Conhecia o temperamento de sua capitã muito bem e por essa razão sempre teve a atenção de tomar cuidado em dobro quando falava com ela, já que a sua experiência com ruivas deixava claro que as pimentinhas explodiam com extrema facilidade. Contudo, chateado como estava por terem perdido o último jogo contra a Sonserina, acumulado com a dor que sentia na panturrilha e o cansaço do recente treino, Michael acabou se precipitando e colocando a própria vida em jogo ao falar daquele jeito com Daisy. Automaticamente deu um passo para trás quando ela virou em sua direção, com as mãos na cintura e fogo saindo dos olhos castanhos – que, apesar de ela ser 10 cm mais baixa do que ele, ainda assim conseguia ser assustadora. Porém, os dizeres soaram como bofetadas no seu espírito perdedor, enchendo-o com um pouco mais de coragem para retrucar. “Ousadia?! Você é a capitã do time ou a rainha da Inglaterra, Daisy?” incrédulo, respirou fundo e foi meio mancando – devido ainda sentir as cãibras – até aquela que ostentava o broche de capitã. “Como um membro desse time eu tenho o direito de falar o que quero e de questionar sim a sua liderança. E não duvido que você tenha demonstrado capacidade para ganhar esse broche ai, mas também tenho certeza de que não faria mal você se empenhar mais junto ao time. Por que é isso o que somos, não é? Um time? Então os seus treinamentos solitários não importam quando você só fica zanzando no coletivo, parecendo uma mosca.” Despejou sentindo os braços doloridos por todos os balaços que precisou rebater sozinho naquele treino, já que a capitã estava ocupada se preocupando com as habilidades da goleira. “Se você tivesse um pouco mais de foco no que faz, Daisy, talvez tivesse entrado com a cabeça no lugar no último jogo e não tivesse levado aquele balaço na cara. Já parou pra pensar nisso?”
A raiva fervilhou em Daisy ao que ele não só não retirara o que disse, como também acrescentara mais lenha à sua fogueira. O crepitar do fogo em aviso de perigo parecia não ter sido ouvido pelo corvino, e por mais temperamental que Daisy fosse, usava de todas as forças que tinha para não perder o controle bem ali, na frente de todos, e gritar com o garoto, ou dar-lhe umas vassouradas pela ousadia. Acompanhou com o olhar o mancar alheio, ao que retrucou a fala alheia, comedindo sua irritação na voz “Me empenhar mais? Está bem, Mike, então me diga, se eu fizesse isso, quem ficaria responsável por observar o desempenho de vocês e indicar as qualidades e o que pode melhorar?! Ou você acha que eu fico apenas zanzando de bobeira?! Por Merlin, Michael, use os neurônios que te mandaram pra Corvinal e pense comigo: você acha que só porque conquistei esse broche, eu também ganhei super-poderes para multi-tarefar? Eu treino duas vezes mais do que qualquer um nesse time, Michael, e se eu sou capaz de treinar só com balaços e meu bastão, você também é. Eu sei que é difícil, ok? Não estou dizendo que é fichinha, até porque eu sei na pele que não é.” suspirou, ajeitando os cabelos atrás da orelha antes de continuar, agora um tanto mais calma “Justamente por isso, Michael! Nós somos um time! Então, por isso mesmo, você não deveria falar como se eu tivesse a obrigação de carregar todos nas costas e ser sempre perfeita! Eu bem que tento, mas caramba, eu também sou humana! Tenho e cometo minhas falhas!” bateu os braços contra as coxas, ao lado do corpo, em frustração. No entanto, ao ouvir as palavras do Corner, a fúria voltou a tomar Daisy, corando-a de raiva - e, por mais que não fosse admitir, mágoa. “Uau, Corner. Parabéns, você pode não ter ganhado o jogo, mas com certeza acabou de ganhar o troféu de maior babaca do ano.” disparou saboreando a amargura em suas palavras, em seguida trancando seu maxilar. Os motivos de ter estado tão avoada no jogo voltaram à sua cabeça, a lembrança do Obscurus tomando o controle, o desespero e o esforço que ela precisara fazer para que um dos colegas, mesmo que sendo um desafeto seu, não tivesse sido enterrado na manhã seguinte - isso é, se alguma coisa dele restasse depois do ataque de seu parasita maldito. A sensação conhecida do medo ao lembrar da cena causou um frio em sua espinha, a fazendo engolir seco o choro que desejava extravasar; não podia demonstrar fraqueza logo na frente daquele que a enfrentava, não daria esse gosto da vitória a ele, não depois de saber o esforço que fazia por tudo o que tinha. “Talvez você devesse treinar mais a empatia, Corner, e não deixar atrofiar seu cérebro em troca de músculos.” falou, simplesmente, com a voz que antes parecia ter sumido. “Um time, não é mesmo? Mas, ainda assim, a culpa é toda minha.” soltou um riso nasal sem humor algum pela indignação de suas palavras, cruzando os braços e revirando os olhos. “Quanta hipocrisia, Corner. Só não supera a sua babaquice pela insensibilidade. Mas, é verdade, eu me esqueci, o sr. Perfeitinho jamais teve algum problema na vida um pouco mais grave que a droga de um jogo de quadribol pra se preocupar. Sabe de uma coisa? Não para o restante do time, mas para você, essa derrota foi mais do que merecida.” disparou, e por mais que tentasse soar forte, era transparente a mágoa em sua voz.