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Ela chega atrasada na cafeteria, mas ele estĂĄ lĂĄ, esperando por ela. NĂŁo parece surpreso quando nota que o atraso dela foi de exatos 15 minutos. Pelo contrĂĄrio: ele a observa com aquela mesma careta de sempre, entediado, conforme a assiste pendurando a bolsa na cadeira, tirando o sobretudo, o cachecol...
Enquanto ela estå cheia de tralha, ele só trouxe sua carteira, o celular, as chaves e um caderno de bolso com uma caneta. Tudo cabe em seu bolso. Mas ela precisa da bolsa, de uma ecobag para carregar algo extra e, bastasse tudo isso, ainda precisa carregar nas mãos as peças de roupa que ela usa de forma exagerada, como se fizesse, assim, tão frio. Não faz: ele só estå de camisa e blusa de lã. Mas, ela sempre foi friorenta.
â VocĂȘ nĂŁo imagina o trĂąnsito que eu peguei vindo pra cĂĄ. â Ă a primeira coisa que ela fala, assim que consegue, finalmente, se sentar.
Ele observa de forma silenciosa conforme ela tira as chaves e o celular do bolso, os deixando sobre a mesa. Mais tralha.
â Esse caminho sempre te faz atrasar 15 minutos.
â Eu sei. Mas, o trĂąnsito que eu pego naquela ponte, me deixa ver a vista bonita do parque que fica embaixo. E eu gosto muito da vista bonita do parque que fica embaixo.
â VocĂȘ jĂĄ pediu? â Ela questiona, sem o olhar.
â NĂŁo. â Ele responde, simples. Tira o Ăłculos do rosto e passa a limpar a lente em um guardanapo. â Imaginei que vocĂȘ iria atrasar, entĂŁo esperei pra pedir quando vocĂȘ chegasse.
â Se vocĂȘ jĂĄ espera o meu atraso, por que ainda tenta me convencer de nĂŁo me atrasar? â Ela ri, jogando o jogo dele. â Por que vocĂȘ nĂŁo marca 15 minutos antes do horĂĄrio que gostaria de me encontrar?
â Eu nĂŁo gosto. Mas, vocĂȘ vai pedir alguma coisa exĂłtica, que vocĂȘ nĂŁo vai gostar, e eu vou ter que comer. E vocĂȘ vai ficar com o meu pĂŁo de queijo, como sempre. â Ele gesticula, em seguida pĂ”e o Ăłculos no rosto. â Simples assim.
â Claro, moça... â Charlie anota em seu bloquinho. â E o senhor?
â Um suco de laranja, um pĂŁo de queijo e um brigadeiro.
â Certo. Vou trazer.
Ela se ajeita em seu lugar. Enfia o cachecol na bolsa, pega o sobretudo â que estava pendurado em sua cadeira â e o usa para cobrir as coxas. Ele nĂŁo entende por que ela usa quatro, cinco casacos diferentes se no final usarĂĄ saia com uma meia-calça felpuda por dentro. E porque raios ela teima em usar aquela bota de salto, sendo que ela sempre reclama que odeia dirigir com ela, porque pega no calcanhar quando vai pisar na embreagem.
â Bom, vamos ao que interessa? â Ele joga suas cartas na mesa.
â Ah, sim. â Ela murmura, sem interesse. â Eu nunca tinha percebido isso. Na verdade, eu sĂł estava falando quando tinha vontade de falar... E, nas vezes que vocĂȘ começava, eu sĂł aceitava e ouvia o que vocĂȘ tinha a dizer.
â VocĂȘ nunca planejou fazer isso em ordem, entĂŁo?
â NĂŁo. â Ela franze o cenho. Quando observa a expressĂŁo desapontada dele, ela fica inquieta na cadeira, incomodada. â Ătimo. Eu nem tive tempo de pensar em um dos motivos pro nosso divĂłrcio e vocĂȘ jĂĄ me dĂĄ um.
â VocĂȘ quer comparar nosso relacionamento com um pedido em uma cafeteria? â Ela arqueia a sobrancelha. EstĂĄ com a parte de cima do lĂĄbio suja de chantili.
â Ă um paralelo. NĂŁo faz a menor lĂłgica vocĂȘ agir desse jeito. Assim como nĂŁo faz a menor lĂłgica vocĂȘ me dizer que nĂŁo quer insistir na nossa relação, sendo que vocĂȘ sĂł usa cĂlios postiços quando quer flertar.
â Pois, eu acho diferente. â Ela gesticula, apontando a unha vermelha na direção dele conforme continua: â Eu acho que vocĂȘ pede o pĂŁo de queijo de propĂłsito. Porque vocĂȘ quer me agradar. E porque vocĂȘ sabe que eu nĂŁo quero comer um pĂŁo de queijo; eu quero comer o seu pĂŁo de queijo. E ainda assim, vocĂȘ olha pra mim e diz que nĂŁo quer ter mais nada comigo.
â NĂŁo tem lĂłgica. â Ele nega. â NĂŁo faz sentido eu fazer algo assim, sĂł porque eu quero te agradar.
â Ă claro que faz. â Ela ri, dando de ombros. â Veja, eu fiz a mesma coisa que vocĂȘ, agora, e vocĂȘ nem reparou. Eu pedi pĂŁo na chapa, que vocĂȘ gosta, porque nĂłs Ăamos trocar de prato.
Ao finalizar seu suco de laranja, ele pondera bem quais palavras irĂĄ usar em seguida, para enfim poder degustar de seu pĂŁo na chapa.
â Eu discordo. O amor nĂŁo tem de estar nas entrelinhas, pelo contrĂĄrio. Do que adianta vocĂȘ fazer algo pensando em mim, se vocĂȘ nĂŁo me avisa? Pra mim, o mais lĂłgico era que vocĂȘ nĂŁo queria se esforçar e pensar em pedir algo, jĂĄ que vocĂȘ iria comer meu pĂŁo de queijo. Mas, vocĂȘ vira pra mim e diz que pediu o meu favorito, porque irĂamos trocar. Como vocĂȘ quer que eu perceba isso, se vocĂȘ nĂŁo me afirma?
Ele para por alguns instantes... Olha para cima, pÔe a mão no queixo. Enquanto mastiga seu pão, ele arqueia rapidamente as sobrancelhas, com os olhos um pouquinho mais abertos, antes de admitir:
â Ă, isso tem lĂłgica.
â Viu? â Ela abre um sorriso. Se sente vitoriosa. â Agora, me diz: vocĂȘ realmente sĂł pede o pĂŁo de queijo porque se acostumou comigo roubando seus pĂŁes de queijo, ou vocĂȘ faz isso porque, aĂ dentro, vocĂȘ quer me agradar?
â Seria mais lĂłgico eu simplesmente pedir o pĂŁo de queijo pra vocĂȘ.
â E vocĂȘ pediu. Assim como eu pedi o pĂŁo na chapa. SĂł que nĂłs pedimos no nosso nome e depois trocamos. â Ela mexe a colher no ar, fazendo uma volta. â A sua lĂłgica sempre tem que ser horizontal ou vertical? Ela nĂŁo pode ter um formato de, sei lĂĄ, uma rasura?
â Ă verdade, isso seria bem mais fĂĄcil. â Ela tem de admitir, embora nĂŁo goste muito. â Mas, no final, o resultado nĂŁo foi o mesmo?
â Foi.
â EntĂŁo, pra que usar uma lĂłgica tĂŁo objetiva todas as vezes? â Ela dĂĄ de ombros. â Por que nĂŁo complicar as coisas? Dar profundidade a elas. Complexidade. Emoção.
â VocĂȘ diz isso, mas sempre se dispĂ”e a sentar comigo e conversar de forma extremamente objetiva sobre a nossa relação. â Ele argumenta, se endireitando na cadeira. â Deixa claro o que vocĂȘ acha que estĂĄ âentrelinhasâ e sĂł assim que conseguimos, realmente, nos entender.
â Concordo, mas sĂł em partes. â Ela ressalta. â Ă verdade que conseguimos entender algumas coisas de um jeito melhor quando elas estĂŁo estampadas na nossa cara. Mas, tem outras que nĂłs simplesmente pescamos no ar... sentimos.
â Tipo o que, por exemplo?
â Tipo o fato de que vocĂȘ reparou que eu estou de cĂlios postiços e lembrou que eu uso eles quando quero flertar.
â Eu sei, mas por que vocĂȘ acha que vocĂȘ reparou nisso? Ou por que vocĂȘ acha que ainda se lembra de como eu gosto de flertar, se estamos nos divorciando? â Ela o encurrala com suas perguntas certeiras. â Porque vocĂȘ se importa.
â Ă claro que eu me importo. VocĂȘ fez parte da minha vida. VocĂȘ foi importante.
â EstĂĄ vendo? â Ela se ergue novamente, aproveitando para apanhar a chave do carro. â NĂŁo tem lĂłgica... Mas, faz sentido.
â Mas, vocĂȘ admite que eu amar os pequenos detalhes em vocĂȘ fazer com que eu ame vocĂȘ, tem muito mais lĂłgica do que sentido, nĂŁo admite?
â Sim, eu admito.
Os dois se olham por alguns segundos, em silĂȘncio, na porta da cafeteria.
â VocĂȘ quer carona? â Ela quebra o silĂȘncio.
â Qual o sentido por trĂĄs dessa carona?
Ela abre um sorriso.
â Me diz a lĂłgica, primeiro.
â Bom... Ă lĂłgico que vocĂȘ queira me dar carona. Porque minha casa fica no caminho entre a cafeteria e a sua casa. E estĂĄ frio, se vocĂȘ nĂŁo me der carona eu vou pegar metrĂŽ e posso resfriar.
Ele abre a porta de trĂĄs. Deixa a bolsa dela e ela aproveita para deixar sua ecobag. Ela estĂĄ escorada, de lado, o olhando conforme ele fecha a porta e se escora igualmente. Ele com as mĂŁos nos bolsos, ela com os braços cruzados. Ela o olha como se fosse seu tudo, mas ele nĂŁo consegue perceber isso tĂŁo bem. E ele nĂŁo vĂȘ lĂłgica na sua vida sem ela, mas ela nĂŁo consegue compreender isso por completo.
â Sabe o que eu acho que faz sentido e lĂłgica, querida?
â Hm?
â Se nĂłs desistĂssemos dessa ideia imbecil de divĂłrcio. Porque nĂŁo faz sentido. E nĂŁo tem a menor lĂłgica.
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