eu sou além dessas tempestades que transpareço. eu também sou arco-íris me veja além das nuvens.


Kiana Khansmith

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eu sou além dessas tempestades que transpareço. eu também sou arco-íris me veja além das nuvens.

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Anaïs Nin, Delta of Venus, originally published: 1977
espero ser uma lembrança que tu ainda cuida bem
não daquelas que perseguem, não aquelas que assombram
nunca quis ser o tipo de lembrança que as pessoas contam quando estão tentando se conectar umas às outras
não acho que preciso
mas espero ser uma lembrança que ainda te comova, que tenha deixado resquício, que volte pelo menos uma vez por ano e te faça olhar pro nada, pro céu, pras próprias mãos
se você me tocou, que a sensação se repita falsamente nas pontas dos seus dedos
e se não tocou, que a vontade arrepie os pelos do seu pescoço
se você me amou ou mentiu ou quis amar e não conseguiu, que o suspiro seja porque você mudou, cresceu, virou outra coisa e deseja que eu também
então saiba que eu também, eu também sou outra
e independentemente do fim, se o começo foi bom, eu ainda lembro
espero ser uma lembrança
já que lembro de tudo
lembro de todos
pode ser que cê me encontre
mas nunca em outro alguém
só tem eu de mim
só tem eu
eu vou viver outra história de amor fajuta e daí escrever e daí você vai pensar que ainda estamos presos um ao outro e talvez até seja verdade mas não importa. nessa vida não importa mais. talvez na próxima, talvez a gente se resolve em outra, não nessa
daí eu vou encontrar esse cara e sei lá dormir com ele e sei lá me apaixonar e escrever sobre ele e então você vai ler ou quem sabe você não faça mais isso e sou eu que me conforto na ideia de que existo tanto na sua vida quanto você na minha
pensar que estamos atados deve ser porque ainda lembro
é que amar é exercício de memória e tenho medo de perder a parte de mim que só soube sentir e sentir e sentir por você
era uma parte boa. eu tinha problemas mas a minha versão que viveu a gente é tão querida, eu gosto tanto dela
preservo
eu a amei tanto, na época não parecia, eu estava triste com tanta frequência, mas ela tinha uma luz que eu queria guardar
não a encaro como a versão de mim que não segurou você, não há ninguém nesse mundo que te prendeu nas mãos
ela sofria tanto, mas eu a amo
eu amo a fé que ela tinha em quem eu sou hoje
minha ex idade, aquela que eu vivi em seu nome, é muito mais que isso
porque ela pode até ter te escrito, eu escrevi tantos homens
mas se você parar pra pensar
tanto pra ela, quanto pra mim, a certeza era uma
quem fica
sou eu

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and i pray, and I hope.
eu não sei fingir afeto. não sei fingir admiração ou cuidado. eu não sei colocar palavras e agradecimentos e abraços no colo de quem eu não sinto. eu não sei amar de mentira. eu não sei manter na minha rotina pessoas com quem não me conecto. eu não levo na minha casa pessoas que não estão no meu coração. eu não coloco nas minhas orações pessoas com as quais não me importo. eu não deixo a minha mãe gostar de quem eu não gosto. eu não simulo vínculo. eu não estreito laços com que não ligo que fique. eu não digo te amo levianamente. eu não peço desculpas só por pedir. eu não sei gostar só um pouquinho de nada. se eu confio, é porque meu coração já mediu as consequências milhares de vezes e eu decidi arriscar. não faço planos com quem espero não ver tanto. então quando te disser qualquer coisa, não duvida. eu não tenho tempo nem tato pra fingir sentir coisas que eu não sinto.
w,
quando eu fui a psiquiatra na primeira vez, ela tinha livros em francês na estante e quadrinhos enquadrados na parede. e o vestido que ela usava, a disposição dos móveis, o cheiro de café fresco, o falar manso, tudo naquela sala me dizia: é essa a pessoa que você quer ser. por um mês eu cogitei a possibilidade de fazer medicina e seguir em psiquiatria ou neurologia. quando chegou a primeira prova de biologia e eu tive que madrugar pra entender a diferença entre mitose e meiose, eu desisti. mas w, se eu fosse psiquiatra, eu te aceitaria de primeira. e te chamaria pra um chopp. e te diria que caramba: ser por dentro do tamanho de um planeta é meio explosivo às vezes. porque ninguém nem nada preenche um planeta gasoso. e ninguém visita ou fica num planeta gasoso. e é doloroso. e é penoso. e os gases inflamáveis explodem em qualquer faísca. e você sabe, não sabe? depois do fogo vem o morno, as cinzas, a desolação. imagina explodir toda vez em qualquer faísca e depois sucumbir e não restar. imagina viver assim, de fim, de pó, de nada. eu te aceitaria porque um planeta gasoso reconhece outro pelo olhar. mesmo que as cores distam. mesmo que os tamanhos não batam. mesmo que a localização seja absurdamente distante. mesmo que tudo, mas tudo seja diferente. dois planetas gasosos, quando se encontram, se perdoam, se respeitam, se acalmam. e qualquer pó de estrela no universo precisa de um pouco de calmaria.
voltei pra mim e foi infinitamente melhor do que esquecer você instantaneamente como implorei pra tudo quanto é santo. porque por mais inimaginável e cruel fosse o caminho de volta, às partes que eu deixei de ser - mesmo sem querer, ainda estavam lá. escondidas, borradas para serem qualquer coisa que não eu.
esquecer você instantaneamente era renunciar que quando se ama, ama-se tudo.
e você só amava me deixar de ser.
não a mim.
nos domingos calmos em que me enrolo no meu cachorro e só assisto as horas passarem, que engato um episódio de haikyuu atrás do outro e deixo o vento frio de um rio de janeiro chuvoso ditar a intensidade da minha respiração e a velocidade dos batimentos no meu peito é que percebo que existem dias semanas meses que nada abala meu coração. e me dar conta de que eu tenho esse controle é meio que o significado dos outros pra mim, quanto eu atribuo a eles, o que faço do que sentem ou do que não sentem, se é que isso é mesmo palpável. hum. acho que mais nova eu tinha uma sede por uma espécie de controle diferente porque, claro, eu era imatura e ingênua, então me frustrar porque eu não conseguia manobrar o que sentiam por mim parecia muito mais prioritário do que tentar controlar como eu respondia a tudo. e não é como se eu conseguisse todas as vezes me manter imaculada às emoções dos outros, mas detenho a receita, sei o passo a passo desse algoritmo. o que eu preciso fazer? eu sei, mas existem vezes que tudo que eu recebo é uma avalanche incontrolável, como um fenômeno da natureza. e não é isso mesmo? os nossos sentimentos não são fenômenos? como uma chuva forte ou um vento arrebatador? penso que sim, então os respeito muito. os que implodem e os que explodem.
minha rotina quase que contribui pra essa paz, há os dias ruins em que ela ao invés de confortar, massacra, mas num geral, acho o tedioso confortável porque não tenho mais medo de não significar nada, de ser desimportante ou descartável. é lógico que eu quero que lembrem de mim, mas o medo de esquecer, esse que podia corroer (e, pra ser sincera, as vezes corrói) não comanda a pressão do meu toque no mundo e nas pessoas dentro dele. eu quero tudo e quero muito, mas não precisa ser de uma vez e agora. ei. tenho calma. tenho impaciência também, mas só porque não sou de ferro, ah não. sou bastante maleável e invariavelmente frágil, mas constante. como as repetições mais enfadonhas que você já viu. quero ser isso também. gosto das aventuras, mas não desejo ser uma. não. acho que já passei da idade de imaginar ser furtiva assim. volta pra mim depois de um dia chato e cansativo. me repita como um hábito, eu não ligo. não ligo de ser uma mania que as pessoas não percebem que têm. porque elas estão lá, você as faz naturalmente, sem esforço
quero que me amar, me escolher, seja isso
mas se você não puder
tudo bem.
eu vou saber como ir embora, me adaptar, chorar por uns dias e depois continuar vivendo.
porque é o que eu faço. o que vou continuar fazendo. porque permanecer por vezes parece maior do que o bater triunfal de uma porta
e, pra ser sincera, nada nunca vai me tirar de mim

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ele me disse que existiam coisas que o faziam lembrar de mim: incenso, flamengo, drew barrymore da sza e a transição entre cinco da tarde e seis da noite. achei engraçado. como o intervalo de uma hora pode te lembrar de alguém?
então ele resgatou uma memória: a de quando eu o esperei na recepção do prédio onde ele trabalhava e perguntei se podíamos parar e comer alguma coisa. estávamos na primavera, não no verão, mas era um dia quente. sabe, pensei que não tinha absolutamente nada de especial nesse dia, mas ele me contou que acabamos na ouvidor pra tomar uma cerveja e tirei uma foto do meu copo com o dia anoitecendo ao fundo. foi esse momento, ele disse, que o intervalo de uma hora ressignificou um dia inteiro.
porque é assim, o amor é mesmo uma máquina de triplicar significados
éramos universitários cheios de sonhos, comentei. então ele sorriu e eu entendi porque minutos podem alterar toda uma vida.
disse que o amava, que sempre o amaria
existem essas pessoas, sabe? as que desafiam o tempo, cujo suor pálpebras curva do pescoço contam uma história, a delas e a sua própria. pessoas que são como ruas num lugar que você conhece bem. que te trazem pertencimento, tranquilidade, paz.
você é meu amigo há tanto tempo. você foi tantas outras coisas também
espero que o amor siga multiplicando nossas importâncias
porque se eu pensar bem, uma das coisas que me lembram você é o som que a cidade tem quando, numa sexta, há aquela esperança de que o fim de semana vai durar pra sempre
ter fé na nossa eternidade
você é a repetição dessa emoção, pra mim
Lana del Rey, from a poem featured in her poetry collection titled Violet Bent Backward Over the Grass
o amor sabe exatamente a hora de sair de cena
a gente é que tapa os ouvidos para o anúncio do fim
por não saber o que fazer com o que fica
depois que se encerra o último ato
eu tive uma amiga chamada clarice. clarice ainda está nesse mundo, mas não no meu. então é passado.
a clarice me disse que tudo me doía porque ao invés do meu corpo ser estratégia, ele era produto
e que usar um corpo como um produto não me faria ser um acontecimento e sim uma espectadora.
a clarice, você deve imaginar, era artista. então ela dizia essas coisas como se todo mundo pudesse entender do que ela tava falando.
e depois de pensar bem, eu inventei uma explicação pro que ela dizia. quer dizer, meu corpo geralmente era uma coisa que eu colocava na barganha: eu tenho isso e isso pra te oferecer então que tal você me entregar essa coisa
a coisa geralmente era amor e o meu corpo nunca foi moeda que valesse o suficiente.
naquela época e naquela idade eu era medida pelos outros. não que eu ainda não seja, eu só não acredito mais neles
enfim, clarice. ela gostava muito da música "dinorah, dinorah" do ivan lins e eu sentia como se ela fosse uma incerteza e não uma pessoa. que quando entra na sua vida só te faz pensar num "até quando". tudo nela era tempo, então o corpo como um plano fazia sentido. um plano pra escapar, pra não precisar caber, pra não precisar ter valor
eu tinha inveja dela. muita. mesmo sabendo que nenhuma de nós era feliz.
ela também me dizia que felicidade era um luxo. que o prazer era um luxo. que homens bons eram um luxo e que eu podia ter o nariz em pé, se quisesse
a clarice, entendi, também era um luxo
e apesar de eu não ter sido capaz de definir meu corpo como uma estratégia, fiquei feliz dele deixar de ser mais um produto
fiquei feliz de ter aprendido a não coloca-lo na conta
sempre penso na clarice quando penso nos limites que eu parei de permitir que ultrapassassem
porque no fim das contas, pra sustentar o próprio argumento, ela foi sim um evento
clarice
obrigada por ter acontecido
Emma Trelles, from "Brujitas"

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às vezes eu encontro um trecho de um texto num outro idioma que eu entendo pouco e guardo pra um dia, quando eu amar muito alguém de novo, possa lê-lo e contar que em algum momento eu acreditei tanto que ele chegaria que preferi guardar.
pra mim o amor tem uma grande dose de fé, então gosto de pensar que pra provar alguma coisa pra alguém preciso de uma certa forma de devoção
por isso eu meio que idolatro palavras, frases, poemas
pra que eu possa fazer com que contem a história de quando eu esperei pacientemente por algo
um dia eu vou amar muito alguém a ponto dele saber o que as palavras significam pra mim
mesmo que
ao fim do dia
eu consiga o amar sem elas
você poderia ter me dito coisas muito melhores do que as que disse. você poderia ter dito que ia começar a terapia e que ficaria ou que tentaria ser inteiro de novo. eu tinha a porra de um teste de gravidez em uma das mãos e todo meu corpo tremia porque eu não estaria pronta pra uma outra parte sua, uma da qual eu não poderia ou conseguiria me desvencilhar. e não é como se eu conseguisse fazer isso contigo, apesar de eu poder. porque deu negativo e eu voltei a respirar como um ser humano funcional e todas as palavras que saíram da sua boca pareciam tão afiadas por mais que não fossem absolutamente nada, que não significassem absolutamente nada porque por mais que elas pareçam promessas de amor e por mais que você me ame tanto quanto diz, se tu não escolhe a cura, é como se me rejeitasse de novo e de novo toda vez que saio da sua casa porque não posso ficar. eu não posso. e essa foi e é uma escolha sua. porque o meu poema na sua estante conta uma história, porque você conta uma história, porque é isso que a gente é: uma história pra ser contada, não vivida. será que nunca te dói? me amar, mas não a ponto de fazer algo sobre isso? será que não bate culpa ou remorso ou qualquer uma dessas emoções que num domingo podem ser catalisadoras? em mim dói e enfurece e depois acalma por que o que eu posso fazer? o que eu poderia fazer se meu corpo tivesse que carregar um filho seu? não pude corresponder a sua afirmação de que eu sou a única pessoa com quem você formaria uma família porque seria mentira. seria mentira porque eu ainda sou completamente capaz de seguir minha vida ainda que nos dias mais difíceis eu volte correndo pros seus braços. porque é confortável, jorge. porque seu silêncio foi e vai ser como uma espécie inexplicável de paz. porque é isso. porque a gente se conhece. porque eu sei ler suas micro expressões. porque eu te amo, mas não a ponto de querer te consertar. não quando eu me amo mais. talvez seja essa a questão. eu me amo mais do que eu amo você. finalmente. ainda que eu cometa tantos erros e tantas escolhas ruins. no fim, se eu tiver que escolher. sem pensar, sem vacilar, eu escolheria a mim.