“Qual é a nossa marcha?” - Agora, irrepetível
A juventude, o design e a sua prática.
Num primeiro contacto com a exposição dos finalistas de 2014-15, no dia da inauguração da exposição na faculdade, não consegui captar muito do que estava ali. Por entre a grande quantidade de pessoas que estava naquele pequeno espaço não tive uma percepção que bastasse para escrever esta reflexão. Depois, revisitei a exposição e a segunda parte, integrada na Trienal de Arquitectura. Não tive de todo a sensação que sinto que poderia ter tido. Não consegui captar o que devia. Aqueles objectos dispostos no espaço só tiveram a oportunidade de me causar curiosidade superficial, pelas suas linguagens gráficas ou pelos temas que consegui reter. Muitos deles são tão importantes que não conseguimos captá-los assim de forma rápida. Agora a sensação que tenho é que quero ler atentamente alguns daqueles objectos e tê-los em casa.
“Expor objectos editoriais é uma tarefa difícil e ingrata, a natureza dos mesmos não é estar numa galeria para ser apreciado, é para serem lidos e/ou usados como ferramenta.” Laura
“Reconheço o desafio que é criar um momento (e um espaço!) para mostrar ao público aquilo que uma turma inteira produziu ao longo de um ano.” Maria
Só mais tarde, depois de ver o documentário, e de perceber que estou, de facto na mesma posição é que entendi a dimensão do que estava ali. E sinto que aquele momento foi um agora, irrepetível que não voltarei a ter oportunidade de viver.
Este é o meu receio. É que sinto a responsabilidade da palavra “irrepetível” nos meus 3 anos de faculdade e (apesar da relutância inicial em admitir isto): tenho medo. Tenho medo de não ter tirado daqui o que deveria. Tenho medo de não ter ouvido e observado mais algumas coisas que agora gostava de relembrar de forma clara e são apenas sombras.
“Para aproveitarem cada segundo que vos resta na faculdade. Segundo o "Agora, Irrepetivel", a "Universidade é a nossa fábrica" e eu não podia estar mais de acordo. Na Universidade vão se descobrir como pessoas, designers e, atrevo-me a dizer também, cidadãos. Desfrutem da liberdade de construir os vossos próprios projectos, quase sem limitações, e de ser aconselhados pelos vossos colegas e professores... É uma experiência irrepetível!” Maria (resposta à pergunta “Qual era o conselho que darias neste momento aos alunos de 3º ano?”)
Comecei por preparar este texto, preparando entrevistas a alunos do ano passado, aproveito para agradecer à Laura Araújo e à Maria Teixeira por me terem respondido e por estarem disponíveis para ajudar. Agora percebo que não tem só a ver com observar aqueles trabalhos de uma perspectiva objectiva ou técnica... Tem a ver com perceber onde estive, onde estou e onde vou.
Relativamente à exposição em si e ao trabalho desenvolvido pelos alunos que a organizaram, penso que fizeram um bom trabalho no que acrescentaram à exposição de finalistas de Design de Comunicação, tendo um catálogo bastante bem concretizado e acrescentando iniciativas como o documentário.
Outro aspecto que valorizo bastante na exposição são os temas que aborda. E talvez à primeira vista não se tenha uma visão clara da tentativa dos alunos mas, depois de aprofundar o assunto, isso é visível. Penso que cada vez mais neste curso e enquanto designers temos de reconhecer o que devemos exigir de nós, a responsabilidade de sermos cidadãos que têm a capacidade de comunicar e que esse é um veículo de mudança, que fazemos parte do mundo e que, de facto, podemos fazer algo por ele.
“Este ano e o anterior foram os anos em que as exposições tiveram um discurso mais marcado. Acho importante no último ano de licenciatura trabalhar sobre temas que nos afastem do discurso para o umbigo “de mim para mim” ou por outras palavras, de “design para designers”. Estes temas aproximam-nos de assuntos que são transversais a todos na sociedade, somos todos iguais e não estamos num pedestal.” Laura Araújo
O que posso aprender com a exposição dos meus colegas que terminaram o curso no ano passado é que trabalhamos com um público no contexto do design mas devemos sempre ter em conta o mundo em que nos enquadramos que todos os assuntos de design são assuntos do mundo e da sociedade. Que se trabalharmos em conjunto, tanto os alunos que a organizam como os colegas, temos um resultado mais rico (“Acho que uma das coisas que se tem de fazer é mesmo integrar melhor os colegas que estão a trabalhar nos projectos, como por exemplo nas apresentações da exposição, afinal a exposição é tão deles quanto nossa.” Laura Araújo) Tecnicamente, que expor objectos editoriais vai ser sempre um desafio e que devemos esforçar-nos por torná-los o mais acessíveis possível para que possam ser minimamente captados dentro das limitações.
Mas, voltando ao meu entendimento de que esta reflexão não tem tanto a ver com aspectos da exposição em si mas mais sobre a nossa identificação uns com os outros e com o nosso universo, o primeiro passo para resolver problemas é reconhecê-los e, no meu percurso este semestre tenho-me deparado muitas vezes com a questão da apatia da minha geração, tal como os meus colegas do ano passado e sinto que, enquanto jovem designer e cidadã, tenho a obrigação de fazer algo para mudar. Ao rever a exposição e que estava contido nela percebi que isto não é um problema que reconheço sozinha. E que o primeiro passo para melhorar a minha geração é reconhecer os aspectos em que me identifico com ela e o segundo passo, perceber como posso comunicar com a minha própria geração.
“Queríamos levar as pessoas a mexerem-se e a terem opiniões mas o que nos apercebemos é que como a maior parte do resto da nossa geração estamos um bocado perdidos quanto ao que fazer. E o que decidimos foi mostrar que temos ideias para partilhar e o problema não é tanto não estarmos interessados mas estarmos perdidos.” (Documentário presente no site, aluna sobre o seu trabalho “Modern Window”)
Concluindo, sinto-me num misto de sensações, tenho o tal medo que referi, a sensação de que poderia ter feito mais e aproveitado mais até agora (e pretendo tentar aproveitar o que me resta). Mas, simultaneamente, sinto que as minhas dúvidas são necessárias ao meu processo de aprendizagem. Que posso não sair daqui como aluna exemplar, como alguém que teve os melhores trabalhos da turma, mas saio daqui com uma consciência melhor do meu papel, do que quero fazer. Saio daqui com um pensamento crítico muito mais desenvolvido e especialmente que estou a começar a conseguir aplicar a mim própria. Relativamente ao que espero do meu futuro?
“Em relação a esta pergunta posso dizer que saiu tudo ao contrário do que esperava.” Laura
“Não esperava ser tão complicado lidar com a incerteza do meu caminho. Mas suponho que isso é a definição de crescimento...” Maria