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Quando dizia que gostava de fazer exercícios com seu irmão, não estava considerando aquele tipo de exercício. Correr de trasgos não era muito a praia de Meili, que preferia dar algumas voltas completas no ginásio ou uma sessão de alongamento antes de aprender algumas técnicas de artes marciais que não conseguia gravar os nomes. Ah, vai, dá um desconto! Ela tinha acabado de começar naquilo, enquanto Qi Liang respirava os ensinamentos desde criança e deveria ser, tipo, o melhor lutador na China — ou algo muito perto disso, nos olhos da mais nova. Se sentiu muito mais tranquila ao sentir o toque do irmão, deixando um sorriso escapar para ele. Assentiu positivamente com a cabeça, adequando a sua velocidade para ficarem emparelhados enquanto corriam. —— O chute no joelho de cristal do ogro teve estilo, gege. —— Graças ao treinador tirano do time de Lacrosse, podia fazer uma graça dessas sem se cansar tanto. —— Nunca mais reclamo do professor, na moral! —— Disse, mais para o Narrador do que para qualquer pessoa que a cercava.
Apesar de extremamente desorientada com toda aquela confusão, ainda foi capaz de ver o voo rasante de um falcão por cima das suas cabeças, que logo passou a atacar os ogros que os seguiam afim de lhe dar uma folga maior. Araminta! Com certeza era a mais velha: apesar de não ter visto com os próprios olhos até aquele momento, reconhecia o poder novo da outra de uma fofoca antiga. Soltou um pequeno som de comemoração, um grito de guerra que costumava fazer junto das arquibancadas da Aderem. Mesmo com a situação tenebrosa na qual estava envolvida até o pescoço, Meimei estava muito mais tranquila por ter o seu time ao seu lado, se sentindo quase intocável. Era tão protegida pelos meninos da finada chapa que poderia relaxar um pouquinho, deixando uma ou outra piadinha escapar para melhorar o clima. Foi o que ela fez quando o ofegante não-namorado finalmente os alcançou, cumprimentando-o de volta. —— Oi, gatinho! Claro, claro, mas só aceito broncas se você me levar para um encontro depois, combinado? Vou adorar te ouvir! —— Ninguém acreditaria que estava sendo perseguida por criaturas malignas se ouvisse essa frase fora de contexto.
Era, realmente, o início de um sonho. Minty estava sendo uma heroína invejável e iria distrair os ogros por tempo o suficiente para Meimei fugir com seus dois garotos favoritos, numa saída gloriosa para a liberdade afim de, provavelmente, encontrar mais ogros pelo caminho. Céus, que bagunça! Quando a sua estadia em Aether tinha ficado tão complicada? No ano anterior, a maior confusão que havia arrumado foi virar a cabeça de um par de irmãos, com ambos disputando o amor de Fa Meili antes do dia dos namorados. Bem, a história não tinha acabado muito bem, já que a garota havia recusado os dois, afinal, estavam mais concentrados numa briguinha boba do que levar ela para sair como seres humanos normais. Como uma borboleta social, precisava ver as flores que eram seus amigos! Todavia, sua fantasia logo foi por água abaixo. Não podia ter um singelo momento de paz em Aether, considerando que tudo dava errado minutos depois!
O animal precisava voar baixo para realmente chamar a atenção das criaturas, contudo, isso também significava se expor as suas mãos grandes e violentas. O falcão foi tirado de seu voo majestoso por um trasgo impaciente, que jogou a ave para o chão como se fosse papel. Meili parou na mesma hora, com os olhos arregalados de preocupação. O motivo? Sabia dos poderes novos de Minty, e também de suas consequências. A irritação logo tomou o seu rosto, algo perceptível caso alguém mirasse as íris douradas e faiscantes. A mão de Meili estava erguida no vazio, mas logo uma lufada de ar trouxe um taco de baseball de presente para a jovem. que girou o objeto nos dedos ao inevitavelmente se ver cercada pelos monstros. —— Vai logo, eu vou arrumar tempo pra você! —— Gritou para Qi Liang, cerrando os dentes depois. —— Draco, querido, você acha que vão servir ogro frito no jantar de hoje? —— Precisava de emoções fortes para conjurar certas áreas de seu poder e, bem, por acidente, um dos trasgos havia lhe presenteado com um sentimento de ódio absurdo.
Para impedir que mais bichos seguissem o irmão, Meili fez o favor de ser um baita entretenimento para sua audiência mais uma vez. Se ela já era capaz de puxar umjump hiperestendido só com o treinamento de cheer, imagina com poderes novos e a força do ódio do seu lado? Ao se erguer numa altura parecida com a parede de ogros que impedia a passagem até o portão, a chinesa agitou o seu bastão recém adquirido, direcionando com o objeto uma descarga elétrica vinda direta de uma nuvem acima de sua cabeça. Foi o suficiente para abrir uma boa folga para ambos, com a morena ofegando pela manobra recém feita. Aquilo gastava boa parte de sua energia, mas ainda era legal para caralho. —— Então, uma chance só para correr até o portão? É isso? Dá pra gente ir e alcançar os dois?
Bobo como fosse, o elogio besta e completamente fora de hora da mais nova trouxe um sorriso pequeno ao rosto. O que podia dizer? Queria que a irmã mais nova o achasse legal e habilidoso, processem-no. O pássaro registrou em sua mente imediatamente como Araminta, ainda que fosse a primeira vez testemunhando suas novas habilidades com os próprios olhos mesmo que já tivesse ouvido bastante sobre, geralmente seguido de alguma fofoca absurda que tinha ouvido pelas janelas e corredores. Era impressionante, até — certamente a ofereceria um elogio depois, se não fosse pelo que aconteceu em seguida: o falcão atingido em cheio pela mão de um dos algozes e ser jogado no chão com força o suficiente para que pudesse distinguir o distinto som de ossos quebrando. Qili enxergou vermelho, os punhos inflamando-se até os antebraços sem que ele pudesse fazer algo sobre isso. Inferno de escola, inferno de garota… Certo, ele tinha que abrir caminho. Sem causar nenhum dano irreversível em nenhum dos ogros, notou mentalmente ao ver-se cercado, mesmo que um deles tivesse acabado de dar um tapa em Araminta (era um falcão, mas era Araminta, que era o falcão, que era na verdade… ele não tinha cabeça pra isso agora) como se fosse uma mosca. Deixá-la para trás simplesmente não era uma opção, porém, e se um aluno aleatório da Anilen tivesse que lidar com uma mandíbula quebrada para que fosse buscá-la, bem, era um preço que Qi Liang estava disposto a pagar. Já tinha uma ideia do que fazer; uma vida de treinamento em artes marciais tinha suas vantagens, mas não conseguia pensar direito com a voz do filho de Malévola zunindo nos ouvidos. — Eu não vou pegar a porra do falcão, Draco! Tenho cara de Branca de Neve pra você?! — A voz tinha muito mais irritação em seu tom, projetando-se pelo espaço negativo do campo e arquibancadas de forma que suas palavras anteriores à irmã não faziam. Aproveitando a confusão do ogro que ainda tentava ajustar os olhos feridos, levou apenas um segundo posicionando-se antes de saltar com o punho em riste, fazendo contato com o queixo do trasgo e fazendo com que cambaleasse para trás, a cabeça jogada para trás.Forma perfeita, seu pai ficaria tão orgulhoso… Foco, paspalho. Certamente poderia correr até lá de novo mas, se fosse fazer conjecturas sobre a situação que estava às costas pelos sons de trovão e baques de pancada, não tinha tempo o suficiente para ficar passeando. Assim, depois de um par de passos largos para impulso, lançou-se no ar e no alto de sua trajetória fez surgir das mãos labaredas quentes o suficiente para mantê-lo no ar. Anotou mentalmente que deveria treinar mais aquilo, e também que devia uma para Mae pelo favor de encantar suas roupas com um feitiço anti-chamas. Quando aproximou-se de Araminta, ainda estava batendo nos próprios braços para abafar as chamas, ainda que elas só tenham verdadeiramente diminuído quando pôs os olhos e constatou que a descendente ainda estava inteira. Quebrada, mas inteira. Ainda assim, a visão da figura alheia fez com que o maxilar trancasse; estava acostumado com ferimentos, hematomas e ossos quebrados, contando que fossem os dele. Jamais tinha sequer entretido o pensamento de encontrar Araminta, de todas as pessoas, naquela posição, mas um olhar foi o suficiente para que decidisse que odiava aquilo e que não queria repetir a experiência. Engoliu em seco, pensando em como poderia externalizar sua preocupação e cuidado de forma apropriada para sua interlocutora. — … Puta merda, Araminta. — Bem, ninguém poderia acusá-lo de ser prolixo. Bateu os braços nos lados do corpo uma última vez — já tinha apagado as mãos, mas era bom ter certeza antes que esturricasse a mulher tentando ajudá-la — antes de enfiar um braço por detrás dos ombros de Minty, o outro por debaixo dos joelhos e levantá-la sem cerimonia nenhuma, afinal, fosse perguntado, Qili diria para qualquer um que tinha cobertores mais pesados que a estilista. Fez uma careta ao medir a distância que tinham a percorrer, sabendo que não haveria forma confortável de carregá-la pelo campo com ossos quebrados enquanto desviavam de trasgos, ainda mais quando deveriam ter pressa. — Segura firme, e reclame a vontade. Dizem que ajuda com a dor. — Avisou, antes de respirar fundo e desembestar em uma corrida ainda mais apressada do que a última na direção do portão que tinham eleito como sua saída daquele inferno de campo.
Seu grande momento de heroísmo durou menos do que gostaria. Por mais que não esperasse muita coisa — era uma estrategista, não lutadora, e se nunca havia entrado em uma briga antes, imagine uma com ogros do dobro de seu tamanho —, queria ter sustentado a distração só um pouquinho mais, até que os amigos encontrassem a janela perfeita para uma fuga. Porém, tirar a paciência de monstros com superforça tinha seus riscos, e quando um deles enraiveceu-se e estapeou a águia com o dorso da mão, o pássaro derrocou e caiu no gramado com um baque violento. No mesmo instante, Araminta abriu os olhos e encontrou-se de volta no próprio corpo, sentindo uma dor aguda nas costelas e um incômodo no tornozelo direito (que imaginava ser uma torção). Após machucar a mão quando, certa vez, entrara no corpo de um gato, descobriu que as mesmas lesões que sofria como o animal apareciam em seu corpo humano. Talvez devesse ter pensado nisso antes de atirar-se em ogros assassinos e descontrolados.
Ela arrastou-se pelo chão até alcançar a estrutura da arquibancada e usá-la como apoio, levantando-se com dificuldade. Estava longe de onde os amigos lutavam e, se tentasse ir até eles, provavelmente viraria lanche de ogro. Contudo, a figura de Qi Liang vindo em direção a ela apareceu à sua frente e, assim, soube que estava salva. O que logo foi interrompido pela surpresa ao perceber que os braços dele estavam em chamas. “Qi Liang, você tá pegando fogo!” Apontou Araminta, embora imaginasse que qualquer um notaria caso estivesse pegando fogo. História para uma outra hora? “De nada.” Respondeu ao xingamento, torcendo o rosto em uma careta em seguida. Ela não precisou pedir para que Qili a carregasse, mas também não protestou quando ele, sem esforço, tomou-a em seus braços. Não era como se fosse correr grandes distâncias com o pé virado, então, em um caso excepcional, deixou que fizesse a escolha por ela. Segurou-se no outro com uma mão agarrada ao seu ombro enquanto a outra tocava a própria costela, como se isso fosse fazê-la doer menos ou não sair ainda mais do lugar. Certamente, a dor seria insuportável se não fosse pela adrenalina que corria pelo corpo, esquentando-o da cabeça aos pés.
Quando Qili começou a correr, segurou-se com ainda mais força; e alguns segundos depois, um terrível pensamento passou por sua mente. “Meus sapatos!” Exclamou, encarando as já distantes arquibancadas e o pontinho vermelho debaixo de uma delas. Sabia que Qili não voltaria para buscá-los — podia até ouvi-lo dizer “essa é sua prioridade agora, Araminta?”, com aquela cara de quem não estava surpreso, mas ainda assim decepcionado — e restou-lhe lamentar pelo par perdido, já que não tinha esperanças de encontrá-lo novamente depois que tudo aquilo acabasse. Ele estava errado, no entanto: reclamar não ajudava em coisa alguma, pois por mais que abrisse a boca para queixar-se, o tornozelo continuava a latejar e abdômen continuava a contrair-se em desconforto. “Sabe, eu já torci o tornozelo antes, numa aula de dança, mas essa é a primeira vez que quebro um osso e, deixa eu te contar, não é legal não. E se eu ficar — ai! Toma cuidado, seu bruto! — e se eu ficar toda roxa? Sempre que fico roxa, parece que apanhei de alguém! Quer dizer, agora eu realmente apanhei de alguém, mas… E a curandeira vai pedir que eu passe pelo menos uma semana sem usar saltos, e eu não posso ser vista em público sem saltos, Qili, isso é suicídio social. Já viu quanto eu meço de altura?” Disparou, sequer dando-se uma pausa para recuperar o fôlego. A pergunta era retórica, obviamente — Qili a conhecia desde que ela media menos de um metro e meio.
Percebeu para onde iam apenas após certo tempo; o portão mostrava-se cada vez mais perto e a imagem de Meili, Draco e os ogros mais distante. Araminta achou que voltariam para ajudar os dois, por isso, perguntou: “E eles?!” E virou a cabeça para o campo. Que sua intervenção houvesse comprado-lhes ao menos um pouco de vantagem.
Ô garota maldita, não dava nem ‘pra ficar com raiva quando ela vinha toda engraçadinha daquele jeito pra cima dele. Apesar de não ter mudado a expressão, a irritação que draco sentia em relação à falta de cuidado alheia rapidamente se dissipou, deixando apenas a preocupação no lugar, afinal, ainda estavam em uma situação complicada. - posso dar a bronca no encontro, então. - respondeu, a fingir que ainda estava com raiva, mas um pequeno sorriso dançava no canto de seus lábios. - você prefere um jantar ou um pique nique? - perguntou casualmente, como se não houvesse uma horda de ogros correndo ao redor deles naquele exato momento. se houvesse alguma alma penada observando a cena naquele momento, certamente teria pena de qi liang, que estava sendo obrigado a presenciar aquela breguice. honestamente o próprio draco tinha vontade de bater em si mesmo diante de seu próprio comportamento, mas o que podia fazer se gostava daquela menina? inferno.
a sequência de acontecimentos que se deu a seguir foi rápida demais, contudo, seu cérebro as processou na mesma velocidade em que ocorreram. em questão de instantes seu sangue estava fervendo, ao machucar araminta, os ogros haviam tornado aquilo pessoal. e draco não estava mais nem aí se eles eram alunos ou não. - se não iam, agora vão. - respondeu a meili enquanto seus olhos brilhavam verdes, disposto a pelo menos tentar fazer as criaturas virarem um guisado. concentrando magia de tonalidade esverdeada em suas mãos, ergueu os braços como se estivesse puxando algo pesado do fundo da terra, enquanto o pó verde se espalhava partindo de suas mãos. logo, uma parede de espinhos retorcidos ergueu-se ao redor de um grupo de ogros que se aproximava. os espinhos não eram grossos nem grandes o suficiente para detê-los por muito tempo, mas os atrasaria, e aquele era precisamente o objetivo. além disso, ao reuni-los, dava à meili alvos mais fáceis para atingir com raios.
aproveitando a abertura, o filho de malévola fez o que qili se recusou a fazer e correu para buscar o falcão ferido que araminta estivera controlando. não havia caído muito longe de onde estavam e o rapaz gostava de animais, oras, havia crescido numa floresta afinal, não deixaria a pobre criatura ser pisoteada. quando retornou ao lado de meili com o pássaro ferido em mãos, teve tempo de ver qili carregando araminta em direção ao portão. - sim, mas nós temos que ir agora. - draco disse para a filha de mulan, chamando sua atenção para que começassem a correr em direção à saída que tinham. erguendo a mão livre na frente do corpo, concentrou-se novamente e se preparou para perder uma grande reserva de energia mágica com o feitiço que estava prestes a lançar. - tomara que dê certo... - falou baixo, enquanto corria junto à sua não-namorada, e os ogros seguiam firmes em seu encalço. com um sussurro, recitou as palavras necessárias para que a magia entrasse em ação e, bem nas costas dele e meili, um portal surgiu, engolindo os ogros que os perseguiam e cuspindo-os em outro ponto do ginásio. infelizmente, não tinha forças suficientes para mandá-los para mais longe, realmente, não teriam outra oportunidade. - anda meili, estamos quase chegando! - dizia ao observar que se aproximavam tanto do portão quanto de qili e araminta. parecia que tudo estava dando certo.... contudo, talvez estivesse cantando vitória cedo demais.