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A vida não é fåcil. Para ninguém. Olhando de longe pode parecer. A grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa. Mas cada um é que sabe o peso que carrega. A dor que isso lhe traz.
No geral a gente suporta. DĂĄ um jeito. Reza. Pede a Deus que ajude. E a fĂ© empurra a vida. Mas cansado? Sem forças? Ăs vezes, nem isso dĂĄ. Tem horas que a alma mingua. E o desespero toma conta de tudo. Esse Ă© nosso primeiro sinal de aleta.
1- O desespero. Um tsunami de emoçÔes
O desespero vem como um tsunami. Invade. Devasta. Agrava a aflição reinante. Esmaga a alma. Inunda tudo em volta. Uma angĂșstia amarga e insuportĂĄvel paralisa qualquer ação. A pessoa se vĂȘ sem saĂda. Ă a treva.
Não hå esperança. Nem perspectiva de melhora. O sofrimento parece que veio para ficar de vez. Serå eterno. Não hå propósitos. Nem planos de vida. A fé? O tsunami arrastou com ele.
2- Ruminação intensa de pensamentos e afetos
A pessoa remĂłi mĂĄgoas e afetos. Busca erros, mĂĄgoas recentes e do fundo do baĂș. Se sente vĂtima. Da vida, do acaso, dos que ela acha que nĂŁo colaboraram. Ou nĂŁo se importaram o suficiente. Se ressente achando que ninguĂ©m se importa com ela. Rumina perdas e rancores. Muitas vezes mostra raiva. Outras, sĂł tristeza. Porque tristeza, a gente aprende, Ă© muito melhor aceita que a raiva.
3- A impotĂȘncia frente Ă vida
A tristeza desce como nevoeiro. Cobre o bom senso. NĂŁo permite que se enxergue o caminho Ă frente. Tudo fica confuso. Sem nitidez. A apatia dĂĄ o tom do momento.
A pessoa se culpa. Acha que prejudica as pessoas amadas. Se sente inadequada. Um peso. Se envergonha de tudo. Do que faz e julga errado. E do que deveria, mas nĂŁo consegue fazer.
O tumulto dos afetos devora a energia de qualquer um. Irritado. Ansioso. Explosivo, algumas vezes. O medo de perder o controle é enorme. Cansado. Abatido. Sem forças para lutar. Nem para resistir. A guerra estå perdida. Ele é prisioneiro da dor. Refugiado de si mesmo.
Se retira. Se isola. Evita encontros. Some dos amigos, dos vizinhos, da famĂlia. A sensação Ă© de vĂĄcuo. Um vazio de alma.
4- AlteraçÔes dos håbitos
Desleixo geral. A pessoa jå não liga para nada. Toca o dane-se. Não liga para banho. Escovação de dente. Cortes de cabelo. Barba. A higiene pessoal em geral fica um lixo. Quem estå em volta reclama. Fala. Ela não atende. Ou atende de må vontade.
Descumpre ordens médicas. Não toma a medicação adequada. Ou toma mais do que deveria. Não se cuida. Passa a comer demais. Ou o contrårio, não come.
Pode ficar dias sem pregar o olho. A insĂŽnia Ă© sua companheira. Noites em claro. Dorme quando estĂĄ amanhecendo. Ou nem isso. Acordar Ă© difĂcil. Sair da cama Ă© um tormento. TambĂ©m pode dormir dias inteiros. Sem conseguir sair da cama.
5- A baixa na produtividade
Se nĂŁo dorme, nĂŁo levanta. Se nĂŁo levanta, nĂŁo chega. Ănimo zero. Vontade? Nenhuma. A vida perde o gosto. Desbota.
Começam as faltas. Os atrasos. Os descontos. As caras feias dos chefes e dos colegas. A pessoa, cobrada, se sente um lixo. Desvalorizada. Incompreendida. Mais na lama ainda.
Pequenas responsabilidades passam a pesar como fardos pesados. Nem sempre possĂveis de se carregar. Esquecimentos sĂŁo frequentes. A concentração fica comprometida. Cabeça cheia, cabe mais alguma coisa? Nada. Nem ordem de chefe, nem matĂ©ria nova de escola. A criatividade Ă© fosca. O raciocĂnio fica mais lento.
O velho e bom tesĂŁo, some. A produtividade na cama tambĂ©m fica prejudicada. No olho do furacĂŁo, ter tesĂŁo como? Tudo vira sacrifĂcio. AtĂ© as coisas que mais eram prazerosas sĂŁo deixadas de lado.
6- AutomutilaçÔes e comportamento perigoso
Pessoas que se automutilam mostram que estĂŁo precisando de ajuda. HĂĄ os que se cortam, se queimam, se batem, se flagelam.
TambĂ©m hĂĄ os que se desprotegem. Pessoas que jogam roleta russa com a vida. Dirigem em altas velocidades, muitas vezes bĂȘbados. Drogados. Fumam demais. Bebem demais. SĂŁo formas de se matar. Num suicĂdio passivo. Parece que foi por acaso. Olhando bem, nĂŁo foi.
7- Despedidas e preparaçÔes de partida
Pessoas que tentam se matar se despedem. Pessoalmente ou em redes sociais. Deixam bilhetes, mensagens, posts. Procuram pessoas queridas que não viam hå muito tempo. Arrumam seus papéis. Organizam seus pertences. Os armårios. Doam objetos de valor ou estimação. Se despedem de alguma forma. Nem sempre a gente percebe. Nem sempre é claro.
Percebo, no consultório, que esse processo é mais do que despedida. Na verdade é uma chance de ver se alguém percebe, e lhe salva a tempo. Ninguém quer morrer de verdade. As pessoas querem é parar uma dor que não suportam mais. Nessas horas, um abraço, um olhar amigo, uma conversa aberta pode salvar uma vida.
8- Histórico de situaçÔes graves
Preste atenção em histĂłrico de abusos fĂsicos, sexuais, bullying. Perdas recentes. SeparaçÔes. DemissĂ”es. Crises financeiras. HumilhaçÔes. Tudo isso pode desencadear na pessoa a vontade de morrer para se livrar do sofrimento. De situaçÔes que ela vive como sem saĂda.
HistĂłrico de suicĂdios prĂłximos ou na famĂlia. Pequenas tentativas anteriores de suicĂdio. SĂŁo fatores que devem deixar a gente jĂĄ de orelha em pĂ©.
9- Melhoras sĂșbitas
Com a terapia e o tratamento adequado, a tendĂȘncia Ă© melhorar. Mas quando a tristeza e a apatia dĂŁo lugar a uma rĂĄpida melhora, fique atento. Ă aĂ que muitos dos suicĂdios acontecem. Porque o deprimido, mesmo muito sofrido, nĂŁo tem forças nem para se matar.
Mas quando melhora, tem. Esse é o risco. Nessas horas cuidado redobrado. Presença direto do lado. Não deixe sozinho, não.
10- Avisos de suicĂdio
Nenhum suicĂdio vem do nada, de uma hora para a outra. Eles vĂȘm escrevendo uma histĂłria. Numa linguagem cifrada que, nem sempre, a gente consegue ler. Infelizmente.
Eu nĂŁo aguento mais. Eu quero sumir. Dormir e nĂŁo acordar mais. Ir embora numa viagem sem volta. NĂŁo quero mais dar trabalho. NĂŁo tenho saĂda. Eu nĂŁo queria ter nascido. Ă melhor mesmo eu morrer.
à comum as pessoas próximas desvalorizarem os avisos. Acharem que é só para chamar a atenção. Para aparecer. Dizem que quem quer se matar não avisa. Não é assim que funciona.
Quem fala não faz? Engano seu. Cão que ladra, morde também. Quem se mata, avisa. à preciso reconhecer os sinais. Encarar de frente. Olhar no olho. Esclarecer.
- VocĂȘ estĂĄ pensando em morrer? VocĂȘ estĂĄ me dizendo que quer se matar?
Verbalizar a ameaça assusta. Isso Ă© bom. Faz com que a pessoa leve um susto ao ouvir de outra boca sua ameaça. Seus medos. Muitos suicĂdios sĂŁo cancelados assim.
Fale sem medo. Abra o verbo. Ă preciso falar sobre suicĂdio. Em alto e bom som. Para que pare de ser tabu. E passe a ser normal. NĂŁo Ă© bom. Mas existe e precisa ser enxergado.
Evite o discurso pronto falando tudo de bom que ele é e tem. Ou pior, falando em como a pessoa é ingrata por não ser agradecida e feliz com o que tem. Não piore a situação. Escute sem julgamentos. Um ouvido atento e paciente ajuda mais que uma boca nervosa.
A morte nunca Ă© fĂĄcil para quem ama. Nunca Ă© suave com quem fica. Mortes sabem ser rascantes. Mas a morte de quem fez a prĂłpria mala para partir, essa Ă© de todas a pior. Porque deixa a alma ferida em carne viva. Mergulhada em culpas. Culpa de nĂŁo ter feito mais. De nĂŁo ter percebido. De ter errado.
E raivas. Dele ter se matado mesmo com tudo o que recebeu. Apesar dos seus sacrifĂcios. Sem pensar no seu sofrimento.
Ă comum a famĂlia ter vergonha. Esconder o suicĂdio. Dar uma desculpa qualquer. Passar a manter distĂąncia segura dos amigos, vizinhos para evitar fofocas. Besteira. DepressĂŁo nĂŁo Ă© vergonha, Ă© doença. Um cĂąncer na alma. Ter vergonha de que?
Ă preciso falar sobre o suicĂdio. Falar bem alto. Sem medo. Olhar a fera de frente. SĂł assim ele para de matar quem a gente ama. Porque a solidĂŁo de quem pensa em morrer Ă© enorme. E nosso silĂȘncio Ă© cruel.
âSabe algo que permanece mesmo quando uma relação termina? Manias. Muitos poderiam ter pensado em saudade ou lembranças. Mas nĂŁo, Ă© manias. Eu percebi isso com o meu primeiro amor. Uma garota de cabelos negros ondulados, boca bem desenhada e baixinha. Nos conhecemos na sala de aula. Notei que ela fazia um laço na letra âEâ quando copiava a lição, e eu achava aquilo bonitinho. Comecei a treinar para fazer igual. E consegui. Notei, tambĂ©m, que ela gostava de cartinhas. EntĂŁo comecei a mandar as minhas. Aprendi a colocar o que sinto em palavras. E a amar em silĂȘncio. AtĂ© que um dia ela foi embora. Eu fiquei triste, mas continuei com a mania de fazer um laço na letra âEâ e a escrever cartas, mesmo que elas nunca tenham sido enviadas. Um tempo depois, eu conheci uma outra garota metida a âsabe tudoâ. E sabe o que era pior? Ela sabia mesmo. Ela era tĂŁo inteligente que nĂŁo teve nenhuma dificuldade em me dominar. Pois Ă©, eu, um problemĂĄtico decidido a deixar esse negĂłcio de relacionamentos pra lĂĄ, juntar dinheiro, comprar um Chevette 1.0 e cair na estrada sem rumo algum. Estava lĂĄ, contando moedinhas e pensando se ela gostaria de receber um buquĂȘ de rosas ou tulipas. Ela estudava todas as tardes na biblioteca, entĂŁo eu comecei a ir estudar tambĂ©m. Li mais livros do que achei que seria possĂvel. Ela gostava de ler romances nas horas vagas. E adivinha? Eu comecei a ler tambĂ©m. Exatamente os mesmos livros. AĂ ela me perguntava se eu gostei do desfecho da histĂłria, eu dizia que achei incrĂvel, mas na verdade nĂŁo tinha entendido nada. Mas ela ficava feliz e tinha um sorriso lindo. Foi entĂŁo que ela passou em um vestibular de uma faculdade de alto nĂvel e teve que se mudar para um lugar prĂłximo ao inferno. Se duvidar, o inferno Ă© mais perto. Mas sem problemas, porque umas noites de choro no escuro do meu quarto nĂŁo afeta ninguĂ©m e uma hora termina. Mas deixa manchas no travesseiro pra sempre. SĂł que eu continuei com a mania de ler e estudar cada vez mais. Fiz coleção de romances e deixei de sair muitas vezes para estudar. Ela foi embora, porĂ©m eu passei no vestibular de uma das melhores faculdades da cidade. E foi na faculdade que eu conheci uma branquinha de cabelos longos e lisos, com um corpo tĂŁo escultural que parava carros, aviĂ”es e navios. Mas que tinha tambĂ©m, um jeito fĂĄcil de me fazer se sentir especial e Ășnico. Ela costumava ir na academia todos os dias. Segunda a Domingo. AĂ eu comecei a ir tambĂ©m. Ăs vezes era apenas para ficar um pouco mais perto dela, mas acabei me acostumando com a ideia. Um dia a gente teve uma briga muito feia. Ela disse âBlĂĄ BlĂĄâ. Eu entendi âMi Miâ. Enfim, cada um por si. Mas eu continuei com a mania de ir para a academia, cada vez mais. O magrelo ficou forte. Tomei grandes doses de auto-estima e viciei. EntĂŁo eu disse: Chega. Acabou. NĂŁo quero mais isso de casar, filhos, famĂlia e todas essas coisas de filmes e livros. A partir de agora sou eu, com um pouco de eu, e mais eu. E sabe, era pra ter dado certo. Droga, era pra ter sido sĂł eu. SĂł que, me apareceu âElaâ. Foi no começo da primavera. NĂŁo me lembro muito bem o dia, nem a hora. Mas me lembro de nunca, em toda a minha vida, ter me impressionado tanto com um sorriso que em conjunto de uma gargalhada gostosa, fazia todo o meu corpo estremecer. Eu sabia que nĂŁo devia me aproximar. Afinal, eu jĂĄ tinha decidido a minha vida. O rumo. A ordem. A escolha. Era bem simples, eu podia dizer que tinha um jantar em famĂlia e estava atrasado, nĂŁo perguntar o telefone e nunca mais aparecer por lĂĄ. Eu realmente tinha um jantar para ir. EntĂŁo, estufei o peito de ar, e disse, naquele momento, o momento: âVocĂȘ nĂŁo gostaria de me acompanhar no jantar?â. Depois de perceber a besteira que eu tinha feito, fiquei torcendo âNĂŁo aceita, nĂŁo aceita, nĂŁo aceitaâ. E ela aceitou. A minha razĂŁo e orgulho estavam partidos, mas o meu coração estava mais completo e inteiro do que jamais pensei um dia estar. NĂŁo sei dizer quantas vezes pensei na besteira que eu tinha feito. E sabe de uma coisa? Foi a besteira mais certa que jĂĄ fiz. Escrevo isso e levanto a cabeça vagamente para olhar no sofĂĄ, e ela, essa mesma garota daquele começo de primavera, estĂĄ lĂĄ, sentada, conversando com a minha mĂŁe sobre novelas e roupas. As duas mulheres da minha vida conversando sobre duas coisas que nĂŁo entendo. Ela ama as cartas que eu escrevo e deixo do lado da cama dela, gosta do laço que eu faço na letra âEâ, acha bonitinho os romances que leio e adora o meu fĂsico. Se ela vai deixar manias em mim? Ainda Ă© incerto. Posso dizer que eu nĂŁo queria esse negĂłcio de casar e compartilhar as minhas coisas com outra pessoa. O tipico egoĂsta. Mas faz mais ou menos uma semana que eu a pedi em casamento. Eu nĂŁo queria isso de ter filhos, ser pai e toda essa carga de responsabilidades. Mas faz uns trĂȘs meses que ela me disse estar grĂĄvida de um filho meu. Hoje, no quinto mĂȘs de gestação, eu possuo o sorriso mais sincero e verdadeiro do mundo, uma futura esposa que adora o som da minha voz e a mania de calcular jeitos de comprar uma casa maior. E ah, antes que eu me esqueça, ontem a minha noiva me ligou e disse, em meio a berros e gritos: âMeu amor, Ă© uma menina!ââ
â Allax Garcia. Â

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