Eu nĂŁo sei explicar esse tipo de coisa. Mas, muita coisa muda dentro da gente, quando uma relação acaba. Abre-se entĂŁo uma escada para dentro do poço, e a gente sem saber o motivo, acaba caminhando para lĂĄ. Concorda comigo? Enquanto a gente desce os degraus, muita coisa vai perdendo a importĂąncia e vai ficando na borda do poço, relaçÔes sociais, amigos, aplicativos de conversa, vai tudo perdendo a graça. E a gente sĂł sente mais vontade de entrar no poço. JĂĄ no meio da escada o que começa a pesar sĂŁo os laços Ăntimos com o mundo, festas em famĂlia, datas comemorativas, amigos que querem ajudar. Por algum motivo, tudo aparenta ser demais para carregar, e a gente acaba deixando tudo, para chegar exatamente no fundo do poço. E a gente chega. Mas nĂŁo Ă© ruim chegar ao fundo do poço? Para ser sincero nĂŁo, a gente acaba gostando do escuro do poço, da lama do poço, do silĂȘncio do poço, e espera. A gente senta no fundo do poço e espera que alguma coisa ali, estanque todas as feridas que a gente tem por dentro. A gente acredita que o tempo vai passar mais rĂĄpido, que as obrigaçÔes com horĂĄrios e compromissos serĂŁo mais suportĂĄveis sĂł porque o nosso coração estĂĄ no poço. AtĂ© que finalmente um dia a sede começa, branda, rala, quase nula. A boca começa a secar, a gente olha a luz lĂĄ em cima, e acredita que nĂŁo tem nada de seguro na porta do poço, a gente tenta se convencer de que o lugar mais seguro, Ă© o lugar nenhum. EntĂŁo continua sentado olhando para um monte de pedras, atĂ© que a boca finalmente seca. E ainda que a gente nĂŁo queira, o poço perde a graça. Começa entĂŁo a longa caminhada em direção ao começo da escada. VocĂȘ estĂĄ entendendo? De degrau em degrau, vocĂȘ volta passando por cima de todos os motivos que fizeram vocĂȘ estar ali, porque a sua sede Ă© maior. As relaçÔes sociais nĂŁo sĂŁo mais tĂŁo difĂceis, os compromissos com as pessoas que te amam, nĂŁo sĂŁo mais tĂŁo torturantes, tudo por que vocĂȘ estĂĄ realmente com sede, e precisa subir mais degraus. E somente lĂĄ em cima, quase alcançando a entrada do poço, vocĂȘ percebe que nĂŁo tem mais medo de se machucar, de se relacionar, de arriscar coisas e de passar sede. VocĂȘ descobre que o mĂĄximo que um coração partido pode fazer, Ă© te jogar no fundo do poço. E que nĂŁo tem nada lĂĄ capaz de te impedir de subir de novo. Porque o poço Ă© seu, e vocĂȘ jĂĄ esteve lĂĄ, infinitas vezes.