Aquí (ainda) estamos
"Aquí estamos, siempre estamos No nos fuimos, no nos vamos Aquí estamos pa' que te recuerdes Si quieres, mi machete te muerde"
Esse é o grito de resistência cantado por Residente, vocalista da banda porto-riquenha Calle 13, e por Lisa-Kaindé Díaz e Naomi Díaz, as gêmeas franco-cubanas da dupla Ibeyi, na canção This is not America. Já conhecia essa música de outros carnavais, mas com os acontecimentos recentes me peguei traçando um caminho sinuoso de volta à ela.
Esse caminho de encontro a sonoridade latina começa com uma admiração distante, ao conhecer artistas como Shakira, ainda na adolescência. Mas me entender latina não veio naturalmente para mim, assim como para a maioria dos brasileiros. Precisei de alguns empurrõezinhos, como a identificação de Sangue Latino de Ney Matogrosso, ao rapaz latinoamericano que é Belchior, pelo feat da Marisa Monte com a cantora chilena Mercedos Sosa, ou a voz majestosa de Mercedes Sosa compartilhada com os gigantes da nossa música, Chico, Milton, Gal e Caetano. Fui até Carlos Gardel e caí em Elis Regina. A música, como sempre fazendo seu papel de me identificar e conectar ao mundo, foi quem me introduziu aos hermanos para além da fronteira, e mais importante, nos identificou como irmãos para uma dimensão além do que ouvi nas aulas de história que tive o privilégio de ter. Nós compartilhamos com nossos vizinhos muito mais do que novelas, música e rivalidades futebolísticas.
Somos o quintal imperialista dos vizinhos dos primos estadunidenses, que curiosamente ainda não se descobriram ainda colonos do ocidente europeu. O mesmo país que de barriga inflada pelo ego de quem cresceu aos moldes dos "pais" (desestabilizando, explorando e subjugando quem estivesse no caminho), foi inventado a partir da falaciosa luta pela liberdade e democracia, mas não se vê no espelho de suas terras natais, cuja perseguição o levou a invadir outras terras e cometer os mesmos atos de violência cometidos contra eles.
A violenta lógica capitalista e predatória do homem branco europeu é tão enraizada que até mesmo suas "vítimas", ao fugir de seu encalce prometendo criar um "Novo Mundo", são até hoje as maiores embaixadoras da velha ordem e do progresso individualista, desmedido e genocida que assolou meio mundo, dizimando povos, derrubando governos, desumanizando pessoas, monopolizando riquezas e recursos, destruindo o planeta.
Tudo isso a gente aprende na escola. Ou deveria. De qualquer forma, olhando pra tudo isso, para o ontem e para o que está acontecendo hoje, minha cabeça dá um nó. Vejo duas forças se digladiando pela construção do tempo. Lembro de uma cena que muito me emocionou em Volver, filme do Almodóvar, onde a atriz Penélope Cruz canta a canção homônima dos argentinos Carlos Gardel e Alfredo La Pera. (Uma curiosidade, Penélope não é cantora, então ela dublou, ainda que lindamente, uma cantora espanhola chamada Estrella Morente)
No enredo do filme, "Paula e a irmã Sole retornam à sua cidade natal no interior da Espanha, após a morte de Raimunda. Suas vidas são transformadas quando o fantasma da mãe morta aparece para ajudá-las a resolver questões do passado." Esse fantasma da mãe me lembra o fantasma do fascismo rondando nossas cabeças com as deportações dos nossos, a extrema direita ganhando força no mundo e tantos conflitos escalando por essa mesma vontade de fincar os pés num passado de grandes poderes baseados na destruição. Qual força antagonista pode parar tudo isso? Pensando nisso, minha mente viajou para 20 anos blue, música de Vitor Martins e Sueli Costa. Assim como o eu-lírico, acho que eu mesma, assim como a democracia brasileira e a dos países latinoamericanos que sofreram golpes financiados/apoiados pelo país do laranjão, levamos um belo susto ao descobrir que temos mais de 20 anos. Não muito, mas o suficiente pra tirar nossos pais das costas e quebrar esses tantos muros que construímos. Essa música, clássica na voz de Elis Regina, ganhou uma roupagem nova e belíssima da cantora Juliane Gamboa. Sou apaixonada por ambas, e entre as duas gravações até eu mesma tentei dar voz ao que me dói com esses versos. O vídeo que compartilho aqui hoje não é nenhuma dessas 3 versões, é uma ideia nova, que eu executei como pude, mas faço questão de compartilhar como uma provocação ao sentimento que me veio ao cantarolar as duas músicas juntas.
Estamos presos nos ciclos bilaterais: direita e esquerda que já são outra coisa do que eram quando do surgimento de seus conceitos; o novo derrubando o velho para se transformar em velho, atraindo mais uma vez a novidade já não tão nova assim. Será que esse ciclo termina? Como será seu fim? Não tenho a resposta, só perguntas. Será que a mudança de perspectiva pode trazer o nascimento de um novo antigo que sempre esteve lá e nunca percebemos? Como o olhar dos povos subjugados para o tempo. A força da natureza, feminina, em seus ciclos de vida e morte, é infinita. Talvez seja possível olhar para a vida como nossos povos ancestrais, a partir dela. O que isso quer dizer? Talvez algo que já tenha sido dito muitas vezes, mas por outras vozes. Esses dias eu vi o grito das mulheres em Berlim cantando Bella Ciao na praça, vi a resposta do governo Colombiano aos mandatos do mais novo presidente autoritário, vi o povo Palestino e o povo Sírio voltarem para suas terras após terem sobrevivido ao seus destinos já decretados por forças esmagadoras. Isso me dá esperança. Ver crianças sendo criadas por mães e pais (pais!) presentes e educadas para não se odiarem e respeitarem as diferenças me dá esperança. Ver pessoas acordando e se indignando com as injustiças promovidas por governos autoritários, bilionários psicopatas e megaempresas gananciosas, me dá esperança. Ver o cinema nacional chegar às maiores premiações mundiais com Ainda estou aqui e Fernandas, mãe e filha, um filme que fala de nós, feito por nós, me dá esperança. Ah, e o que nós, latinoamericanos, temos em comum além da cultura formada por um passado de luta e dor? Nós temos raizes na força cíclica da natureza e dos nossos ancestrais. A gente sabe muito bem como renascer das cinzas das destruições.
Novos olhares, novos tempos. No mesmo caminho, nem voltar, nem avançar, mas romper. A era de Aquário chegou. De uma grande BOOM! nasceu o universo. O que será que vai nascer se tudo o que conhecemos for pelos ares?












