Acho que já está na hora de falar sobre você de novo.
Por muito tempo eu realmente achei que não saberia continuar vivendo sem você ao meu lado. Não de forma dramática, desesperada ou dependente… mas porque, em algum momento, você deixou de ser apenas alguém que eu amava e passou a existir dentro de tudo que eu planejava para o futuro. Já não existia mais um “depois” sem que você estivesse nele. E talvez tenha sido isso que mais me desestabilizou quando tudo saiu dos trilhos: eu não precisei aprender apenas a superar você, precisei aprender a reconstruir uma vida inteira sem a presença que eu já considerava permanente.
E eu só volto a tocar nesse assunto agora porque foi exatamente nesse ponto da minha vida que eu imaginei nós duas vivendo juntas. Livremente. Abertamente. Sem medo. Sem precisar esconder carinho nos detalhes ou reduzir sentimentos ao silêncio. Eu imaginei paz. Imaginei uma rotina simples, mas feliz. Imaginei nós duas cansadas depois de um dia longo, dividindo o mesmo sofá, o mesmo espaço, a mesma vida. E é estranho revisitar essas memórias porque, durante muito tempo, elas pareciam tão reais quanto qualquer coisa concreta que eu podia tocar.
Existe uma parte muito escondida dentro de mim que ainda dói um pouco. Não pela solidão de agora, porque honestamente eu aprendi a ficar comigo mesma. E também não porque eu esteja presa ao passado. A dor vem de saber que você nunca imaginou a dimensão do amor que existia aqui dentro. Na verdade, ninguém imagina. Ninguém sabe sobre as alianças que eu comprei.
Às vezes eu lembro daquela noite em São Paulo e parece cena de filme melancólico demais pra ter acontecido comigo. Eu voltando tarde, cansada, andando por ruas caras onde eu mal sabia me localizar direito, entrando em lugares que claramente não pareciam feitos pra alguém como eu. E mesmo perdida, insegura e completamente fora da minha zona de conforto… eu fui. Porque amar muito faz isso com a gente. Faz a coragem nascer em lugares improváveis. Meu senso de direção, que normalmente falha pra tanta coisa, naquele dia parecia me empurrar exatamente pro lugar certo.
E eu encontrei as alianças perfeitas.
Perfeitas de verdade.
Com as nossas numerações certinhas.
Hoje, quando penso nisso, uma parte minha acha absurdamente fofo. A outra acha brega num nível quase vergonhoso. E talvez seja exatamente por isso que a lembrança ainda seja tão bonita, porque era genuína. Não tinha jogo, exagero ou encenação. Era só amor puro, maduro e decidido. Eu realmente estava pronta pra casar com você.
E acho que é justamente por isso que meu coração ainda encontra tanta dificuldade em se abrir novamente. Porque não era uma paixão passageira ou uma fantasia bonita que acabou cedo demais. Meu coração já tinha escolhido permanência. Já tinha escolhido futuro. Já tinha escolhido você como lar antes mesmo de existir um pedido oficial. Então quando algo assim quebra, não é só o relacionamento que termina… é toda uma realidade imaginada que desmorona junto. E reorganizar os sentimentos depois disso leva tempo. Muito tempo.
Ainda não sei o que fazer com aquelas alianças de noivado. Às vezes penso em guardar. Às vezes penso em vender. Às vezes penso que talvez elas devam continuar existindo apenas como símbolo silencioso de uma versão minha que amou alguém profundamente, sem medo de construir planos enormes ao redor desse amor. Porque aquela era a surpresa que eu queria fazer pra você naquele dia que deveria ter sido só nosso. E talvez você nunca vá saber o quanto eu sonhei com aquele momento.
Mas apesar de tudo, o mais importante é que eu estou feliz agora. De verdade. Não feliz o tempo inteiro, porque a vida não funciona assim, mas feliz de um jeito maduro, tranquilo, possível. Minha vida finalmente está começando a caminhar. Eu compartilho pequenas partes de mim com quem demonstra se importar, mesmo que ainda exista um certo receio em me deixar vulnerável de novo. E talvez seja engraçado admitir isso, mas às vezes eu falo demais com aquela garota da livraria. Só que depois de você, ela foi a primeira pessoa que teve paciência pra me ouvir sem pressa, sem me interromper, sem me fazer sentir exagerada por sentir tanto. Mesmo sendo apenas amizade, isso já significou mais do que ela provavelmente imagina.
E no fim, acho que é isso que sobra depois que a poeira baixa: gratidão pelas partes bonitas, carinho pelo que foi verdadeiro e maturidade pra entender que algumas histórias não precisam durar pra sempre pra terem sido importantes.
Então, onde quer que você esteja agora, eu espero sinceramente que a vida esteja sendo gentil com você. Espero que seus caminhos estejam florescendo, que você esteja encontrando paz nas escolhas que fez, e que exista felicidade ao seu redor.
Porque, apesar de tudo, a minha vida também está finalmente dando certo.