
e um climão com o passar dos anos.
Abril de 2004 eu amava reinventar
e contar essa história trágica.
para no fim esquecer como de fato aconteceu.
mas me lembro das partes que mais queria esquecer.
da primeira vez que me senti sozinha.
Não lembro das últimas palavras,
lembro do copo de folha que ela me ensinou a fazer no caminho.
eu tinha lembranças de conversas maiores,
hoje é até estranho pensar
mas nem me lembro exatamente o rosto da minha mãe nessa época.
A verdade é que era muito sofrimento.
mesmo antes da minha mãe falecer.
Tudo com cortinas de música alta e álcool.
As anomalias normalizadas.
Mesmo antes do óbito da minha mãe
eu já sentia a insegurança.
Se for aprofundar na dinâmica que acontecia
durante meus primeiros anos de vida,
contaria coisas que muitos não suportariam ouvir,
penso como suportei graças à virgem
mas também passar por muitas.
Eu sempre soube que não era ali o meu lugar.
Mas eu sempre me perguntei se eu tinha um.
Quando entendi que era sozinha
eu só pensava que poderia ir onde quisesse.
Então fui por muito tempo procurando um lugar para mim.
Corri descalça com os pés sangrando,
talvez por isso guardei a caixa na árvore de flores vermelhas
e corri para abraçar essa terra amarela.
A resposta de uma oração,
bem quando eu parei de ter fé.
Lembro que saí da terra da santa
Quando cheguei no meu milagre