Paralives - Desafio do bom samaritano - Primavera dia 18 - ano 1
Acordei com as galinhas hoje e, antes mesmo de sair da cama, peguei o celular para responder à mensagem da noite anterior. Usei uma pequena mentira amistosa para justificar o meu silêncio da madrugada... e, para a minha total paz de espírito, ele respondeu rapidamente.
Bloqueei a tela do celular com um sorriso bobo no rosto, mas também com aquele inevitável apertozinho de saudade antecipada. Sabendo que o Julien estaria imerso no trabalho e que o nosso dia seria feito de silêncios, acabei refletindo sobre isso enquanto tomava o meu café da manhã e lia o jornal do dia.
E por falar em ler o jornal... Melino nunca falha em me surpreender. Deparei-me com um comunicado oficial hilário — e ligeiramente preocupante — do prefeito. Ele mandou uma mensagem curta e clara a toda a população: um apelo desesperado para que os moradores parem de ligar para o SAMU só porque decidiram dar chocolates para a Stella! Zut! Onde é que a Stella se esconde, afinal? Eu preciso urgentemente encontrá-la. E prometo solenemente: não vou dar chocolates a ela!
Depois de rir sozinha com os absurdos da nossa vizinhança, aquela inicial sensação de ausência do Julien voltou a me rondar, mas de um jeito produtivo. Sentei-me diante do computador disposta a transformar esse silêncio em texto para o blog, falando sobre algo que nós, artistas, conhecemos muito bem: o charme dos espaços vazios.
Blog terminado, revisado e pronto para ser postado hoje à noite!
Mas como a vida real em Melino não é feita apenas de reflexões filosóficas, tive que desligar o computador e focar em problemas bem mais práticos: o meu bolso.
Como não consegui equilibrar muito bem o meu orçamento esta semana — e ela já está quase chegando ao fim —, o jeito foi correr contra o tempo. Fui direto para a floresta caçar cogumelos e tentar realizar os pedidos pendentes da comunidade. Digamos que eu levei a missão muito a sério... Passei a tarde focada e consegui destruir e colher cada cogumelo shiitake que encontrei pela frente! Tudo em nome da estabilidade financeira e de um saldo bancário decente.
No fim das contas, descobri que tinha me enganado de pessoa: eu pensava que o pedido era da Dona Harper, mas na verdade era da Dona Boyd. Acabei encontrando com ela na prefeitura. Ela é uma senhora muito simpática e me agradeceu diversas vezes, mas o problema é que ela também me contou, diversas vezes, todos os detalhes de suas crises de alergia sazonal.
Tentei ser paciente, mantendo um sorriso firme no rosto, mas chegou uma hora em que o desespero para sair dali falou mais alto. Para não ser indelicada, tive que inventar uma desculpa de última hora, dizendo que precisava buscar a filha de uma amiga na escola.
Peguei minhas coisas e saí de fininho, salva pelo gongo de uma obrigação maternal fictícia. Melino e suas figuras ilustres nunca deixam a minha vida ficar entediante.
Saindo da prefeitura, dirigi-me direto para a floricultura para encontrar a Solene. Estava com saudades de bater um papo com ela, já que não nos encontrávamos desde segunda-feira — quando ela me ajudou a decifrar o sumiço do Julien após o nosso date lá em casa. Quem diria que poucos dias depois o cenário seria tão diferente?
Mas a calmaria durou pouco. Assim que pisei na floricultura, o Martin me chamou com uma nova missão. Ele queria que eu desse um pouco de atenção e passasse um tempo conversando com três idosos da cidade para escutar as histórias deles. Na mesma hora, eu sorri para não chorar. Zut! Eu tinha acabado de passar duas horas e meia ouvindo a Dona Boyd! Podia ter matado dois coelhos com uma cajadada só se soubesse disso antes, kkkk!
Fazer o quê, não é?! Acho que, depois do meu texto de hoje cedo sobre o silêncio e os espaços vazios, o universo resolveu me mandar uma mensagem bem clara: eu preciso urgentemente treinar a minha paciência.
Após aceitar o pedido "inspirador" do Martin, fui finalmente bater um papo com a Solene. Ela ficou super feliz de me ver e confessou logo de cara que queria saber toda a fofoca com os mínimos detalhes. Como a floricultura já estava vazia e o assunto prometia, decidimos fechar as portas mais cedo e fomos discutir a vida no Chez Café Crème.
Adorei a ideia, pois assim eu já conseguia fechar o pedido de ir três vezes ao Café Crème. Nada como unir o útil ao agradável — e, de quebra, riscar mais uma meta da minha lista!
Sentamos e ficamos conversando como boas e velhas amigas fazem. Demos muitas risadas sobre todos os eventos que reportei a ela: as mensagens misteriosas, a aula de yoga, os silêncios... Até que resolvi tirar a limpo a minha maior dúvida.
— É você o tal "passarinho" da mensagem? — perguntei, semicerrando os olhos para a Solene.
— Não mesmo, miga! — respondeu ela, caindo na gargalhada. — O passarinho é o teu boy! A única coisa que separa a tua casa da casa dele são algumas cadeiras e algumas mesas com parasol.
Zut! Ele é meu vizinho?! Safadinho... Com certeza ele tem uma bela visão da minha sacada através da janela da casa dele. Ah, ele vai se ver comigo!
Caímos as duas na gargalhada no meio do café. Minha primeira reação foi pegar o celular; quase mandei uma mensagem naquela hora mesmo para dizer que já tinha descoberto a identidade do tal passarinho. Mas parei no meio do caminho. Tive uma ideia muito melhor...
De repente, o clima na mesa mudou. O riso da Solene sumiu e ela ficou séria.
— O que foi, amiga? — perguntei, sentindo um frio repentino no estômago. — Você parece ter ficado preocupada.
Solene levou um tempo para responder. Um silêncio pesado se instalou entre nós.
— O Kian e eu conversamos sobre você e o Julien — começou ela, medindo as palavras. — Estamos super felizes por vocês dois. Afinal, o Julien é o melhor amigo do Kian. Eu realmente não quero que pareça fofoca, mas... talvez você tenha que dar uma desacelerada na tua empolgação com esse romance.
Eu congelei. O que estaria por vir? Naquele silêncio, mil e uma ideias de catástrofes passaram pela minha mente em fração de segundos. Lembrei-me do que havia escrito no blog mais cedo sobre as paranoias que criamos no vazio. Decidi não dizer nada e dar o tempo que fosse preciso para a Solene falar, mas ela pescou o meu olhar desesperado.
— Miga, ele não é casado e não tem esqueletos escondidos no armário, tá? — Ela tentou fazer uma piada rápida para aliviar o clima tenso que havia se criado.
Confesso que só então voltei a respirar, porque a minha mente já o tinha imaginado casado, com três filhos e uma vida dupla. Ainda assim, permaneci em silêncio, esperando que ela continuasse.
— Como eu disse, o Kian e eu o adoramos e ficamos muito felizes por vocês. Para nós, seria perfeito ver vocês juntos, porque temos certeza de que teríamos muitas saídas de casal adoráveis. O problema é…
Solene fez mais uma pausa. O silêncio cortante parecia durar uma eternidade antes de ela finalmente soltar a bomba:
— A verdade é que os valores de vocês são um pouco diferentes, e o Julien não é bem esse príncipe encantado que você está idealizando. Ele é gentil e um baita camarada como amigo. Super altruísta. Se eu ligar para ele agora precisando de ajuda, ele larga tudo o que estiver fazendo para vir aqui. Se eu precisar de dinheiro emprestado, ele me dá e até esquece, não fica cobrando.
Juro que eu não estava conseguindo entender onde ela queria chegar com tudo aquilo. O cara parecia perfeito! A Solene percebeu a confusão estampada na minha expressão e continuou:
— O problema é que ele não é assim com todo mundo. Tem pessoas que chegam a dizer que ele tem dupla personalidade. O Julien é de natureza séria, extremamente by the book. Você observa isso só no jeito de ele se vestir, sempre impecável, de terno e gravata. Ele é muito inteligente, mas tem uma certa dificuldade nas relações sociais.
Ela parou um instante para tomar um gole de água, hidratar a boca e soltar o golpe de misericórdia:
— Ele trabalha demais, é um verdadeiro workaholic. É focado em ser o melhor e alcançar uma posição de grande destaque na empresa, sendo capaz de trabalhar até 18 horas por dia. O Julien é ambicioso, perfeccionista e extremamente exigente. Por causa disso, ele não é nada gentil com as pessoas com quem trabalha. Ele tem até um apelido no escritório: "Julien Priestly". Ele é o verdadeiro Diabo Veste Prada de Melino.
Nova pausa. E o meu mundo caiu em câmera lenta. A Solene continuou, destrinchando os bastidores:
— Como você sabe, ele trabalha em uma startup de tecnologia. Ele é o diretor de criação, e a grande rival dele lá dentro é a Samantha Stark, a diretora de operações. Ela é o completo oposto dele com a equipe: foca em manter um ambiente de trabalho o mais dinâmico, agradável e positivo possível. Porém, ela não é tão santinha assim... A verdade é que ela se faz de amável para que os outros façam o trabalho dela. Por conta disso, ela tem uma posição na empresa até melhor que a dele, mesmo trabalhando bem menos.
Outra pausa. Eu continuava absorvendo aquele choque de realidade sobre o mundo do Julien.
— Eu já tentei ajudar o Julien várias vezes — desabafou Solene, olhando-me com sinceridade. — Ele simplesmente não tem a habilidade social que a Samantha tem, você me entende? A esperança do Kian e minha é que você, com esse teu jeito dócil e amável, consiga adoçar um pouco o Julien. Quem sabe assim ele deixa de ser tão workaholic, passa a ser mais amigável com os colegas de trabalho e comece a ver que tem mais na vida do que só trabalhar e ganhar dinheiro.
Fiquei em silêncio, sem saber o que dizer… Era muita coisa para processar de uma vez só. No meio daquele vazio, a imagem do Maurício me veio à mente imediatamente. Ele era exatamente assim: implacável com as pessoas e comigo. E a verdade mais dolorosa é que eu nunca fui capaz de adoçá-lo.
O apelo da Solene ficou ecoando no ar, mas o peso do passado me puxou para o chão. Na ficção, a receita é infalível: a mocinha dócil e artística chega, quebra a armadura do CEO frio, e eles vivem felizes para sempre. O clássico romance de banca de jornal.
Nos livros o final é sempre esse, mas a vida real não funciona assim, e eu já tinha cicatrizes suficientes para saber que ninguém muda ninguém.
Olhei para a Solene com o estômago revirado. Qual seria o nosso final? Um roteiro de cinema perfeito ou a repetição da dura e complexa realidade? Será que eu estava me jogando de novo nos braços de um homem que prioriza o poder, ou o Julien Priestly era diferente?
Decidi que não ia tentar salvar o Julien de si mesmo — eu não seria a terapeuta de mais ninguém. Mas, por enquanto, o mistério de quem ele realmente era quando as luzes do escritório se apagavam só me deixava ainda mais intrigada.
Vendo o meu silêncio, ela continuou:
— E tem mais, miga! Não queria colocar mais fogo na fogueira, mas acho melhor eu te contar do que você acabar sabendo pelas fofoqueiras de plantão da cidade. As más línguas dizem que o Julien é assim porque levou um baita fora da Samantha quando eles ainda estudavam na Universidade McGill. Dizem que ele nunca superou esse rolo e guardou essa amargura dentro dele. E, para piorar, a Samantha vive fazendo joguinhos com ele na empresa. Sinceramente, eu não sei... Eu mesma já vi uma vez, numa festa, a Samantha dar em cima dele na cara dura. O Julien é extremamente discreto com a vida amorosa e nunca comentou nada sobre o assunto conosco.
Meu mundo ruiu. E a Solene percebeu o estrago na hora.
Olhei para ela, engoli o seco que havia se formado na minha garganta e fui sincera: disse que não sabia o que dizer, que a minha cabeça estava rodando e que eu precisava urgentemente de um tempo sozinha para pensar.
Pagamos as contas no balcão em um silêncio desconfortável e nos separamos ali na calçada mesmo.
Caminhei de volta para casa sentindo o ar frio da noite, encarando o chão. De repente, a visão da minha sacada e as mesas com parasol do café já não pareciam tão divertidas assim. Eu queria o silêncio que tanto busquei hoje cedo, mas não esse silêncio cheio de perguntas sem respostas. Como eu ia olhar para a janela do meu vizinho amanhã sabendo de tudo isso?
Durante todo o caminho de volta para casa, senti-me como se tivesse um tsunami no meu interior... Meu passado com o Maurício se misturava com o meu presente com o Julien. O medo, a dor e as incertezas bateram forte no meu âmago.
Quando me sentei diante do computador para publicar a crônica, um vazio enorme tinha tomado conta do meu ser. Agradeci aos céus pelo texto de hoje já estar finalizado na memória, pois eu não seria capaz de escrever uma única linha naquele momento.
Fechei a tela e fui me deitar sem sequer olhar para o celular; eu simplesmente não saberia o que fazer ou o que responder se visse uma mensagem de boa noite do Julien ali. Apaguei as luzes e me encolhi debaixo das cobertas. Eu precisava desesperadamente do consolo silencioso da Stella.
E assim termina mais um dia em Melino.